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Bibliografia Geral da Edição e do Livro

1 comentários terça-feira, 13 de março de 2012
A pedido de vários amigos e conhecidos, disponibilizo AQUI uma bibliografia de tudo aquilo que ao longo dos anos fui consultando e considero relevante por um ou outro motivo dentro da área da indústria e negócio do livro (que é, também para muitos, uma arte).

Sugestões, acréscimos e críticas são bem-vindas em comentário e devidamente consideradas para incluão na lista.
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Lérias

0 comentários domingo, 2 de outubro de 2011
Já li quatro magníficas Lérias do Miguel. Como todos saberão, a linguagem humana nasceu da necessidade de propagar lérias. Daí que toda a linguagem, de forma mais ou menos perfeita, seja ficção, sejam lérias, seja mentira mesmo quando conta ou pretende meramente referir a verdade.
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A fracção do todo

0 comentários quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Foi um dos maiores sucessos editoriais de 2008. Tinha perto de 700 páginas e era uma obra de estreia de um autor australiano obviamente desconhecido. Tinha tudo para não ser um sucesso. «Uma parte do todo» de Steve Toltz, foi publicado em cinco continentes com um reconhecimento universal da crítica. Foi finalista do Booker (de que consta ser a primeira obra de estreia de um autor não-britânico a alcançar tal posição) e do Guardian Firrst Fiction Award. Traduziu-se e traduz-se ainda em mais de 40 países apesar da dificuldade orçamental de lidar com uma tradução caríssima e o risco de se apostar numa obra de estreia cujo autor não garantiu ainda sequência. Ainda assim a aposta foi unânime por parte dos melhores editores estrangeiros. O que leverá a que isto assim seja, perguntam-me. A qualidade transversal da obra: um calhamaço que nunca se repete, nunca abranda o ritmo e tem personagens únicas em situações extravagantes do princípio ao final do livro. A história de uma família de anti-heróis apostados declaradamente em defender a honra da herança australiana enquanto colónia para ladrões, assassinos, malfeitores, prostitutas e o que mais viesse. As sucessivas gerações desta família, cujas histórias e os tempos se cruzam, estão apostadas em ser as piores dos piores. Assim, o livro brinca com conceitos como 'justiça', ou 'verdade', ou 'honestidade' e, claro, 'ficção' como poucos podem fazer; e fá-lo ao mesmo tempo que conta uma grande história, faz com que o leitor identifique o lado mais perverso da sua alma com a daqueles bons-maus ou maus-bons, e fá-los rir sem parar. Talvez seja também um dos poucos triunfos modernos da aventura pincaresca mas é, acima de qualquer outra coisa, um livro que ninguém esquecerá. Uma história que atravessa veloz 700 páginas para, no final, deixar vontade de muito mais.
Em Outubro nas melhores livrarias.
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Os consagrados da Ulisseia

4 comentários quinta-feira, 7 de julho de 2011
Uma das apostas da Ulisseia é, como já mencionei diversas vezes, a construção de um catálogo de ficção de referência. Aliás é a sua principal aposta.
Isso implica construir um catálogo com base dos modernos cânones da literatura mas, ao mesmo tempo, incluir clássicos e clássicos modernos e implica, no meu entender, conhecer os cânones literários que também são - ou vão sendo - desconhecidos em Portugal.
Daí que, antes de falar dos consagrados que certamente conhecem, quero falar sobre a última novidade da Ulisseia que dificilmente conhecerão.
Tarjei Vesaas, o autor, foi por três vezes candidato ao Nobel, venceu o prémio do Conselho Nórdico e é unanimemente reconhecido nos países escandinavos como o autor norueguês mais importante ó século XX ao lado de Hamsun.
A escrita de Vesaas é cristalina e aparentemente muito simples. Debaixo dessa superfície de simplicidade para uma floresta de significações que fazem de histórias simples, lições de narrativa e de vida.
Este livro será aquilo que os ingleses chamam o coming-of-age novel e os alemães buildungroman, um romance curto - os romances de Vesaas raramente ultrapassam as 200 e poucas páginas - que se desenrola ao longo de uma noite de Primavera, daquelas noites em que, pelas paragens mais frias do Norte europeu, a neve começa a derreter mesmo quando por vezes ainda cai. Dois irmãos - Sissel de 16 anos e o seu irmão mais novo Hallstein - ficam sozinhos por uma noite na ausência dos pais, na casa da quinta onde habitam. Ao começo da noite um co«njunto de estranhos estranhos (perdoem-me a repetição) bate-lhes à porta.
Aquilo que era para ser uma noite tranquila e controlada é de imediato tomada de assalto por uma enorme tensão. Com o carro avariado, entram na casa uma mãe em trabalho de parto, um pai quase histérico, um padrinho acriançado, uma madrinha paralítica mas que talvez não o seja e uma estranha rapariga com a qual, apesar de nunca se terem cruzado, Hallstein tem sonhado nos últimos tempos.
De manhã tudo terá mudado e a adolescência também terá partido durante a noite.
A força da escrita de Vesaas é assombrosa. Quando primeiro li este autor disse para mim que tinha de o publicar. É como um Murakami nórdico sem o ser bem. Dêem-me depois as vossas opiniões.
Quanto ao Pavese que esteve desaparecido do mercado durante anos aparecendo apenas de forma pontual aqui e ali em edições sem continuidade, é um dos mais importantes nomes da literatura europeia da primeira metade do século XX.
É o escritor do modernismo das sensações, da indefinição do sentimento. Apresentando sempre estas temáticas numa lógica de romance quase clássico.
É nossa intenção publicar as obras de Pavese ao ritmo de 1 a 2 títulos por ano e devolver-lhe o seu merecido lugar entre os grandes nomes da literatura.
Um dos meus problemas com Golding, prémio Nobel da literatura e vencedor do Booker, é a sempre difícil relação que o leitor tem com os personagens. Há uma frieza que marca a distância entre os dois níveis e que, apesar da qualidade da escrita e da originalidade dos enredos, nos mantém claramente na posição que o autor pretende que tenhamos: observadores imparciais.
Este livro não é assim. Provavelmente também porque será a obra mais autobriográfica de Golding.
A história é divertida e pisca a vários passos o olho ao leitor. Arrasta-o para si e para os personagens daquela pequena aldeia do interior rural de Inglaterra onde o jovem narrador quer viver o seu sonho de se tornar "artista", coisa inaudita e que acarreta significações não muito abonatórias para si.
Um livro sobre a coragem de assumir a diferença num meio que não a aceita e a julga através de preconceitos equívocos e equivocados.
Divertido e comovente e, sobretudo, importante.
Heinrich Böll é um pouco (ou muito) como aqueles cientista comportamentais que pegam em vários seres vivos de uma comunidade e os colocam em situações e realidades diferentes e estranhas para ver como se comportam e se se adaptam.
A temática central da obra de Böll foi sempre essa: como se comportam os seres humanos face a situações extremas.
À lupa do microscópio-pena do autor desenrola-se, neste romance, a vida de uma família da alta burguesia alemã que procura refazer a sua vida num cenário de completa destruição do pós guerra.
Quem pense que estamos perante um romance sério e duro sobre condições extremas, desengane-se. Este livro é uma deliciosa comédia de aparências que joga de uma forma moderna com um tema tão pós-moderno como é a identidade e a sua diferença da imagem.
Daqueles livros que são irrepreensivelmente bem escritos, provocam muitas gargalhadas nos momentos certos e nos obrigam e pensar muito sobre certas coisas.
O autor também ganhou o Nobel.
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Uma sugestão

