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A crise artificial

0 comentários sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
No magnífico discurso do Dr. Marinho Pinto na abertura do ano judicial de 2013 (não estou a ser irónico, acho que é um discurso brilhante e importante), este falava da criação de uma crise artificial.

O Dr. Fernando Ulrich, com bem menos capacidades discursivas, anda a tentar dizer o mesmo (mas não consegue).

Quando se fala dessa criação de uma crise artificial não se está a dizer que a crise não existe. Apenas que os contornos que lhe são dados não são os verdadeiros. E isto é possível devido à ignorância do povo português e à sua parca vontade de se informar para lá dos discursos oficiais e suas cópias transmitidas pela maior parte da imprensa.

Em primeiro lugar (e último) é essencial compreender que não era o país que estava à beira da falência mas o Estado. É necessário entender que se o Estado falisse - e era bom que a acontecer, acontecesse connosco ainda dentro da zona Euro - os cidadãos e as empresas, tendo os seus bens acautelados, continuariam a viver.

Como num qualquer processo de insolvência, a comunidade internacional nomearia alguém para gerir o processo. Seria feito um levantamento - tão necessário - dos bens reais e efectivos do Estado, seria feito um apuramento sobre eventuais manobras ilícitas que pudessem ter conduzido à referida situação, e iniciava-se um processo de retorno aos credores do máximo de valor da dívida do Estado perante eles. Nessa altura seria recomendável que o povo, enquanto um todo se reunisse e se apresentasse como um único cliente para ganhar força perante outros credores.

Todos nós enquanto "accionistas" do Estado deveríamos lutar por reaver o máximo do que lá colocamos.

O que poderia acontecer de mais grave? Que algum outro Estado invocasse como forma de saldar a dívida do Estado português para com ele, uma passagem de soberania. Isto pode parecer assustador mas acredite o leitor que não incomodaria quase nada a maior parte do povo, pudesse este manter a sua língua e que as condições de vida se passassem a assemelhar à desse outro país. Com impostos mais baixos e leis e mecanismos públicos mais eficazes. Se ademais considerarmos o total desconhecimento do nosso passado histórico nas gerações mais novas (uma ou duas acima de mim até às dos meus vizinhos mais novos, a falta de orgulho no nosso país, nas suas instituições e conquistas, etc., perceberemos que pouca mossa faria.

Mais ainda se considerarmos que a situação a que se teria chegado derivava da má gestão dessa empresa chamada Estado, da forma como tem sido feita desde o 25 de Abril em que uma onda de Liberdade varreu os conceitos de autoridade, disciplina, responsabilidade e mérito para os substituir por coisas primárias. note-se que não defendo a tirania, apenas digo que, como boa parte das tiranias, era organizada, competente e funcional coisa que não aconteceu na gestão da coisa pública nos anos que se seguiram e em anos recentes se veio a exacerbar.

Concretamente é então necessário perceber onde está a falhar o contrato do Estado com os seus cidadãos. Não falo sequer do contrato social, falo do contrato simples de prestação de serviços. O Estado português é o maior responsável por processos de insolvência de empresas portuguesas devido aos atrasos nos pagamentos. É esse Estado que, ainda assim se sente capaz de criticar, multar e penalizar duramente quem para com ele não cumpre os ditos prazos de pagamento.

A situação apontada pelo Dr. Marinho Pinto relativamente aos tribunais arbitrais é uma situação que, no seu âmago, o menos atento dos portugueses já tem por adquirida, a incompetência e corrupção do Estado e os efeitos lesivos que agora os cidadãos sentem.

A cultura dos robalos e alheiras é uma coisa antiga portuguesa; a nossa incompetência governamental já na época dos romanos era descrita: "Há, nos confins da Ibéria, um povo que não se governa nem se deixa governar" (Júlio César); a presença desta corrupção e incompetência nada tem que ver com os modelos governativos ou com os sistemas. Acontecia na monarquia, acontece na república e na democracia. Tudo isto só é possível devido à falta de educação social e moral. Uma educação de valores e de mérito.

Queixem-se à vontade, estrebuchem o que entenderem, mas garanto-vos que num caso extremo como o acima descrito, uns milhões de portugueses dariam imensa importância ao facto de as suas equipas poderem ombrear nos campeonatos futebolísticos com os grandes do país que assumisse a soberania sobre este rectângulo à beira-mar plantado e ficariam somente preocupados em saber se faria sentido o Tony Carreira continuar a ser considerado o maior artista português.

