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Lérias
0 comentários domingo, 2 de outubro de 2011Já li quatro magníficas Lérias do Miguel. Como todos saberão, a linguagem humana nasceu da necessidade de propagar lérias. Daí que toda a linguagem, de forma mais ou menos perfeita, seja ficção, sejam lérias, seja mentira mesmo quando conta ou pretende meramente referir a verdade.
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A fracção do todo
0 comentários quinta-feira, 8 de setembro de 2011Foi um dos maiores sucessos editoriais de 2008. Tinha perto de 700 páginas e era uma obra de estreia de um autor australiano obviamente desconhecido. Tinha tudo para não ser um sucesso.
«Uma parte do todo» de Steve Toltz, foi publicado em cinco continentes com um reconhecimento universal da crítica. Foi finalista do Booker (de que consta ser a primeira obra de estreia de um autor não-britânico a alcançar tal posição) e do Guardian Firrst Fiction Award. Traduziu-se e traduz-se ainda em mais de 40 países apesar da dificuldade orçamental de lidar com uma tradução caríssima e o risco de se apostar numa obra de estreia cujo autor não garantiu ainda sequência.
Ainda assim a aposta foi unânime por parte dos melhores editores estrangeiros.
O que leverá a que isto assim seja, perguntam-me. A qualidade transversal da obra: um calhamaço que nunca se repete, nunca abranda o ritmo e tem personagens únicas em situações extravagantes do princípio ao final do livro.
A história de uma família de anti-heróis apostados declaradamente em defender a honra da herança australiana enquanto colónia para ladrões, assassinos, malfeitores, prostitutas e o que mais viesse. As sucessivas gerações desta família, cujas histórias e os tempos se cruzam, estão apostadas em ser as piores dos piores.
Assim, o livro brinca com conceitos como 'justiça', ou 'verdade', ou 'honestidade' e, claro, 'ficção' como poucos podem fazer; e fá-lo ao mesmo tempo que conta uma grande história, faz com que o leitor identifique o lado mais perverso da sua alma com a daqueles bons-maus ou maus-bons, e fá-los rir sem parar.
Talvez seja também um dos poucos triunfos modernos da aventura pincaresca mas é, acima de qualquer outra coisa, um livro que ninguém esquecerá. Uma história que atravessa veloz 700 páginas para, no final, deixar vontade de muito mais.
Em Outubro nas melhores livrarias.
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O Diabo na Ulisseia em Setembro
2 comentários sexta-feira, 2 de setembro de 2011Isaac Bashevis Singer viu o nascimento e crescimento do nazismo (que, aliás, foi essencialmente contemporâneo do seu), assustado pela sua proximidade e significado, emigrou em 1935 para os Estados Unidos trazendo na mala boa parte de um romance intitulado «Satã em Goray», escrito na sua língua natural, o iídiche.
Publicado originalmente por capítulos numa revista literária, este é um romance histórico passado numa pequena aldeia judaica geograficamente localizada na Polónia hodierna. Uma aldeia que apenas acabou de recuperar dos massacres perpetrados durante as invasões dos cossacos, que se apercebe da sua debilidade e da insegurança que a rodeia, da probabilidade da fome e da doença que o futuro poderá trazer. E é a essa aldeia que chega um dia o estranho Sabbadai Zevi que se apresenta como o novo Messias. Essachegada marca o momento em que, contra todos os apelos da razão, a comunidade acaba por se entregar nas mãos dessa fé cega.
Lê-se como romance histórico, como disse, mas é também, claramente, um romance-alegoria sobre a implantação do nazismo e um alerta muito sério para os nossos tempos de crise financeira e grave insegurança.
Andava há anos para publicar este romance mas só hoje o pude fazer pelo que estou bastante satisfeito. Preferia tê-lo feito a partir do iídiche mas não há tradutores em Portugal, ainda assim foi o próprio Singer que ou traduziu ou supervisionou as traduções das suas obras para inglês pelo que a traição será menor.
Satã em Goray, de Isaac Bashevis Singer (trad. de João Carlos Alvim)
Só com uma nota final, que os editores também têm de vender o seu peixe: Singer foi galardoado com o prémio Nobel de Literatura em 1978 e esta é a primeira vez que este seu romance vê a luz do dia em Portugal. Opinem.
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Asimov em Setembro na Ulisseia (como nunca o viram)
0 comentáriosSe um grupo de cavalheiros se reunisse regularmente num clube nova iorquino para desvendar mistérios dos quais possuiam apenas uma notícia ou um relato (obviamente incompletos ou parciais), se durante os magníficos jantares servidos pelo extraordinário Henry se fossem tecendo as possibilidades de solucionar a intriga, isso seria
Os Crimes dos Viúvos Negros, de Isaac Asimov (trad. por Raquel Dutra Lopes)
Na época em que o policial negro americano a la Spillane era rei e senhor, Asimov, convidado pela Ellery Queen Mystery Magazine, escreveu uma série de contos de aparência clássica mas que, na realidade, para além da fachada de boas histórias policiais (que são) é, ainda assim, um conjunto de ensaios sobre lógica, mecanismos da ficção e a Verdade.