0 comentários
Como saberão sou um apreciador da literatura fantástica o que não quer, de forma alguma, dizer o mesmo que fantasia. E de vez em quando, para descontrair, compro qualquer coisa que me parece interessante.
Foi assim que, no final do ano passado, descobri aquela que, para mim é a melhor série de fantasia actual: o ciclo de romances de Joe Abercrombie (até agora 5).
Os primeiros três constituem uma espécie de trilogia com personagens que se cruzam e descruzam num mundo que reflecte os vários estereótipos da literatura fantástica moderna (estão lá Robert E. Howard, Tolkien e outros). Os últimos dois são livros independentes mas só vale a pena serem lidos com a leitura prévia da trilogia inicial. Ainda assim, na minha opinião, são os melhores.
Aquilo que faz a diferença é a simplicidade com que brinca com géneros, com os próprios estereótipos, mas também a qualidade literária muito acima da média para não falar do fabuloso sentido de humor e capacidade de presentificação ao leitor de tudo o que acontece.
Se a maior parte da fantasia moderna é, toda ela, um cansativo cliché, esta é a excepção que confirma a regra. E ao que consta está para ser publicado em português. Espero que ponham um bom tradutor a traduzir porque merece.
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Correntes d'escritas??

0 comentários sábado, 2 de julho de 2011
Já não bastavam os e-mails com correntes agora também me mandam para o blogue. Tá bonito tá. Mas vá lá, esta é da casa e portanto responde-se.

1. Existe um livro que relerias várias vezes?
Muitos mas não tenho tempo para reler. Estou a guardá-los para a reforma se ainda tiver vista.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Não. Sou prático nisto. Ou me interessa, ou tenho de ler, ou, se não me motiva, há muito mais que ler na vida que é demasiado curta. Ok, vá lá: O corredor de Jean Reverzy. Só voltei a tentar ler este porque da minha primeira leitura ficou a ideia de que era uma coisa tão irritantemente estúpida que pensei que não podia ser verdade.

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
... Seria provavelmente o errado. Com a minha sorte...

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Aqui tem de vir o As mil e uma noites integral... que só li bocadinhos e ando há milénios para ler. Ah, e o La vita do Benvenuto Cellini.

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Uma cena nada final, mesmo bem no meio, passada num poço no The wind-up bird chronicle que quem leu não esquece.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Verne, Stevenson, Salgari, Os cinco, Jim Kjelgaard, Jack London, Walter Scott, G. A. Henry, Mark Twain e a colecção completa da revista Tintin, ou seja era aventura e mais aventura. Costumava rasgar os livros infantis que me davam.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Tenho uma longa lista daquele tipo de autores que escrevem sobre coisas que não me entusiasmam mas cuja leitura não consigo parar. Assim no topo da lista: Julien Green, Maria Judite de Carvalho e um outro autor que não vou mencionar porque um dia talvez o publique.
Porquê? Porque escrevem tão bem que, apesar de abordarem temas pelos quais geralmente não me interesso, são inelargáveis (isto existe?)

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
A ilha do tesouro (Stevenson), Caninos brancos (London), As aventuras de Sindbad (do Guyla Krudy), Moby Dick (Melville), O último justo (Schwarz-Bart), Gente independente (Laxness), O último Unicórnio (Beagle), A noite e o riso (Bragança), Contos fantásticos (Carvalhal), Zero (Loyola Brandão), Com amor e raiva (Pratolini), A ponte sobre o Drina (Andric), A tia Júlia e o escrevedor (Llosa), A roda da fortuna (Jorn), Dom Quixote (Cervantes), Wuthering heights (Brontë), Complete short-stories (Maugham), The wind-up bird Chronicle (Murakami), O bosque harmonioso (Abelaira), Jó (J. Roth), Narciso e Goldmundo (Hesse), The sacred book of the werewolf (Pelevin), Oscar & Lucinda (Carey), Kristin Lavransdatter (Undset), A noite de Walpurgis e O Golem (Meyrink), Gormenghast (Peake), O Castelo do homem ancorado (Huysmans), Margarida e o mestre (Bulgakov), quase tudo do Bioy Casares, A última receita (Lindgren), Heart's delight (Nilsson), quase toda a obra da Selma Lagerlöf, quase tudo do John Fowles, Escrevo-lhe de Itália (Déon), Inside, outside (Wouk), poesia do Char, do Vinicius, do Browning, do Neruda, da Szymborska, do Maiakowski, quase toda a ficção do Stanislav Lem, Casa de campo (Donoso), Great expectations (Dickens), os contos do Machen e do Robert E. Howard, Os moedeiros falsos (Gide), os contos do Eça, O arranca corações (Vian), poesia do Mário de Saa, do Joaquim Namorado, do Carlos Queiroz, todo o Raul Brandão, os contos e algumas crónicas e ensaios de António Ferro, tudo do Edward Whittemore, Zorba (Kazantzaki), O livro de San Michele (Munthe), To kill a mockingbird (Lee), Spice & Wolf (os "light novels"), Behold! this dreamer (de la Mare), mais poesia do Gomes Leal, Manoel de Barros, Coleridge, e posso continuar se quiserem mas sentir-me-ia como o Eco nos últimos romances: a masturbar-se para o público.

