A crise artificial

No magnífico discurso do Dr. Marinho Pinto na abertura do ano judicial de 2013 (não estou a ser irónico, acho que é um discurso brilhante e importante), este falava da criação de uma crise artificial.

O Dr. Fernando Ulrich, com bem menos capacidades discursivas, anda a tentar dizer o mesmo (mas não consegue).

Quando se fala dessa criação de uma crise artificial não se está a dizer que a crise não existe. Apenas que os contornos que lhe são dados não são os verdadeiros. E isto é possível devido à ignorância do povo português e à sua parca vontade de se informar para lá dos discursos oficiais e suas cópias transmitidas pela maior parte da imprensa.

Em primeiro lugar (e último) é essencial compreender que não era o país que estava à beira da falência mas o Estado. É necessário entender que se o Estado falisse - e era bom que a acontecer, acontecesse connosco ainda dentro da zona Euro - os cidadãos e as empresas, tendo os seus bens acautelados, continuariam a viver.

Como num qualquer processo de insolvência, a comunidade internacional nomearia alguém para gerir o processo. Seria feito um levantamento - tão necessário - dos bens reais e efectivos do Estado, seria feito um apuramento sobre eventuais manobras ilícitas que pudessem ter conduzido à referida situação, e iniciava-se um processo de retorno aos credores do máximo de valor da dívida do Estado perante eles. Nessa altura seria recomendável que o povo, enquanto um todo se reunisse e se apresentasse como um único cliente para ganhar força perante outros credores.

Todos nós enquanto "accionistas" do Estado deveríamos lutar por reaver o máximo do que lá colocamos.

O que poderia acontecer de mais grave? Que algum outro Estado invocasse como forma de saldar a dívida do Estado português para com ele, uma passagem de soberania. Isto pode parecer assustador mas acredite o leitor que não incomodaria quase nada a maior parte do povo, pudesse este manter a sua língua e que as condições de vida se passassem a assemelhar à desse outro país. Com impostos mais baixos e leis e mecanismos públicos mais eficazes. Se ademais considerarmos o total desconhecimento do nosso passado histórico nas gerações mais novas (uma ou duas acima de mim até às dos meus vizinhos mais novos, a falta de orgulho no nosso país, nas suas instituições e conquistas, etc., perceberemos que pouca mossa faria.

Mais ainda se considerarmos que a situação a que se teria chegado derivava da má gestão dessa empresa chamada Estado, da forma como tem sido feita desde o 25 de Abril em que uma onda de Liberdade varreu os conceitos de autoridade, disciplina, responsabilidade e mérito para os substituir por coisas primárias. note-se que não defendo a tirania, apenas digo que, como boa parte das tiranias, era organizada, competente e funcional coisa que não aconteceu na gestão da coisa pública nos anos que se seguiram e em anos recentes se veio a exacerbar.

Concretamente é então necessário perceber onde está a falhar o contrato do Estado com os seus cidadãos. Não falo sequer do contrato social, falo do contrato simples de prestação de serviços. O Estado português é o maior responsável por processos de insolvência de empresas portuguesas devido aos atrasos nos pagamentos. É esse Estado que, ainda assim se sente capaz de criticar, multar e penalizar duramente quem para com ele não cumpre os ditos prazos de pagamento.

A situação apontada pelo Dr. Marinho Pinto relativamente aos tribunais arbitrais é uma situação que, no seu âmago, o menos atento dos portugueses já tem por adquirida, a incompetência e corrupção do Estado e os efeitos lesivos que agora os cidadãos sentem.

A cultura dos robalos e alheiras é uma coisa antiga portuguesa; a nossa incompetência governamental já na época dos romanos era descrita: "Há, nos confins da Ibéria, um povo que não se governa nem se deixa governar" (Júlio César); a presença desta corrupção e incompetência nada tem que ver com os modelos governativos ou com os sistemas. Acontecia na monarquia, acontece na república e na democracia. Tudo isto só é possível devido à falta de educação social e moral. Uma educação de valores e de mérito.

Queixem-se à vontade, estrebuchem o que entenderem, mas garanto-vos que num caso extremo como o acima descrito, uns milhões de portugueses dariam imensa importância ao facto de as suas equipas poderem ombrear nos campeonatos futebolísticos com os grandes do país que assumisse a soberania sobre este rectângulo à beira-mar plantado e ficariam somente preocupados em saber se faria sentido o Tony Carreira continuar a ser considerado o maior artista português.

Enquanto esta situação não for corrigida, podem continuar a dizer-nos que esta crise é assim e assado que a maior parte de nós engole e a outra não tem força para se fazer ouvir.

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