Este é um daqueles pequenos tesouros da literatura que me deu imenso prazer descobrir. Espero que também gostem.
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Ler mais, Ler melhor dedicado a Maria Judite de Carvalho
0 comentários quarta-feira, 31 de agosto de 2011Serviço noticioso
0 comentários sexta-feira, 12 de agosto de 2011Dentro do espírito original deste blogue (e também devido à falta de tempo para nele escrever com regularidade) criei um espaço na coluna da direita que num impulso pensei denominar como "Serviço de rapidinhas" mas rapidamente percebi que isso atrairia um fluxo de visitantes indesejados sobretudo agora em tempos de crise. E nasceram as "Curtas": pequenas notícias e destaques sobre a área da cultura que eu quero partilhar convosco. Por exemplo um grande livro que descubro numa Amazon ou um preço de saldo num DVD, ou o lançamento de um livro daqueles que vale a pena, etc.
Faz tudo parte do meu novo sistema de economizar tempo e esforço: antes ficava bastante tempo a meditar (enquanto fazia outras coisas) naquilo que iria colocar no blogue para destacar uma destas pequenas notícias e quando finalmente tinha tempo já a notícia não tinha actualidade. Agora em jeito de espelho do esforço de reconversão do país, economizo. e como não sou de modas e não uso o Twitter... teve de ser assim.
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Faz tudo parte do meu novo sistema de economizar tempo e esforço: antes ficava bastante tempo a meditar (enquanto fazia outras coisas) naquilo que iria colocar no blogue para destacar uma destas pequenas notícias e quando finalmente tinha tempo já a notícia não tinha actualidade. Agora em jeito de espelho do esforço de reconversão do país, economizo. e como não sou de modas e não uso o Twitter... teve de ser assim.
Os consagrados da Ulisseia
4 comentários quinta-feira, 7 de julho de 2011Uma das apostas da Ulisseia é, como já mencionei diversas vezes, a construção de um catálogo de ficção de referência. Aliás é a sua principal aposta.
Isso implica construir um catálogo com base dos modernos cânones da literatura mas, ao mesmo tempo, incluir clássicos e clássicos modernos e implica, no meu entender, conhecer os cânones literários que também são - ou vão sendo - desconhecidos em Portugal.
Daí que, antes de falar dos consagrados que certamente conhecem, quero falar sobre a última novidade da Ulisseia que dificilmente conhecerão.
Tarjei Vesaas, o autor, foi por três vezes candidato ao Nobel, venceu o prémio do Conselho Nórdico e é unanimemente reconhecido nos países escandinavos como o autor norueguês mais importante ó século XX ao lado de Hamsun.
A escrita de Vesaas é cristalina e aparentemente muito simples. Debaixo dessa superfície de simplicidade para uma floresta de significações que fazem de histórias simples, lições de narrativa e de vida.
Este livro será aquilo que os ingleses chamam o coming-of-age novel e os alemães buildungroman, um romance curto - os romances de Vesaas raramente ultrapassam as 200 e poucas páginas - que se desenrola ao longo de uma noite de Primavera, daquelas noites em que, pelas paragens mais frias do Norte europeu, a neve começa a derreter mesmo quando por vezes ainda cai. Dois irmãos - Sissel de 16 anos e o seu irmão mais novo Hallstein - ficam sozinhos por uma noite na ausência dos pais, na casa da quinta onde habitam. Ao começo da noite um co«njunto de estranhos estranhos (perdoem-me a repetição) bate-lhes à porta.
Aquilo que era para ser uma noite tranquila e controlada é de imediato tomada de assalto por uma enorme tensão. Com o carro avariado, entram na casa uma mãe em trabalho de parto, um pai quase histérico, um padrinho acriançado, uma madrinha paralítica mas que talvez não o seja e uma estranha rapariga com a qual, apesar de nunca se terem cruzado, Hallstein tem sonhado nos últimos tempos.
De manhã tudo terá mudado e a adolescência também terá partido durante a noite.
A força da escrita de Vesaas é assombrosa. Quando primeiro li este autor disse para mim que tinha de o publicar. É como um Murakami nórdico sem o ser bem. Dêem-me depois as vossas opiniões.
Quanto ao Pavese que esteve desaparecido do mercado durante anos aparecendo apenas de forma pontual aqui e ali em edições sem continuidade, é um dos mais importantes nomes da literatura europeia da primeira metade do século XX.
É o escritor do modernismo das sensações, da indefinição do sentimento. Apresentando sempre estas temáticas numa lógica de romance quase clássico.
É nossa intenção publicar as obras de Pavese ao ritmo de 1 a 2 títulos por ano e devolver-lhe o seu merecido lugar entre os grandes nomes da literatura.
Um dos meus problemas com Golding, prémio Nobel da literatura e vencedor do Booker, é a sempre difícil relação que o leitor tem com os personagens. Há uma frieza que marca a distância entre os dois níveis e que, apesar da qualidade da escrita e da originalidade dos enredos, nos mantém claramente na posição que o autor pretende que tenhamos: observadores imparciais.