9. Que livro estás a ler?
The heroes do Joe Abercrombie e uma série de outros que, por motivos profissionais, não vou revelar.

10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.
Não tenho dez amigos com blogues portanto vai para blogueiros que gostaria de ver a responderem a isto: para o Zé Mário, a Isabel, o Eduardo, o André, a Sara, para o Paulo e o Nuno, o Rui, o José, outro Nuno, para o Don (para ver se volta a escrever), a Susana e a Susana (já foram demasiados mas como nenhum deles me segue, não se nota)
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Literatura de língua portuguesa na Ulisseia, um (ou 4) desafios

6 comentários quarta-feira, 29 de junho de 2011
Já vos falei um pouco do que andava a fazer na Ulisseia mas este ano posso concretizar com mais propriedade ainda aquilo que pretendo fazer em termos da edição de obras de autores de língua portuguesa. Também nessa área, como nas restantes, o desafio que me foi feito é a edição de ficção de referência: publicar não apenas autores consagrados como novos autores que prometam vir a fazer parte de cânones futuros.

Claro que essa é uma escolha do editor e portanto gostaria mesmo de saber a vossa opinião - depois de lidos os livros - opiniões pelas contracapas são, no mínimo discutíveis.


Assim este ano o romance-choque de Fernando Esteves Pinto, «Brutal». Uma obra para quem gosta da literatura que dá socos, bem aveludados, no estômago do leitor (daqueles socos no estômago que sobem à cabeça porque obrigam a pensar). O Miguel Real disse já por várias vezes que o Fernando é dos poucos escritores portugueses a saber escrever - e como! - sobre sexo mas eu creio que vai muito para lá disso. Há algo de existencialista na sua escrita que o aproxima da força de um «Húmus», esse objecto estranho da nossa literatura, e de «A morte do palhaço», outro ainda mais estranho produto de Raul Brandão.

O livro segue duas idades de um mesmo personagem, fascinado por teatro, que narra trazendo em encenações palpitantes à boca da cena os traumas de infância que enformam a sua difícil relação com a sua companheira. Olhar e diálogo entre os diversos tempos sobre si mesmos e sobre os outros (tempos entenda-se) é um encadear de momentos vívidos escritos de forma inesquecível. Agora não o escondo: é um livro difícil. A Maria do Rosário teve o livro em sua posse mas admitiu que era um livro bom mas difícil de encontrar público. O que acham? São leitores preparados para pugilato literário ou daqueles que preferem ser acarinhados pelas suas leituras? Cada um destes tipos de leitor tem as suas vantagens e desvantagens, as suas glórias e misérias mas os primeiros são mais raros. 

Por outro lado um nome consagrado mas esquecido: a grande Maria Judite de Carvalho. Este será o seu único (e formalmente verdadeiro) romance (curto ou novela longa). Narradora maior da situação da mulher numa sociedade cada vez mais desumanizada.

MJC fala da solidão como poucos escritores em todo o mundo conseguiram: com uma verdade incómoda e impossível de contornar. Uma incomodidade que se torna física e asfixiante. De repente temos de pousar o livro e olhar em roda. Como dizia o Eduardo Pitta, provavelmente não com estas palavras que seguem por fraca memória, a escrita de MJC vale por todo um seminário de escrita criativa.

Curiosamente próximo do livro do Fernando Esteves Pinto está este também violento romance-choque do Paulo José Miranda (primeiro prémio Saramago) a quem desafiei para regressar à edição deste lado do canal - ele vive agora do outro lado do Atlântico.

Uma obra que põe a nu o vazio das relações modernas e a necessidade de uma violência física e psicológica para comunicar os sentimentos que não conseguimos sequer entender por nós próprios. Crítica do nosso mundo da comunicação em que comunicamos levianamente tudo o que temos de superficial para comunicar mas nunca nos abrimos. E quando o queremos fazer não há como.

Alguém há-de lembrar-se de um livro publicado pela Bertrand em Portugal, corria o ano de 1976. Uma obra proibida no Brasil aquando da sua publicação poucos anos antes e só "liberado" 9 anos depois. Cá também esteve fora de circulação até 1976. Chamava-se «Zero» e durante a Expo 98 foi considerada uma das 100 obras de língua portuguesa do século XX.

«Zero», que vamos publicar em Outubro comemorando, cá como no Brasil, o aniversário da sua polémica publicação, será provavelmente o único romance verdadeiramente inovador do século XX depois das experiências modernistas joycianas (ok, a heresia é minha). Este outro, livro com que começamos a publicação das obras de Loyola Brandão por cá, é algo totalmente diferente mas que, também ele, foi inovador na forma como abordou questões ambientais naquilo que poderia chamar-se um pan-romance, sobretudo pela pluralidade de leituras que permite e pela pluralidade de leitores a quem abre a porta.

Diz-se muitas vezes que os autores brasileiros não vendem em Portugal e até é verdade. À excepção daqueles grandes nomes incontornáveis, qualquer nome que se apresente não merece sequer uma palavra da crítica, quanto mais a atenção dos leitores. Daí também o meu desafio: se é um leitor que gosta de qualquer uma seguintes coisas (independentemente se gosta das outras), se gosta de uma grande história seja ela de amor, policial/thriller, ficção científica, ambientalista ou poética; se gosta de obras escritas numa linguagem aparentemente simples mas onde cada palavra para além de se poder ler à superfície encerra em si outros significados e uma poesia tremenda; se gosta de grandes romances metafóricos comparáveis, por exemplo, a «Ensaio sobre a cegueira», mas que vão muito para lá desse livro em qualidade literária propriamente dita e "inventividade", experimente umas páginas deste mundo onde o desaparecimento da camada de ozono obriga o ser humano a viver de noite e debaixo da terra, a comprar frascos com cheiro de flores ou terra molhada e onde, ainda assim, é tão difícil aceitar a nossa culpa em tudo isso como quebrar as regras de um amor.

