2012

0 comentários sábado, 31 de dezembro de 2011
Caros,
Mais do que qualquer outra coisa queria desejar a cada um, neste 2012 que espreita, a crise que cada qual merece. Desejar muito sériamente que a crise que não fizemos por merecer não nos bata à porta. Mas como também imagino que acabe por bater, desejar para todos vós saúde, comida, amigos e muita força.
Acho que 2012 vai ser um ano de limpeza, tudo o que estava podre vai acabar por cair e isso significa básicamente cair tudo, mas será também o ano em que vamos ver surgirem novas ideias, projectos, empresas e pela primeira vez em anos haverá uma real preocupação em reunir a competência aliciando-a a participar activamente nesses projectos.
A incompetência sufocante, aquela que abafa o real valor por insegurança e incultura, tem de desaparecer caso contrário desaparece o país, o continente.
Esta revolução, porque o é, passa por cada um. Tem que ver com o grau de exigência que colocamos em tudo o que fazemos. Não podemos desligar-nos e continuar a apontar responsabilidades a quem manda. Quem manda está no poder porque nós enquanto povo neles votamos e se não vemos entre eles alternativas viáveis, mudemos o sistema, ofereçamo-nos nós, recomendemos quem deveria...
A nossa responsabilidade é responsabilizarmos, a começar por nós próprios; é exigirmos, a começar por nós próprios; e é suar, a começar por nós próprios.
Mais do que meias-horas adicionais, férias a menos ou subsídios eliminados, a competência e a avaliação por mérito são a salvação do país.
Ficaria muito contente se isto acontecesse.
Que 2012 seja o ano de mudança porque nós a queremos e não por outro motivo qualquer.
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Os outros livros do ano 2011

0 comentários sábado, 17 de dezembro de 2011
Agora que estou desempregado, de novo, posso fazer coisas como escolher o top 10 dos livros que publiquei em 2011.

Assim e começando pelas menções de honra:

Com o corpo todo - de Paulo José Miranda - Ulisseia

Para mim como editor foi um prazer poder em primeiro lugar trazer de volta aos escaparates um autor que acho ser da maior importância no passado recente da literatura portuguesa, por outro lado a obra em si é um grito lancinante sobre uma geração que usa o sexo como forma de comunicação quando as palavras falham. É um romance selvático e quase primário na forma como descreve os laços mais frágeis que nos unem e a forma como por vezes nos esforçamos para os estilhaçar face à nossa dificuldade de lidar com o outro.

A última criança - de John Hart - Ulisseia - trad. Carmo Vasconcelos Romão

Uma das questões que me coloquei enquanto editor foi em que chancela deveria publicar este romance.
trata-se essencialmente de um thriller. Uma obra vencedora do Edgar Award (o mais prestigiado prémio para literatura policial nos EUA) e do Silver Dagger award (o congénere inglês).
Aquilo que me levou a decidir pela Ulisseia foi a importância social do livro. É certo que é um romance de suspense, uma obra empolgante que usa as fórmulas do romance policial e do thriller mas não deixa de ser um alerta poderoso para as fragilidades sociais que se tornam ainda mais evidentes em momentos de crise.

Viagens Brancas - de Ana Cristina Pereira - Arcádia

Sobretudo um livro no qual me orgulho de ter participado. Uma obra importante da mais importante jornalista a trabalhar hoje sobre questões sociais.
Cada capítulo uma pequena história (verídica) que liga a mulher ao mundo da droga, seja como mão, traficante, vendedora, filha, familiar, vizinha ou toxicodependente.


E agora os 10 melhores.

10.
Noite de Primavera - de Tarjei Vesaas - Ulisseia - trad. Mário Semião

Uma obra que editorialmente demorou a parir. Foi quase ano e meio e no entanto está aqui. Um dos grandes autores nórdicos nunca publicado em Portugal antes. Este é um buildung roman mas muito pouco comum. Está lá a perda de inocência, está lá a consciencialização de um mundo falhado mas há muito mais. Na história de Sissel e do seu irmão que recebem por uma noite uma família perdida e muito disfuncional, está uma alegoria dos nossos tempos. Escrita com uma linguagem cristalina e uma poesia imediata que fazem dele um dos grandes romances do nosso tempo e revelam bem porque é que Vesaas foi três vezes candidato ao Nobel.

9.
Os armário vazios - de Maria Judite de Carvalho - Ulisseia

Não me alongarei muito sobre mais um livro que é mais uma obra-prima da literatura portuguesa do século XX. Quem me conhece sabe o fascínio que nutro pela escrita de Maria Judite de carvalho e portanto imagina o prazer que foi poder trazer de novo à luz do dia este grande livro.
Como todos os livros de MJC, este fala-nos sobre a solidão, a ausência, o silêncio no meio das mil palavras. Mas como é já hábito mais do que o enredo ou qualquer outra coisa, a escrita é a principal personagem.