Este livro não é assim. Provavelmente também porque será a obra mais autobriográfica de Golding.
A história é divertida e pisca a vários passos o olho ao leitor. Arrasta-o para si e para os personagens daquela pequena aldeia do interior rural de Inglaterra onde o jovem narrador quer viver o seu sonho de se tornar "artista", coisa inaudita e que acarreta significações não muito abonatórias para si.
Um livro sobre a coragem de assumir a diferença num meio que não a aceita e a julga através de preconceitos equívocos e equivocados.
Divertido e comovente e, sobretudo, importante.
Heinrich Böll é um pouco (ou muito) como aqueles cientista comportamentais que pegam em vários seres vivos de uma comunidade e os colocam em situações e realidades diferentes e estranhas para ver como se comportam e se se adaptam.
A temática central da obra de Böll foi sempre essa: como se comportam os seres humanos face a situações extremas.
À lupa do microscópio-pena do autor desenrola-se, neste romance, a vida de uma família da alta burguesia alemã que procura refazer a sua vida num cenário de completa destruição do pós guerra.
Quem pense que estamos perante um romance sério e duro sobre condições extremas, desengane-se. Este livro é uma deliciosa comédia de aparências que joga de uma forma moderna com um tema tão pós-moderno como é a identidade e a sua diferença da imagem.
Daqueles livros que são irrepreensivelmente bem escritos, provocam muitas gargalhadas nos momentos certos e nos obrigam e pensar muito sobre certas coisas.
O autor também ganhou o Nobel.
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Isso implica construir um catálogo com base dos modernos cânones da literatura mas, ao mesmo tempo, incluir clássicos e clássicos modernos e implica, no meu entender, conhecer os cânones literários que também são - ou vão sendo - desconhecidos em Portugal.
Daí que, antes de falar dos consagrados que certamente conhecem, quero falar sobre a última novidade da Ulisseia que dificilmente conhecerão.
Tarjei Vesaas, o autor, foi por três vezes candidato ao Nobel, venceu o prémio do Conselho Nórdico e é unanimemente reconhecido nos países escandinavos como o autor norueguês mais importante ó século XX ao lado de Hamsun.
A escrita de Vesaas é cristalina e aparentemente muito simples. Debaixo dessa superfície de simplicidade para uma floresta de significações que fazem de histórias simples, lições de narrativa e de vida.
Este livro será aquilo que os ingleses chamam o coming-of-age novel e os alemães buildungroman, um romance curto - os romances de Vesaas raramente ultrapassam as 200 e poucas páginas - que se desenrola ao longo de uma noite de Primavera, daquelas noites em que, pelas paragens mais frias do Norte europeu, a neve começa a derreter mesmo quando por vezes ainda cai. Dois irmãos - Sissel de 16 anos e o seu irmão mais novo Hallstein - ficam sozinhos por uma noite na ausência dos pais, na casa da quinta onde habitam. Ao começo da noite um co«njunto de estranhos estranhos (perdoem-me a repetição) bate-lhes à porta.
Aquilo que era para ser uma noite tranquila e controlada é de imediato tomada de assalto por uma enorme tensão. Com o carro avariado, entram na casa uma mãe em trabalho de parto, um pai quase histérico, um padrinho acriançado, uma madrinha paralítica mas que talvez não o seja e uma estranha rapariga com a qual, apesar de nunca se terem cruzado, Hallstein tem sonhado nos últimos tempos.
De manhã tudo terá mudado e a adolescência também terá partido durante a noite.
A força da escrita de Vesaas é assombrosa. Quando primeiro li este autor disse para mim que tinha de o publicar. É como um Murakami nórdico sem o ser bem. Dêem-me depois as vossas opiniões.
Quanto ao Pavese que esteve desaparecido do mercado durante anos aparecendo apenas de forma pontual aqui e ali em edições sem continuidade, é um dos mais importantes nomes da literatura europeia da primeira metade do século XX.
É o escritor do modernismo das sensações, da indefinição do sentimento. Apresentando sempre estas temáticas numa lógica de romance quase clássico.
É nossa intenção publicar as obras de Pavese ao ritmo de 1 a 2 títulos por ano e devolver-lhe o seu merecido lugar entre os grandes nomes da literatura.
Um dos meus problemas com Golding, prémio Nobel da literatura e vencedor do Booker, é a sempre difícil relação que o leitor tem com os personagens. Há uma frieza que marca a distância entre os dois níveis e que, apesar da qualidade da escrita e da originalidade dos enredos, nos mantém claramente na posição que o autor pretende que tenhamos: observadores imparciais.
Este livro não é assim. Provavelmente também porque será a obra mais autobriográfica de Golding.
A história é divertida e pisca a vários passos o olho ao leitor. Arrasta-o para si e para os personagens daquela pequena aldeia do interior rural de Inglaterra onde o jovem narrador quer viver o seu sonho de se tornar "artista", coisa inaudita e que acarreta significações não muito abonatórias para si.