É isto. Ficam os desafios e esperam-se as opiniões. 
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O último homem

2 comentários quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Não vou falar sobre o livro senão para dizer que, pessoalmente (com toda a subjectividade que há num editor que fala de um livro que está a publicar), considero este um dos grandes romances do século XX.

Falo sobretudo sobre esse grande personagem que foi M. P. Shiel, primeiro rei - Felipe - de Redonda, um rochedo deserto perto da ilha de Montserrat, no Caribe, local onde nascera. Falo do amigo de Salvador Dalí e Reynolds Morse. Sobretudo falo do escritor excêntrico, considerado por quase todos os grandes nomes da literatura, seus contemporâneos e seus herdeiros, como o grande escritor que ninguém conhecia. Um escritor para escritores. Falo do homem que viu a quase todas as suas obras enfiadas em escaparates dedicados à literatura fantástica quando as suas obras são, acima de tudo, portentos em que a filosofia e a simbologia ocupam grande parte de enredos magníficos. Quem já leu o conto fin-de-siècle que divulguei neste blogue, ter-se-á já apercebido de tal.

É um escritor acima de muitos, de quase todos; um escritor que não escreve fantasia ou ficção científica e, no entanto, é fantástico e antecipa muito do que se veio a escrever, pensar e reivindicar ao longo do século que se lhe seguiu. Nesta obra, por exemplo, é ecológico, teológico, aventureiro, questionante, muito perturbador e - sempre - genial.

Ah, e sobre quem seja o último homem... só mesmo lendo o livro.
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Romance de um homem simples

0 comentários sábado, 16 de outubro de 2010

Não sei porquê mas sempre que leio estes grandes nomes da literatura de inspiração judaica, sobretudo os que escreveram na Europa entre o século XIX e o século XX, fico deslumbrado. Parecem ser quase todos excepcionais.
O meu fascínio terá começado ao ler Schwarz-bart mas depois naveguei por outros nomes e escritores e há uns anos atrás cheguei a Roth, este, o Joseph, que há outros. a sua escrita aparentemente simples e os grandes dramas da existência e da fé desenhados sem hiperbole e com uma maestria singular marcaram-me pessoalmente.
Assim quis começar este novo projecto da Ulisseia com uma das obras essenciais de Joseph Roth, talvez, segundo alguns, a sua obra-prima. Pessoalmente creio que é um dos melhores romances do século XX, escrito quando esse mesmo século era ainda criança mas já tinha sofrido bastante.
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Um dos grandes livros de viagens de todos os tempos e uma história imortal.

0 comentários sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Amigo pessoal de Oscar Wilde, Henry DeVere Stacpoole, abandonou Inglaterra pouco após o início dos julgamentos do amigo.Médico embarcadiço, mal voltou a pisar solo das ilhas britânicas. Fez as carreiras do Pacífico e do Índico onde ouviu as histórias exóticas das rotas frequentadas e daquelas que raramente eram sulcadas.

Escreveu muito, quase tudo ficção inspirada nas suas andanças por aqueles incomuns cantos do mundo. Escreveu um livro que foi provavelmente o primeiro best-seller silencioso do século XX: «A Lagoa Azul».

Este livro tinha-o na ideia há muitos anos. Pedi ao Nuno Batalha para fazer a tradução e goistava de vos desafiar à sua leitura. É um livro escrito num estilo e com um espírito de outras épocas, quando o mundo era mais jovem e ainda cheio de desconhecidos como a vida dos dois jovens protagonistas.

Sctacpoole teve de escrever mais 8 livros que continuaram a história dos personagens, tal o sucesso deste livro que teve sempre edições sucessivas em língua inglesa até hoje. Esta é a primeira edição portuguesa.
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Editar, O Regresso

1 comentários sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Caros Amigos, é com muito gosto que volto a falar de livros.

Aqui na Babel sou editor de ficção da chancela Ulisseia que se pretende venha a aproximar-se da marca de prestígio histórico que foi a Ulisseia dos anos 50 e 60. Uma editora orientada para todos os que gostam de grande literatura e que alternará grandes nomes da literatura universal com os novos valores da ficção. Iremos também publicar alguns autores nacionais mas preferimos fazê-lo com a atenção que merecem pelo que ainda serão poucos este ano.

Assim quero passar desde já ao menu deste ano para vos abrir o apetite mas com a garantia de que estes são apenas a ponta do iceberg.

Para além de grandes nomes e obras, clássicos contemporâneos e clássicos “clássicos” como Cervantes, Poe, Golding, Conrad, Guimarães Rosa, Onetti, Joseph Roth, Pavese e entre muitos outros, gostaria de destacar:

A primeira edição portuguesa de A TRAIÇÃO DE RITA HAYWORTH do Argentino Manuel Puig.

A tradução do BREAK IT DOWN DE Lydia Davis, colecção de contos poderosa da uma das vozes mais notáveis da contemporânea ficção norte-americana. (talvez convenha relembrar que Lydia Davis tinha acabado de se divorciar de Paul Auster quando escreveu este livro que arrasa o parceiro masculino da relação.)

A primeira tradução para língua portuguesa de TAPEÇARIA DO SINAI daquele que é considerado o grande escritor americano esquecido, Edward Whittemore. O primeiro de um quarteto de romances independentes que traçam alegoricamente a história do Médio Oriente.

O CAPITÃO DAS SARDINHAS de Manuel Manzano, autor que a Vanity Fair definiu como “Stieg Larsson + Roberto Bolaño = Manuel Manzano”. Este romance delirante quebra todos os estereótipos do romance policial banhando o leitor numa dose de humor radical com que descreve a vida e feitos do primeiro serial killer cego.

