Apavorado

Estou apavorado. Isto é muito pior do que imaginar a minha própria morte, soterrado por livros, como aconteceu ontem, pela 1h.38m, depois de ver as estantes do "escritório" abanar violentamente. A comunidade literário-bloguista descobriu que eu tinha um blogue. E passou a palavra!

Antes de mais, estou agora impossibilitado de continuar a dar grandes erros ortográficos e outros (e eu que gosto de nunca ler o que escrevo, e escrever depressa!). Em segundo lugar disseram que eu vou escrever sobre livros! É natural que o faça, mas a verdadinha é que nunca gostei de escrever sobre livros (até gosto pouco de falar sobre eles). É uma coisa difícil de explicar. Uma coisa entre mim e eles. Vem desde que, aos 8 ou 9 anos, descobri, numa cave bafienta (miuto, muito bafienta), atrás de uma porta escondida por caixotes, numa antiga casa-da-caldeira da casa onde viviam os meus avós paternos, no Porto, uma arca. Uma daquelas arcas enormes e antigas pelas quais o Barbanegra teria morto e morrido. Nessa arca, ferrujenta e bafienta, também ela, estavam "escondidos" quilos e quilos de livros e revistas de banda desenhada de tempos idos, que tinham pertencido a tios, tios-avós e outros graus de família que nem sei nomear.

Ora isso, aliado ao facto de o meu avô materno ser um fabuloso contador de histórias que, alegadamente, tinha lido em livros (só muitos anos mais tarde percebi que ele pegava em histórias aqui e ali - também em livros, que era um grande leitor - e adaptava às aventuras os personagens que criara para me entreter), fez com que, em pouco tempo e menos visitas ao Porto ainda, fossem dar comigo a recortar as páginas das revistas de BD onde figuravam as histórias de que eu gostava, colando-as em folhas brancas e criando revistas a meu gosto (claro que hoje me arrepio com o que na altura estraguei).

Pouco tempo depois, os meus pais tremiam sempre que alguém perguntava o que eu queria ser quando fosse adulto (grande era difícil, porque eu sempre fui alto), "EDITOR".

Mas se essa foi a minha profissão de escolha e a minha formação em Línguas e Literaturas Modernas, uma coisa percebi cedo: eu não gostava de falar ou escrever sobre livros. Gostava de os dar a ler. Acho que há demasiado de pessoal entre o Editor e o Livro para poder ser expresso sem o devido grau de hermetismo próprio de relações "pessoais" muito próximas, quase familiares. Mais tarde aprendi que isso era justificado dentro da corrente da Teoria de Literatura que dá pelo nome de Estética da Recepção. Mas aqui aplicada ao Editor num trajecto inverso ao que geralmente leva a que se aplique ao leitor.

Pois, se criei este blogue, foi com a intenção de matar o tempo enquanto esgoto o prazo que me dei para arranjar emprego como editor antes de ir trabalhar para a Pizza Hut. Outro projecto mais sério foi o blogue musical que criei, esse sim pensado há muito tempo e com alguns ensaios práticos. E isto porque gosto de ouvir música enquanto leio. Agora tenho de viver com esta responsabilidade em cima das costas, qual Atlas a mirar desconfiado o tubo de Ozonol...

2 comentários:

Hugo Xavier disse...

Bem, agora que penso nisso (pensamento derivado certamente das altas horas), podia ter sido pior. E se eu gostasse de falar de livros? Que aconteceria se os meus pais ouvissem a pergunta: Que queres ser quando fores adulto (grande era difícil, porque eu sempre fui alto) e a resposta? "CRÍTICO"

Sílvio Silva disse...

não sei se o meu prédio tremelicou ou se o quarto dos meus vizinhos foi arrasado com violência. No aconchego do meu sonho, a verdade do presente é simplesmente uma miragem.
Mas,na presença das imagens reais, a vontade de conquistar o céu é demasiado forte para desistir...não desistas de procurar o teu emprego como editor...

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