Enquanto esta situação não for corrigida, podem continuar a dizer-nos que esta crise é assim e assado que a maior parte de nós engole e a outra não tem força para se fazer ouvir.
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Clara Ferreira Alves e a falta de cultura

8 comentários quarta-feira, 25 de julho de 2012
A recente crónica de Clara Ferreira Alves (CFA) "É a falta de cultura, estúpido", constituí um bom retrato do que se passa no nosso país e em boa parte do mundo. Ainda assim nalguns pontos acho que foi longe de mais e noutros acho que não teve coragem para dizer o que queria - ou espaço.

O Modernismo e os modernistas já falavam abertamente da nova era a que se chegava em que nada surgia de diferente ou inovador. A arte e a cultura"novas" teriam de ser re-arranjos originais do pré-existente. Tudo o que veio depois do Modernismo é isso: tentativa de moldar novas conexões com materiais antigos.

O problema nunca seria a cópia mas a má cópia, a cópia que perde qualidade relativamente ao original.

Para mim toda essa discussão é inútil e pouco acertada.

CFA esteve quase lá mas não disse o que tinha de ser dito. Não é verdade que a elite culta (ou consumidora de cultura) seja velha e não tenha sucessores. E sobretudo não é verdade que esteja a diminuir ou desaparecer. Sempre foi estupidamente reduzida. Sempre teve presença minoritária no poder, na religião, na Universidade, na administração, nas ciências, etc., etc. O problema é que actualmente foi empurrada para fora dos círculos de decisão. A Cultura, outrora respeitada, deixou de ser pertinente.

E qual o mal que isso arrasta? Um mal simples e terrivelmente pernicioso: a ausência de memória. A Cultura é memória, mais! é memória abrangente, diversa, polifónica, transversal. E é claro que num mundo "especializado", a visão de conjunto, a escolástica, a pluralidade do conhecimento, não têm lugar.

Sem memória repete-se o erro. Sem memória perde-se a civilização. Os exemplos vêem de todo o mundo: em virtude de um qualquer evento que prive a sociedade de um qualquer "bem" adquirido (electricidade, comida, água, gás, transportes, etc.) a população dá imediatamente o passo seguinte: o passo para o caos e para a barbárie. Motins, vandalismo, violência gratuíta.

A Cultura é a base de dados do que a Humanidade adquiriu - daí que eu deteste que se associe cultura com a Literatura. A Cultura tem de ser geral. Tem de ser um repositório do Homem integral. Das ciências humanas mas também das exactas; tem de ser o arquivo das conquistas da sociedade e dos seus fundamentos. E tem de ser transmitida transversalmente: não se aprendem valores sem conhecimentos, não se aprende disciplina sem organização/ordem, não se avança sem uma boa base de passado.

A diferença é visível e compreensível se compararmos Portugal e a Islândia e as diferentes reacções perante a crise.

Nós vivemos cada vez mais para o nosso umbigo. A nossa especialização é em nós mesmos (daí o Ministro Relvas ser Dr. antes de ser Dr.). Daí podermos atropelar os outros sem pruridos. Daí podermos ser espezinhados sem nos agitarmos.

E o problema actual foi que ao deixar-se afastar do respeito e da sua pequena mas pertinente influência junto do poder, a elite culta não tem força para lá voltar. A culpa não foi do Jornalismo, não foi da Política, não foi da Filosofia; a culpa foi da elite culta que foi preguiçosa. Que se demoveu das suas obrigações societárias.

Qual a única solução que vejo? Que a Elite culta forme os seus sucessores, que estes façam o mesmo para os que se hão-de seguir. Uma boa formação, o despertar do interesse, da motivação e do mérito conseguem angariar mais fiéis. É um trabalho de fundo e de fé. As próximas gerações terão pouca ou nenhuma percepção dos resultados. Não tentemos salvar todos, tentemos salvar os possíveis.
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Compêndio civilizacional

1 comentários sexta-feira, 17 de junho de 2011
Uma das grandes vantagens do Facebook, para além de, por vezes, nos contemplar com eflúvios de palermice, é oferecer algumas grandes sínteses culturais e civilizacionais.
O vídeo em causa é o melhor exemplo da tipologia mencionada e, em si só e em menos de 5 minutos, condensa toda a cultura de um povo de forma bem mais sucinta que a feira da Avenida da Liberdade e o piquenique do Carreira.
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Uma lacuna na minha cultura desportiva

0 comentários quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Normalmente a esta hora estaria a ler, rever provas ou investigar novos autores. Mas, neste momento de indefinição profissional, dei por mim a fazer uma coisa que não faço quase nunca: ligar a televisão (e nem se quer para ver um dvd, mesmo a televisão). Foi assim que, depois de uma ronda pelos quase 200 canais que a Zon disponibiliza, acabei por preencher uma grande lacuna na minha cultura desportiva. E queria partilhar convosco aquilo que o Eurospot 2 me ofereceu. Já ouviram falar de "Speed Stacking"?









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