A Ulisseia vai também publicar um conjunto de autores de culto que pouco ou nada têm sido divulgados no nosso país: Max Aub, Stefano Benni, Thomas Berger, Heinrich Böll, Charles Bukowski e muitos outros. Mas também…

O romance sensação das letras australianas do estreante Steve Stoltz, UMA PARTE DO TODO, que apanhou o mundo das letras de surpresa e foi finalista do Booker e do Guardian First Fiction Award.

Daremos também início à publicação das obras de Hernán Rivera Letelier, um dos mais importantes autores chilenos no qual aposto pessoalmente. Recentemente ganhou o prémio Alfaguara de narrativa.

E a Ulisseia não deixará de lado uma parte muito importante da sua missão ao traduzir de literaturas menos comuns obras essenciais da ficção moderna e contemporânea como:

QUATRO PAREDES, o romance sensação de Vangelis Hatziyannidis. Considerado uma das obras mais importantes da ficção mediterrânica contemporânea.

A obra-prima do romance modernista russo, PETERSBURGO, de Andrey Bely. Um romance fundamental da literatura universal absolutamente incontornável.

De Tarjei Veesas, autor norueguês proposto 6 vezes ao Nobel e um dos mais importantes vultos das letras escandinavas que aparecerá também pela primeira vez em língua portuguesa, NOITE DE PRIMAVERA.

Haverá também algumas surpresas como é o caso do único romance de Orson Welles, escrito com base no argumento cinematográfico homónimo de 1955 e em vários episódios da vida de Harry Lime (como a desenvolveu no seu programa radiofónico).

No que toca aos autores de língua portuguesa queria destacar o regresso de Cláudia Clemente, a autora que surpreendeu o meio literário em 2003 com o seu “Caderno Negro” e o começo da publicação das obras de Maria Judite de Carvalho. Por último destaco o regresso ao mercado português do brasileiro Ignácio de Loyola Brandão, autor de “Zero” romance de choque que revolucionou a narrativa brasileira e que foi eleito um dos 100 livros do século XX. Este ano publicaremos o seu romance NÃO VERÁS PAÍS NENHUM.

Para além destes gostaria de anunciar alguns títulos de que vou ser editor na chancela Arcádia e que, estou certo, merecerão igualmente o vosso interesse:

Começaria pelo romance MÃE QUE ESTAIS NO CÉU do chileno Pablo Simonetti, a nova coqueluche das letras chilenas, um autor de quem Bolaño se confessava admirador e que nos últimos anos, sendo eminentemente literário conseguiu ultrapassar – coisa inaudita – em termos de vendas Isabel Allende.

Do pai da publicidade moderna David Ogilvy chegam-nos as suas CONFISSÕES DE UM HOMEM DA PUBLICIDADE, uma obra que, para além do seu valor intrínseco enquanto descrição de um percurso notável, é também um manual essencial para o mundo em que vivemos.

Com dezenas de adaptações ao teatro, a versão musical de Rodgers e Hammerstein, três adaptações ao cinema (a primeira com Rex Harrison, a segunda com Deborah Kerr e Yul Brynner e a mais recente com Jodie Foster), poucos são os leitores que conhecem a verdadeira história de Anne Leonowens, A GOVERNANTA INGLESA NA CORTE DO SIÃO, uma das grandes narrativas de viagens do século XIX que verá pela primeira vez a luz do dia em Portugal.

Também pela primeira vez em língua portuguesa A LAGOA AZUL de Harry DeVere Stacpoole, um fabuloso romance de aventuras e viagens que infelizmente viu uma adaptação cinematográfica de algum mau-gosto estragar uma reputação adquirida nos anos seguintes à sua publicação. Stacpoole era médico de bordo e fazia as rotas do Pacífico e Índico. Era amigo de Oscar Wilde e os seus romances de viagens são considerados obras essenciais do género.

Por último e porque o tempo urge apenas uma nota para ACONSELHAMENTO PARA SAPOS do britânico Robert de Board que coloca todos os personagens clássicos de “O vento nos salgueiros” no divã ao mesmo tempo que constrói um pequeno manual essencial de psicanálise e aconselhamento.

E há muito mais por aí...
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Os frutos

0 comentários sexta-feira, 23 de julho de 2010
Estes últimos meses têm sido de quase total silêncio (verbal) no blogue. A razão? O muito trabalho. Mas esse trabalho dá frutos.
Em meados de Setembro a Ulisseia dará os primeiros passos com um programa de mais de 30 títulos que em breve serão anunciados aqui e noutros locais.
Tenho a certeza de que aqueles que seguiram [obrigado ML, a pressa dá em coisas destas] o meu trabalho anterior vão perceber a continuidade dos principios que o regem e, por isso também, gostaria que me fossem dando os vossos pareceres.

E, claro, a todos os que apoiaram, o meu muito obrigado.
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Ulisseia, vêm aí coisas boas!

2 comentários sábado, 29 de maio de 2010
Depois de muita luta e labuta, posso agora afirar que a partir de setembro, a nova Ulisseia vai aproximar-se muito da antiga Ulisseia. Grandes nomes, grandes livros, grande literatura. E por agora não faço mais publicidade.
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Era uma vez... uma história sem qualquer semelhança com o mundo livreiro português.

0 comentários sábado, 27 de março de 2010
Era uma vez um país pequenino, à beira-mar plantado. Nesse país grassavam várias crises, uma económica de grande escala e várias crises em diversos sectores da indústria. Num dos sectores, o dos produtores de almofarizes, a situação era grave. Havia demasiados produtores e mesmo demasiadas lojas que vendiam almofarizes apesar de muito poucos - e cada vez menos - os comprarem.

Ora um dia o mercado ficou estarrecido porque apareceram dois grandes grupos que de um momento para o outro dominaram o mercado. Um dos grupos criou grandes lojas onde vendia, entre outros, os seus almofarizes eléctricos. O outro grupo criou outras lojas semelhantes.

Ora as pequenas lojinhas independentes tentaram, em primeiro lugar, vender os almofarizes eléctricos juntamente com os tradicionais. Outras ainda preferiram por logo de parte os almofarizes tradicionais e vender apenas os novos e brilhantes almofarizes eléctricos.