Um livro sobre a coragem de assumir a diferença num meio que não a aceita e a julga através de preconceitos equívocos e equivocados.
Divertido e comovente e, sobretudo, importante.
Heinrich Böll é um pouco (ou muito) como aqueles cientista comportamentais que pegam em vários seres vivos de uma comunidade e os colocam em situações e realidades diferentes e estranhas para ver como se comportam e se se adaptam.
A temática central da obra de Böll foi sempre essa: como se comportam os seres humanos face a situações extremas.
À lupa do microscópio-pena do autor desenrola-se, neste romance, a vida de uma família da alta burguesia alemã que procura refazer a sua vida num cenário de completa destruição do pós guerra.
Quem pense que estamos perante um romance sério e duro sobre condições extremas, desengane-se. Este livro é uma deliciosa comédia de aparências que joga de uma forma moderna com um tema tão pós-moderno como é a identidade e a sua diferença da imagem.
Daqueles livros que são irrepreensivelmente bem escritos, provocam muitas gargalhadas nos momentos certos e nos obrigam e pensar muito sobre certas coisas.
O autor também ganhou o Nobel.
Literatura de língua portuguesa na Ulisseia, um (ou 4) desafios
6 comentários quarta-feira, 29 de junho de 2011Já vos falei um pouco do que andava a fazer na Ulisseia mas este ano posso concretizar com mais propriedade ainda aquilo que pretendo fazer em termos da edição de obras de autores de língua portuguesa. Também nessa área, como nas restantes, o desafio que me foi feito é a edição de ficção de referência: publicar não apenas autores consagrados como novos autores que prometam vir a fazer parte de cânones futuros.
Claro que essa é uma escolha do editor e portanto gostaria mesmo de saber a vossa opinião - depois de lidos os livros - opiniões pelas contracapas são, no mínimo discutíveis.
Por outro lado um nome consagrado mas esquecido: a grande Maria Judite de Carvalho. Este será o seu único (e formalmente verdadeiro) romance (curto ou novela longa). Narradora maior da situação da mulher numa sociedade cada vez mais desumanizada.
MJC fala da solidão como poucos escritores em todo o mundo conseguiram: com uma verdade incómoda e impossível de contornar. Uma incomodidade que se torna física e asfixiante. De repente temos de pousar o livro e olhar em roda. Como dizia o Eduardo Pitta, provavelmente não com estas palavras que seguem por fraca memória, a escrita de MJC vale por todo um seminário de escrita criativa.
Curiosamente próximo do livro do Fernando Esteves Pinto está este também violento romance-choque do Paulo José Miranda (primeiro prémio Saramago) a quem desafiei para regressar à edição deste lado do canal - ele vive agora do outro lado do Atlântico.
Uma obra que põe a nu o vazio das relações modernas e a necessidade de uma violência física e psicológica para comunicar os sentimentos que não conseguimos sequer entender por nós próprios. Crítica do nosso mundo da comunicação em que comunicamos levianamente tudo o que temos de superficial para comunicar mas nunca nos abrimos. E quando o queremos fazer não há como.
Alguém há-de lembrar-se de um livro publicado pela Bertrand em Portugal, corria o ano de 1976. Uma obra proibida no Brasil aquando da sua publicação poucos anos antes e só "liberado" 9 anos depois. Cá também esteve fora de circulação até 1976. Chamava-se «Zero» e durante a Expo 98 foi considerada uma das 100 obras de língua portuguesa do século XX.
«Zero», que vamos publicar em Outubro comemorando, cá como no Brasil, o aniversário da sua polémica publicação, será provavelmente o único romance verdadeiramente inovador do século XX depois das experiências modernistas joycianas (ok, a heresia é minha). Este outro, livro com que começamos a publicação das obras de Loyola Brandão por cá, é algo totalmente diferente mas que, também ele, foi inovador na forma como abordou questões ambientais naquilo que poderia chamar-se um pan-romance, sobretudo pela pluralidade de leituras que permite e pela pluralidade de leitores a quem abre a porta.
Diz-se muitas vezes que os autores brasileiros não vendem em Portugal e até é verdade. À excepção daqueles grandes nomes incontornáveis, qualquer nome que se apresente não merece sequer uma palavra da crítica, quanto mais a atenção dos leitores. Daí também o meu desafio: se é um leitor que gosta de qualquer uma seguintes coisas (independentemente se gosta das outras), se gosta de uma grande história seja ela de amor, policial/thriller, ficção científica, ambientalista ou poética; se gosta de obras escritas numa linguagem aparentemente simples mas onde cada palavra para além de se poder ler à superfície encerra em si outros significados e uma poesia tremenda; se gosta de grandes romances metafóricos comparáveis, por exemplo, a «Ensaio sobre a cegueira», mas que vão muito para lá desse livro em qualidade literária propriamente dita e "inventividade", experimente umas páginas deste mundo onde o desaparecimento da camada de ozono obriga o ser humano a viver de noite e debaixo da terra, a comprar frascos com cheiro de flores ou terra molhada e onde, ainda assim, é tão difícil aceitar a nossa culpa em tudo isso como quebrar as regras de um amor.