Mas os grandes grupos esmagavam pela capacidadede promoção, marketing e omnipesença. Assim, as pequenas lojas independentes pensaram em criar uma associação mas como lhes custava mais ver o vizinho de rua que sempre tinham invejado, a prosperar - isto nalguns casos, noutros foi só a falta de iniciativa - a ideia ficou em águas de bacalhau.

Os grandes grupos continuavam a crescer e começou a falar-se que um dos grupos tencionava comprar uma enorme cadeia de lojas e assim dominar boa parte do mercado de vendas.

As pequenas lojas, ao invés de compreenderem que, juntas, poderiam constituir um cliente preferencial para todo o mercado e garantir condições de compra em grandes quantidades dos almofarizes, usarem o seu serviço especializado para a fidelização de clientes ao contrário do serviço impessoal das lojas dos grandes grupos mantinham os seus horizontes de perspectiva formados pela crise que os assolava há anos. E assim em vez de surgirem como um colosso que até na aquisição dos almofarizes produzidos pelos grandes grupos, que podiam dominar o mercado com o mais amplo serviço de encomendas, permaneceram um conjunto de formigas lamurientas.

Pois aconteceu que um cérebro brilhante surgido no grupo rival àquele que ia comprar a grande cadeia de lojas, desenvolveu uma estratégia de génio: iria tirar partido da limitação de visão das pequenas lojas independentes e, gastanto muito menos dinheiro dominaria o mercado.

O que começou a desenvolver foram protocolos com as lojas independentes de renome e pequenos grupos lojistas, ajudava-os financeiramente em troca de exposição quase total para os seus produtos e, claro, fazendo com que nessas lojas praticamente desaparecessem os almofarizes do grupo rival.Em dois ou três anos uma boa parte das melhores lojas independentes estava sob o domínio desse grupo e perceberam que se por acaso quisessem sair não tinham outra hipótese senão pagar - e muito - ao grupo e provavelmente faliriam, altura em que o grupo os compraria por quase nada como principal credor.

Nessa altura, num país quase sem lojas de almofarizes independentes os vendedores que tinham caído na estratégia olharam com espanto para o grupo que os apanhou na sua fraqueza, na sua incapacidade de se unirem e de criarem o seu futuro. Olharam para a sua preguiça e choraram...
read more “Era uma vez... uma história sem qualquer semelhança com o mundo livreiro português.”

Da destruição dos livros

6 comentários sábado, 6 de março de 2010
INTRODUÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO À POLÉMICA DOS LIVROS GUILHOTINADOS

Com a polémica levantada recentemente pela Maria Teresa Horta, tem-se ouvido muita coisa mas, curiosamente, os poucos editores que falaram, explicaram a situação da pior forma possível.

As intervenções da Senhora Ministra revelaram, por sua vez, algo que já todos os que andamos no mundo dos livros há algum tempo sabíamos: que o distanciamento e desconhecimento do Ministério da Cultura e mesmo dos organismos que tutelam o livro e a edição (mas nada tutelam), relativamente ao negócio do livro, são totais.

Esta situação de desconhecimento e, diria, intencional desligamento das obrigações perante um sector vital da transmissão da cultura - pois através do livro podem convir-se quase todas as restantes artes e nem sequer será necessário mencionar que é instrumento central no processo de divulgação cultural inter-geracional - , reflecte o espírito das instituições de tutela cultural no nosso país: falta de profissionalismo, falta de conhecimentos de gestão no que ao negócio da cultura respeita. E foi já há perto de 50 anos que a UNESCO definiu o livro, bem como outros bens culturais, enquanto produtos culturais, ou seja, algo que deve ser pensado pelo lado teórico e filosófico mas que deve, igualmente, ser visto como produto comercial, pois sem um pensamento financeiro as industrias culturais só sobrevivem por milagre.

Assim, o retrato que temos do sector do livro no nosso país passa por:

a)

Um grande número de editores sem conhecimentos de gestão e sem qualquer tipo de profissionalismo, que vivem de ideias quixotescas e que, quando confrontados com realidades financeiras graves, preferem recorrer à ilegalidade, não pagando a agentes do sector (tradutores, revisores, designers), ignorando os pagamentos de direitos de autor (ou fazendo mesmo tabula rasa deles), publicando obras estrangeiras sem contrato ou sem sequer pagarem os avanços de direitos, negociando direitos que não lhes pertencem, ignorando todas as legislações existentes, continuando a publicar obras com contratos há muito caducados, etc. E ninguém regulamenta isto.

Eu, por exemplo, comecei a trabalhar, saído da universidade, numa editora que existia há 27 anos (e continua a existir) fazendo toda a sorte de ilegalidades, aliás num catálogo de quase 500 títulos, se algum houvesse que não arrastasse consigo uma qualquer ilegalidade ou falta de pagamento, ficaria surpreendido.

Muitos editores queixam-se dos elevadíssimos avanços de direitos solicitados por editoras e agências internacionais. Eu já tive oportunidade de sondar muitas dessas editoras e agências que me informaram que a imagem dos editores portugueses enquanto péssimos pagadores, e fazedores de edições ilegais é tão internacionalmente famosa que este é o mecanismo possível para as editoras e agentes estrangeiros tentarem proteger, dentro do razoável, os direitos dos autores que representam.

b)

Mas a falta de profissionalismo continua. Uma das coisas que tenho vindo a apontar ao longo dos anos é o total desconhecimento da maior parte dos agentes do mercado editorial ou da edição em relação ao trabalho uns dos outros. Editores que não sabem quais os problemas das gráficas, gráficos que não sabem os problemas das livrarias, tradutores que não conhecem as dificuldades dos editores (a lista é extensa)... e no entanto todos se queixam, sem tentarem saber motivos. E já nem vou falar de um Ministério da Cultura que voga ao sabor das marés sem saber um milionésimo do sector. Não intervindo, não fiscalizando e não legislando (nem através das sub-estruturas criadas precisamente para esse efeito).

Aqui há uns anos atrás, por exemplo, descobri que o apoio para divulgação de obras de uma cultura europeia junto a outra cultura europeia, atribuído pelo programa europeu Cultural 2000, era canalizado, entre nós, para apoio à publicação de obras de autores africanos.

De há anos, sempre que falava com um novo tradutor ou revisor e lhe fazia um retrato da situação da edição e do livro em questão, explicando porque não podia pagar mais, percebia que, mesmo profissionais com mais de 40 anos de profissão, nunca tinham sequer ouvido sobre como funcionava a distribuição de custos da feitura de um livro.

Li artigos em blogues em que se alegava que os únicos profissionais do sector do livro que arriscavam alguma coisa eram os livreiros.

Enfim, a lista é extensa e não admira que um sector que tem de combater a crescente falta de leitores (vendem-se ligeiramente mais livros mas trata-se essencialmente de uma questão macroeconómica - o livro é dos presentes de prestígio mais baratos - e de livros técnicos ou de estudo), nunca se tenha unido. Essa união não agrada a muitos, que preferem manter as trevas em torno das suas acções, e incomoda muitos outros que preferem continuar orgulhosamente deplorando a decadência cultural do país.

Queria ainda, neste ponto, reforçar a ausência de legislação comercial e a pouca fiscalização existente. Os modelos são desadequados e poucos os cumprem. E nem vou falar da questão da lei do preço fixo que acho ser das coisas mais idióticas jamais criadas, sobretudo num mercado onde a fiscalização é o que é.

c)

Há pouco tempo li aqui um texto do escritor David Machado em que este falava do desgoverno do escritor/autor. Ao longo dos anos conheci escritores que, de tão felizes por terem sido publicados, nem olhavam para os contratos que assinavam. Conheci autores presos por contratos de exclusividade que nem sabiam que os tinham assinado e autores que ficavam surpresos pelas editoras invocarem este ou aquele ponto de um contrato. Percebo que nem todos os escritores tenham conhecimentos legais e jurídicos, mas o não saberem recorrer a quem os tenha, quando não conseguem interpretar um texto de tal ordem, é outra grande falha. E, por fim, nem vou falar da ignorância dos escritores relativamente aos processos de mercado. Escritores que se queixam, passado meses da saída da sua obra, de que não a encontram em lado nenhum revelam que não percebem nada do mercado editorial (não que ele funcione de forma correcta, entenda-se!). Este tipo de ignorância faz-me lembrar os muitos colegas que tive na Faculdade de Letras e que nem sequer gostavam de ler, mas como tinham uma aversão e bloqueio total no que tocava a números, tinham seguido aquela alternativa (são muitos desses colegas que andam a ensinar os nossos filhos a gostar de ler - alguém mais vê a perniciosidade disto tudo?).

***

Senhora Ministra, em Itália, há mais de 25 anos, o governo percebeu que não conseguia controlar o sector e que os editores não cumpriam leis e normas. Então tomou uma sábia medida: criou uma base de dados nacional através da qual, ainda hoje, qualquer editor, livreiro ou cliente, descobre se um livro x está publicado, onde está disponível e em que quantidades (para já não dizer, a que preços). Esta solução evitou: os contínuos incumprimentos no pagamento de direitos a autores nacionais e estrangeiros, pois os detentores de direitos podiam sempre verificar quem devia o quê, a partir da diferença entre o número de livros injectado no mercado e os que realmente tinham sido vendidosao fim de determinado periodo; evita as trafulhices de editores e gráficas nas alegações de número real de exemplares produzidos; evita que os empregados das livrarias, mal pagos, desconhecedores, sem formação e interesse, respondam que uma obra está esgotada sempre que não lhes apetece consultar o computador (a Bertrand é, infelizmente, especialista neste tipo de situações), para já não referir os empregados que não sabem se hão-de procurar Pessoa no campo de autores nacionais ou estrangeiros - sim, já me aconteceu!

CONCLUSÃO

A Senhora Ministra Gabriela Canavilhas informa agora que irá estabelecer parcerias para permitir facilitar doações de fundos mortos das editoras. Há quantos anos se vêem queixando os editores desta falta de parcerias e soluções?

A Senhora Ministra considera esta destruição um "massacre", seria contudo mais conveniente reflectir nos pontos que indiquei acima e tentar perceber porque ficam tantos livros sem compradores. E, já agora, será que os livros sem compradores valerão mesmo a pena serem "todos" doados. Será que o facto de não terem encontrado público não significa que não haja, efectivamente, público para eles? E aí de que servem as doações?

Não saberá a Senhora Ministra que a destruição de livros acaba por resultar de um sector que publica sem orientações e sem fiscalização? Um sector onde há mais entidades publicadoras e mais títulos publicados do que leitores para os consumir? Um sector que, fiscalizado e legislado, certamente seria reduzido ao número correcto de publicações e entidades editoras, de forma a não haver necessidade de recorrer a falcatruas para sobreviver, para haver a responsabilidade de publicar com conhecimento do público e das suas necessidades, para não ser obrigado a guilhotinar excedentes?

Se todos os agentes do sector se procurarem informar um pouco mais sobre o trabalho e necessidades uns dos outros, se todos procurarem harmonizar a sua acção face às realidades de mercado e ao inimigo comum que é a baixíssima taxa de leitura da nossa população, talvez tudo melhore e quem melhor que o Ministério para encabeçar essa noção de mudança?

Quanto à destruição de livros que acontece, e que é pratica comum em todo o mundo (desenganem-se Ministras e Autores), acontece porque é necessário que aconteça. Podem encontrar-se algumas soluções mas não vão ser soluções totais e definitivas. A destruição de livros que se dá, muitas vezes é amiga dos autores, pois o desaparecimento de exemplares disponíveis atenua a carga de aluguer de espaço de uma editora (ou distribuidora) e, recebendo essa editora várias encomendas de um título destruido, vendo a necessidade financeira da sua reedição (caso tenham profissionais capazes de fazer essa avaliação), fará nova edição, apresentada como novidade - o que garante maior destaque - , provavelmente recorrendo a novo design o que também ajudará à sua venda.