É isto. Ficam os desafios e esperam-se as opiniões.
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Claro que essa é uma escolha do editor e portanto gostaria mesmo de saber a vossa opinião - depois de lidos os livros - opiniões pelas contracapas são, no mínimo discutíveis.
Assim este ano o romance-choque de Fernando Esteves Pinto, «Brutal». Uma obra para quem gosta da literatura que dá socos, bem aveludados, no estômago do leitor (daqueles socos no estômago que sobem à cabeça porque obrigam a pensar). O Miguel Real disse já por várias vezes que o Fernando é dos poucos escritores portugueses a saber escrever - e como! - sobre sexo mas eu creio que vai muito para lá disso. Há algo de existencialista na sua escrita que o aproxima da força de um «Húmus», esse objecto estranho da nossa literatura, e de «A morte do palhaço», outro ainda mais estranho produto de Raul Brandão.
O livro segue duas idades de um mesmo personagem, fascinado por teatro, que narra trazendo em encenações palpitantes à boca da cena os traumas de infância que enformam a sua difícil relação com a sua companheira. Olhar e diálogo entre os diversos tempos sobre si mesmos e sobre os outros (tempos entenda-se) é um encadear de momentos vívidos escritos de forma inesquecível. Agora não o escondo: é um livro difícil. A Maria do Rosário teve o livro em sua posse mas admitiu que era um livro bom mas difícil de encontrar público. O que acham? São leitores preparados para pugilato literário ou daqueles que preferem ser acarinhados pelas suas leituras? Cada um destes tipos de leitor tem as suas vantagens e desvantagens, as suas glórias e misérias mas os primeiros são mais raros.
MJC fala da solidão como poucos escritores em todo o mundo conseguiram: com uma verdade incómoda e impossível de contornar. Uma incomodidade que se torna física e asfixiante. De repente temos de pousar o livro e olhar em roda. Como dizia o Eduardo Pitta, provavelmente não com estas palavras que seguem por fraca memória, a escrita de MJC vale por todo um seminário de escrita criativa.
Curiosamente próximo do livro do Fernando Esteves Pinto está este também violento romance-choque do Paulo José Miranda (primeiro prémio Saramago) a quem desafiei para regressar à edição deste lado do canal - ele vive agora do outro lado do Atlântico.
Uma obra que põe a nu o vazio das relações modernas e a necessidade de uma violência física e psicológica para comunicar os sentimentos que não conseguimos sequer entender por nós próprios. Crítica do nosso mundo da comunicação em que comunicamos levianamente tudo o que temos de superficial para comunicar mas nunca nos abrimos. E quando o queremos fazer não há como.
Alguém há-de lembrar-se de um livro publicado pela Bertrand em Portugal, corria o ano de 1976. Uma obra proibida no Brasil aquando da sua publicação poucos anos antes e só "liberado" 9 anos depois. Cá também esteve fora de circulação até 1976. Chamava-se «Zero» e durante a Expo 98 foi considerada uma das 100 obras de língua portuguesa do século XX.
«Zero», que vamos publicar em Outubro comemorando, cá como no Brasil, o aniversário da sua polémica publicação, será provavelmente o único romance verdadeiramente inovador do século XX depois das experiências modernistas joycianas (ok, a heresia é minha). Este outro, livro com que começamos a publicação das obras de Loyola Brandão por cá, é algo totalmente diferente mas que, também ele, foi inovador na forma como abordou questões ambientais naquilo que poderia chamar-se um pan-romance, sobretudo pela pluralidade de leituras que permite e pela pluralidade de leitores a quem abre a porta.
Diz-se muitas vezes que os autores brasileiros não vendem em Portugal e até é verdade. À excepção daqueles grandes nomes incontornáveis, qualquer nome que se apresente não merece sequer uma palavra da crítica, quanto mais a atenção dos leitores. Daí também o meu desafio: se é um leitor que gosta de qualquer uma seguintes coisas (independentemente se gosta das outras), se gosta de uma grande história seja ela de amor, policial/thriller, ficção científica, ambientalista ou poética; se gosta de obras escritas numa linguagem aparentemente simples mas onde cada palavra para além de se poder ler à superfície encerra em si outros significados e uma poesia tremenda; se gosta de grandes romances metafóricos comparáveis, por exemplo, a «Ensaio sobre a cegueira», mas que vão muito para lá desse livro em qualidade literária propriamente dita e "inventividade", experimente umas páginas deste mundo onde o desaparecimento da camada de ozono obriga o ser humano a viver de noite e debaixo da terra, a comprar frascos com cheiro de flores ou terra molhada e onde, ainda assim, é tão difícil aceitar a nossa culpa em tudo isso como quebrar as regras de um amor.
É isto. Ficam os desafios e esperam-se as opiniões.