Por último, queria chamar a atenção de que esta polémica terá partido, de acordo com o Público, "de José da Cruz Santos, editor que trabalhou com a Asa (que foi integrada na Leya) e que disse ao JN ter sido informado pela editora de que muitos dos títulos que se encontravam em armazém iam ser guilhotinados, sobrando apenas poucos exemplares de cada obra". Falava-se da destruição de "milhares de livros de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço e Vasco Graça Moura". Ora eu queria relembrar que muitos desses autores estão agora noutras editoras com edições novas e que por lei os exemplares remanescentes nas antigas editoras, dentro de semelhantes circunstâncias, devem precisamente ser destruidos! Caso contrário, prejudica-se seriamente as editoras que fizeram novos investimentos nesses autores: imagine-se que os fundos de livros de Jorge de Sena apareciam agora no mercado, isentos da lei do preço fixo, ao preço da chuva. O que sucederia aos novos livros publicados pela Babel de Teixeira Pinto?

Se os livros, por outro lado, forem doados a bibliotecas, estamos perante mais outra perda de potenciais clientes para a editora actual que investiu em novas edições desses autores.

E, mesmo para terminar, queria perguntar quem é o Senhor Cruz Santos para vir invocar esse tipo de situações, quando se sabe perfeitamenter que, através do projecto "Modo de ler" que lidera, está a relançar para o mercado, recapadas, edições ilegais (sem direitos pagos e sem cavaco aos tradutores) de livros que outrora publicou na sua editora INOVA (entretanto falida). Atenção que não tiro o mérito ao Senhor Cruz Santos da muita coisa notável que fez pela edição em Portugal ao longo de dezenas de anos, mas fê-lo como se fazia antigamente: olhando apenas aos aspectos legais que era conveniente olhar e desleixando as questões essenciais dos direitos de autor. Mais uma vez, esse tipo de situações continua a existir sem que haja fiscalização das entidades superiores da Cultura em Portugal. E, quem conheça o meio, sabe muito bem porque motivo veio trazer a público estas questões o Senhor Cruz Santos, "esquecendo-se" que a destruição dos livros não apenas é legal como também é necessária para o equilíbrio do mercado e para bem dos autores. O mesmo não se passa no caso dos livros da Maria Teresa Horta, situação que tem, a meu ver, origem no mau funcionamento das livrarias e dos serviços de encomendas e informática das várias livrarias e distribuidoras e que seria resolúvel de forma legal e menos dispendiosa, trazendo ao mesmo tempo maior clareza ao mercado, através de medidas mais sensíveis e informadas por parte do Ministério. 
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O vampiro primeiro

0 comentários domingo, 28 de fevereiro de 2010
Confesso que é com algum prazer que escrevo sobre um livro. A verdade é que, apesar de me sentir, dia após dia, com menos probabilidades de voltar ao meio editorial em prazo próximo, ainda assim custa-me escrever sobre livros que leio e que um dia gostaria de editar.
Mas sobre este título posso falar. Descobri-o na 6ª na FNAC e não resisti. Quanto mais não fosse é a minha área de estudo de eleição. Tinha à minha frente as mais de 1000 páginas de «Vaarney, the vampyre» de James Malcolm Rymer. Uma monumental saga de mais de 200 capítulos e quase 1200 páginas de letra microscópica que foi publicado originalmente entre os anos de 1845 e 1847 numa série de "penny dreadfuls" - uma esécie de pequenos livrinhos de cordel, vendidos por apenas um penny e geralmente dedicados à "literatura de emoção". Mas este heróis arrasta consigo muito mais do que a presença numa das mais bem sucedidas séries do género. Rymer, ao criar o vampiro Sir Francis Varney, estabeleceu a maioria dos arquétipos que a literatura fantástica atribui, até hoje, à figura do vampiro. Foi esta série de folhetins, juntamente com o notável conto de John Polidori («The vampire») a maior inspiração de Bram Stoker para o seu Drácula.
Assim, para além de documento essencial para quem analisa a literatura fantástica, é também um exemplo essencial da forma como a literatura de divulgação massificada está na origem da literatura de "género" e como estes "filhos bastardos" do neo-gótico literário de Radcliffe, Walpole, Beckford e tantos outros, são bem mais importantes para o entendimento da literatura actual que muitos dos clássicos canonizados.
E, mesmo ignorando tudo isso, é um texto deliciosamente divertido no seu ritmo vertiginoso e inocência sanguinolenta.  
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Sapatinho tardio

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E quase em Março a Tanty Ungureanu, excepcional tradutora com quem tive o privilégio de trabalhar, envia-me a sua última tradução. Ainda não tive tempo de ler mas já folheei. Apesar de vir rotulado como romance, parece-me prosa poética de rara qualidade. Voltarei ao livro em posterior leitura mas, e porque sei que a Tanty tem bom gosto, recomendo desde já o livro até porque vem de uma nova editora com aposta clara em faixas de mercado marginais.
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É aproveitar menina...

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I Celebrate Myself - Bill Morgan - Penguin / Viking

Anda por aí aos pontapés nas FNACs (já o vi no Chiado, em Cascais e no Colombo), ao preço da chuva, trata-se de uma das mais notáveis biografias de Allen Ginsberg e, enquanto biografia, é uma obra extraordinária. Sobretudo porque é um poeta a redescobrir urgentemente, acho que Ginsberg diz mais ao tempo presente que ao seu tempo embora na sua leitura seja necessário esse enquandramento sócio-cultural que compreende estes tempos de revolução sem revolução..
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De novo o e-book

0 comentários segunda-feira, 25 de janeiro de 2010


O Sérgio Bastos do excelente blogue «Ebook Portugal» apanhou-me aqui a deambular sobre o futuro e presente da edição digital e fez-me uma entrevista. Caso queiram perder uns minutos do vosso tempo podem consultá-la aqui.
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Pesquisa bibliográfica

0 comentários sexta-feira, 22 de janeiro de 2010


O Xoni Ringo é como o dono e gosta de se perder nas estantes, por entre filas intermináveis de títulos, convivendo com as histórias mais fantásticas ou mais cruas.
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