O último homem
2 comentários quinta-feira, 28 de outubro de 2010Não vou falar sobre o livro senão para dizer que, pessoalmente (com toda a subjectividade que há num editor que fala de um livro que está a publicar), considero este um dos grandes romances do século XX.
Falo sobretudo sobre esse grande personagem que foi M. P. Shiel, primeiro rei - Felipe - de Redonda, um rochedo deserto perto da ilha de Montserrat, no Caribe, local onde nascera. Falo do amigo de Salvador Dalí e Reynolds Morse. Sobretudo falo do escritor excêntrico, considerado por quase todos os grandes nomes da literatura, seus contemporâneos e seus herdeiros, como o grande escritor que ninguém conhecia. Um escritor para escritores. Falo do homem que viu a quase todas as suas obras enfiadas em escaparates dedicados à literatura fantástica quando as suas obras são, acima de tudo, portentos em que a filosofia e a simbologia ocupam grande parte de enredos magníficos. Quem já leu o conto fin-de-siècle que divulguei neste blogue, ter-se-á já apercebido de tal.
É um escritor acima de muitos, de quase todos; um escritor que não escreve fantasia ou ficção científica e, no entanto, é fantástico e antecipa muito do que se veio a escrever, pensar e reivindicar ao longo do século que se lhe seguiu. Nesta obra, por exemplo, é ecológico, teológico, aventureiro, questionante, muito perturbador e - sempre - genial.
Ah, e sobre quem seja o último homem... só mesmo lendo o livro.
read more “O último homem”
Falo sobretudo sobre esse grande personagem que foi M. P. Shiel, primeiro rei - Felipe - de Redonda, um rochedo deserto perto da ilha de Montserrat, no Caribe, local onde nascera. Falo do amigo de Salvador Dalí e Reynolds Morse. Sobretudo falo do escritor excêntrico, considerado por quase todos os grandes nomes da literatura, seus contemporâneos e seus herdeiros, como o grande escritor que ninguém conhecia. Um escritor para escritores. Falo do homem que viu a quase todas as suas obras enfiadas em escaparates dedicados à literatura fantástica quando as suas obras são, acima de tudo, portentos em que a filosofia e a simbologia ocupam grande parte de enredos magníficos. Quem já leu o conto fin-de-siècle que divulguei neste blogue, ter-se-á já apercebido de tal.
É um escritor acima de muitos, de quase todos; um escritor que não escreve fantasia ou ficção científica e, no entanto, é fantástico e antecipa muito do que se veio a escrever, pensar e reivindicar ao longo do século que se lhe seguiu. Nesta obra, por exemplo, é ecológico, teológico, aventureiro, questionante, muito perturbador e - sempre - genial.
Ah, e sobre quem seja o último homem... só mesmo lendo o livro.
Bolaño dixit
0 comentários quinta-feira, 21 de outubro de 2010Bolaño dizia que era impossível parar de ler qualquer história escrita por Pablo Simonetti. A nova coqueluche das letras sul-americanas é um fenómeno imparável. Saiu do Chile para o mundo depois de conseguir várias proezas: ganhou os prémios mais importantes, foi louvado por toda a crítica literária e ao mesmo tempo destronou por três vezes consecutivas (as dos seus três romances) Isabel Allende dos tops de vendas (e isto é totalmente inédito). Aliado a tudo isto, diz-me uma das minhas assistentes, é giro.
Os temas são mundanos mas a profundidade, sentido de humor, e o simples talento literário catapultam a qualidade da escrita deste autor para uma dimensão apenas ao alcance de muito poucos: aqueles raros nomes que sendo brilhantes agradam a gregos e troianos (entenda-se ao público erudito e ao não tanto).
Gostava de saber a vossa opinião.
read more “Bolaño dixit”
Os temas são mundanos mas a profundidade, sentido de humor, e o simples talento literário catapultam a qualidade da escrita deste autor para uma dimensão apenas ao alcance de muito poucos: aqueles raros nomes que sendo brilhantes agradam a gregos e troianos (entenda-se ao público erudito e ao não tanto).
Gostava de saber a vossa opinião.
Surpresa, Surpresa
6 comentáriosFoi uma daquelas coisas. Um dia pus-me a pensar: quem, de entre aqueles génios do cinema, poderia ter escrito um grande livro? Orson Welles foi o nome que me surgiu de imediato. Atirei-me à Amazon descrente para ser surpreendido. Havia um livro, melhor - um romance!
Depois surgiram as questões: terá sido mesmo Welles a escrever o livro? O seu secretário? Terá Welles ditado o livro a outra pessoa? Sabe-se apenas de onde veio a base da história: do grande filme que Welles nunca realizou. Com efeito, a meio da realização de Mr. Arkadin, Welles viu serem-lhe cortadas as pernas (a nível orçamental). Esteve para repudiar o filme e retirar o seu nome. Este livro, publicado poucos anos depois tem por base as notas de Welles que pretendia ultrapassar «Citizen Kane» e criar o fresco da sociedade contemporânea e de todo o século XX vivido até à altura.
A ideia da investigação do passado obscuro de um multimilionário internacional amnésico cruzava personagens do «Terceiro Homem» de Graham Greene e da continuação das aventuras de Harry Lime que Welles desenvolvera em novela radiofónica. Mas outros personagens de outros filmes, de outras produções radiofónicas de outras obras literárias cruzariam o enredo construindo um retrato panorâmico inigualável.
A maestria com que está escrito é, também ela, inegável o que demonstra a mão presente e firme de Welles. Se todas as palavras são suas ninguém o virá a saber mas que a importância do livro para a compreensão do homem e do seu tempo e, a um nível mais geral, a relevância da obra em termos literários ecinematográficos - em termos culturais no geral - é algo indiscutível.
Venham conhecer esta «sórdida vida secreta» do século XX.
read more “Surpresa, Surpresa”
Depois surgiram as questões: terá sido mesmo Welles a escrever o livro? O seu secretário? Terá Welles ditado o livro a outra pessoa? Sabe-se apenas de onde veio a base da história: do grande filme que Welles nunca realizou. Com efeito, a meio da realização de Mr. Arkadin, Welles viu serem-lhe cortadas as pernas (a nível orçamental). Esteve para repudiar o filme e retirar o seu nome. Este livro, publicado poucos anos depois tem por base as notas de Welles que pretendia ultrapassar «Citizen Kane» e criar o fresco da sociedade contemporânea e de todo o século XX vivido até à altura.
A ideia da investigação do passado obscuro de um multimilionário internacional amnésico cruzava personagens do «Terceiro Homem» de Graham Greene e da continuação das aventuras de Harry Lime que Welles desenvolvera em novela radiofónica. Mas outros personagens de outros filmes, de outras produções radiofónicas de outras obras literárias cruzariam o enredo construindo um retrato panorâmico inigualável.
A maestria com que está escrito é, também ela, inegável o que demonstra a mão presente e firme de Welles. Se todas as palavras são suas ninguém o virá a saber mas que a importância do livro para a compreensão do homem e do seu tempo e, a um nível mais geral, a relevância da obra em termos literários ecinematográficos - em termos culturais no geral - é algo indiscutível.
Venham conhecer esta «sórdida vida secreta» do século XX.
Quem conta tais contos?
0 comentáriosLembrar-se-ão alguns da Cláudia Clemente cujo livro de estreia, «Caderno Nergro» (2003), foi louvado pela crítica como obra revelação de um grande novo talento. Após a publicação desse livro a Cláudia, poli-artística, dedicou-se a outras artes e outros vôos - apesar de ter continuado a publicar contos em diversas revistas e antologias.
Coincidiu com a minha chegada a esta casa que a Cláudia tivesse decidido voltar a publicar. E assim surgiu este «A Fábrica da Noite» que retoma o percurso de escrita de uma grande autora.
Mantém muito do ambiente fantástico que cruzava os seus primeiros contos mas a escrita evoluiu. Agora é mais abrangente. Há contos para todos os gostos mas o estilo é único e a atmosfera é minuciosamente construída com uma oncisão ímpar, sejam os contos eróticos, fantásticos, quase detectivescos ou frescos de cantos alternativos da nossa realidade.
Romance de um homem simples
0 comentários sábado, 16 de outubro de 2010Não sei porquê mas sempre que leio estes grandes nomes da literatura de inspiração judaica, sobretudo os que escreveram na Europa entre o século XIX e o século XX, fico deslumbrado. Parecem ser quase todos excepcionais.
O meu fascínio terá começado ao ler Schwarz-bart mas depois naveguei por outros nomes e escritores e há uns anos atrás cheguei a Roth, este, o Joseph, que há outros. a sua escrita aparentemente simples e os grandes dramas da existência e da fé desenhados sem hiperbole e com uma maestria singular marcaram-me pessoalmente.
Assim quis começar este novo projecto da Ulisseia com uma das obras essenciais de Joseph Roth, talvez, segundo alguns, a sua obra-prima. Pessoalmente creio que é um dos melhores romances do século XX, escrito quando esse mesmo século era ainda criança mas já tinha sofrido bastante.
Mariana
5 comentáriosOutro dos projectos que tinha há muito tempo era a publicação das obras da Maria Judite de Carvalho. Uma escritora que esteve sempre um pouco na margem das grandes correntes e dos grandes nomes da nossa literatura mas cuja obra merece ser de novo trazida à ribalta. Este é o primeiro volume que, espero, possa vir cumprir um pouco essedesígnio.
Para quem não conhece, a escrita de MJC bebe um pouco do "nouveau roman" mas é sobretudo na poesia contida, na imagem e na atmosfera claustrofóbicas de um mundo vazio cheio de solidão que está o segredo de um estilo ímpar.
Espero que gostem.
Um dos grandes livros de viagens de todos os tempos e uma história imortal.
0 comentários sexta-feira, 15 de outubro de 2010Amigo pessoal de Oscar Wilde, Henry DeVere Stacpoole, abandonou Inglaterra pouco após o início dos julgamentos do amigo.Médico embarcadiço, mal voltou a pisar solo das ilhas britânicas. Fez as carreiras do Pacífico e do Índico onde ouviu as histórias exóticas das rotas frequentadas e daquelas que raramente eram sulcadas.
Escreveu muito, quase tudo ficção inspirada nas suas andanças por aqueles incomuns cantos do mundo. Escreveu um livro que foi provavelmente o primeiro best-seller silencioso do século XX: «A Lagoa Azul».
Este livro tinha-o na ideia há muitos anos. Pedi ao Nuno Batalha para fazer a tradução e goistava de vos desafiar à sua leitura. É um livro escrito num estilo e com um espírito de outras épocas, quando o mundo era mais jovem e ainda cheio de desconhecidos como a vida dos dois jovens protagonistas.
Sctacpoole teve de escrever mais 8 livros que continuaram a história dos personagens, tal o sucesso deste livro que teve sempre edições sucessivas em língua inglesa até hoje. Esta é a primeira edição portuguesa.
read more “Um dos grandes livros de viagens de todos os tempos e uma história imortal.”
Escreveu muito, quase tudo ficção inspirada nas suas andanças por aqueles incomuns cantos do mundo. Escreveu um livro que foi provavelmente o primeiro best-seller silencioso do século XX: «A Lagoa Azul».
Este livro tinha-o na ideia há muitos anos. Pedi ao Nuno Batalha para fazer a tradução e goistava de vos desafiar à sua leitura. É um livro escrito num estilo e com um espírito de outras épocas, quando o mundo era mais jovem e ainda cheio de desconhecidos como a vida dos dois jovens protagonistas.
Sctacpoole teve de escrever mais 8 livros que continuaram a história dos personagens, tal o sucesso deste livro que teve sempre edições sucessivas em língua inglesa até hoje. Esta é a primeira edição portuguesa.
O vampiro primeiro
0 comentários domingo, 28 de fevereiro de 2010
Confesso que é com algum prazer que escrevo sobre um livro. A verdade é que, apesar de me sentir, dia após dia, com menos probabilidades de voltar ao meio editorial em prazo próximo, ainda assim custa-me escrever sobre livros que leio e que um dia gostaria de editar. Mas sobre este título posso falar. Descobri-o na 6ª na FNAC e não resisti. Quanto mais não fosse é a minha área de estudo de eleição. Tinha à minha frente as mais de 1000 páginas de «Vaarney, the vampyre» de James Malcolm Rymer. Uma monumental saga de mais de 200 capítulos e quase 1200 páginas de letra microscópica que foi publicado originalmente entre os anos de 1845 e 1847 numa série de "penny dreadfuls" - uma esécie de pequenos livrinhos de cordel, vendidos por apenas um penny e geralmente dedicados à "literatura de emoção". Mas este heróis arrasta consigo muito mais do que a presença numa das mais bem sucedidas séries do género. Rymer, ao criar o vampiro Sir Francis Varney, estabeleceu a maioria dos arquétipos que a literatura fantástica atribui, até hoje, à figura do vampiro. Foi esta série de folhetins, juntamente com o notável conto de John Polidori («The vampire») a maior inspiração de Bram Stoker para o seu Drácula.
Assim, para além de documento essencial para quem analisa a literatura fantástica, é também um exemplo essencial da forma como a literatura de divulgação massificada está na origem da literatura de "género" e como estes "filhos bastardos" do neo-gótico literário de Radcliffe, Walpole, Beckford e tantos outros, são bem mais importantes para o entendimento da literatura actual que muitos dos clássicos canonizados.
E, mesmo ignorando tudo isso, é um texto deliciosamente divertido no seu ritmo vertiginoso e inocência sanguinolenta.
Sapatinho tardio
0 comentáriosE quase em Março a Tanty Ungureanu, excepcional tradutora com quem tive o privilégio de trabalhar, envia-me a sua última tradução. Ainda não tive tempo de ler mas já folheei. Apesar de vir rotulado como romance, parece-me prosa poética de rara qualidade. Voltarei ao livro em posterior leitura mas, e porque sei que a Tanty tem bom gosto, recomendo desde já o livro até porque vem de uma nova editora com aposta clara em faixas de mercado marginais.
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Uma daquelas questões
2 comentários terça-feira, 15 de dezembro de 2009Introdução à escrita criativa - João de Mancelos - Colibri
Uma das coisas que sempre me causou confusão foi receber miríades de convites e informação sobre cursos de escrita criativa e nunca conhecer os formadores. Afinal, se não estamos perante escritores, deveríamos, pelo menos, estar perante críticos, professores universitários da área de letras ou outros relacionados com a escrita, de tal forma que tivessem a capacidade de avaliar o que os alunos produzem de acordo com a sua qualidade e não apenas de acordo com o cumprimento ou não das normas dos processos da escrita criativa. Daí que seja de realçar o primeiro livro português sobre escrita criativa escrito por um escritor (ainda por cima premiado).
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