8.
15 dias de febre - de Maria do Carmo Castelo Branco - Verbo

Há uns anos atrás li a grande biografia de Baron Corvo por A. J. A. Symons que é considerada pela teoria literária como uma das mais inovadoras experiências em biografia pós-moderna.
acontece que esta biografia, escrita pela neta de Camilo, esta auto-psicografia escrita por outra pessoa vai muito mais longe. Enquanto obra literária é esmagadora, poderosa, diferente.
É um grande livro para uma esmagadora minoria.

7.
A pirâmide - de William Golding - Ulisseia - trad. João Cruz

Considerado pela crítica como o romance mais biográfico do prémio Nobel britânico, «A pirâmide» É também o mais humano dos romances de Golding; aquele que nos fala do ponto de vista, das nossas limitações e dos preconceitos sociais, aquele que nos fala claramente sobre a incapacidade de vermos o todo que nos rodeia e de nos vermos a nós mesmos fora de nós.
Mas é o mais divertido dos livros, o romance que segue um jovem protagonista numa clássica aldeia inglesa que decide não ser moleiro, oleiro, ferreiro, agricultor e sim ser artista. Os dados estão lançados. As gargalhadas vão soltar-se mas o que o romance nos conta, lá bem no fundo, é muito mais negro.

6.
Uma espécie de sono - de Henry Roth - Ulisseia - trad. de Miguel Martins

Hoje descobri que o Rogério Casanova tinha eleito este romance como um dos livros do ano de 2011. Na crítica que lhe fez, apontou o mesmo e único defeito que lhe vejo, defeito típico de todos os livros fundadores de um género, estilo ou corrente: aquilo que contém foi já trabalhado posteriormente e transformado em algo mais.
O livro de Henry Roth é um «Ulysses» - aliás têm sido comparado à obra de Joyce - , provavelmente o primero grande romance moderno, polifónico, polimórfico, que acompanha a vida de uma criança filha de emigrantes nas primeiras levas a chegar aos EUA no começo do século XX. Para a capa escolhemos uma fotografia que revela uma das fases de construção da estátua da liberdade que chegou em peças oferecida pela frança. O livro é também isso: um imenso puzzle sobre as peças que entram quer se queira quer não, na construção de uma pessoa num tempo e num país também eles em construção.

E fica também uma nota para a tradução impossível do Miguel Martins.

5.
Brutal - de Fernando Esteves Pinto - Ulisseia

Várias coisas obrigaram-me a publicar este livro. A primeira delas será o facto de em anos de receber milhares de originais, ver pela primeira vez um original que, à excepção de ligeiras correcções de texto, não precisava de nada. Era uma obra perfeita em si. O segundo motivo está em que esta é uma obra diferente de tudo quanto se pode ler na moderna literatura portuguesa. Na sessãod e apresentação da obra, decorrida na Feira do Livro, tive oportunidade de o dizer. Há muito poucas literaturas no mundo que se possam orgulhar de ter objectos literários que não se encaixam bem em escola ou movimento nenhum e ainda assim são grandes obras. Cá em Portugal temos duas O «Húmus» de Raúl Brandão e este livro de FEP e o curioso é que em muitos pontos estas duas obras tocam-se sem se imitarem.

Este livro é um brutal retrato sobre as relações humanas através dos traumas sexuais e psicológicos. É uma obra dura, é uma obra violenta é um grande romance.

4.
Não verás país nenhum - de Ignácio de Loyola Brandão - Ulisseia

Loyola Brandão, o escritor brasileiro, não o Santo, venceu por duas vezes o Jabuti, o seu romance «Zero» é uma das grandes obras-primas da literatura mundial e foi escolhido como uma das 100 obras de língua portuguesa durante a Expo 98.
Sobre este livro vou apenas dizer uma coisa: não houve ninguém que o tivesse lido que não tivesse gostado muito.
É um grande romance: ecoógico, de aventuras, de amor, de ficção científica, de fantasia, de terror, policial, de crítica social, poético, um thriller... se há romances dos quais se pode dizer que têm tudo para todos os tipos de leitor (e não perdem por isso mesmo) este é, certamente, um deles.

3.
Bilhar às nove e meia - de Heinrich Böll - Ulisseia - trad. de Vanda Gomes

Eu nunca publiquei prémios Nobel por publicar, porque vendem mais ou porque "devem ser bons". A escolha tem de ser minha, isso é o que significa ser editor: saber escolher em funçaõ do público para o qual se está a trabalhar.

Achei que este era um romance necessário para a nossa sociedade actual e mais se tornou com o agudizar da crise. Böll traça as ruínas de uma sociedade desmoronada e o jogo de aparências que essa mesma sociedade procura manter. O humor é subtil e delicioso, a segurança da escrita, um primor.

2.
Uma parte do todo - de Steve Toltz - Ulisseia - trad. de Carmo Vasconcelos Romão

Será escusado dizer que é um grande romance, afinal ronda as 700 páginas...

Mas vou mesmo escrever pouco sobre este grande livro. Vou dizer-vos que, como leitor, foi um dos livros que mais prazer me deu ler nos últimos anos. Gosto de livros com grandes histórias, daquelas que pegam em nós e nos depositam sobre um berço e nos transportam em viagens incríveis. Há muito tempo que não lia um livro que conseguisse isso de forma tão plena.

Para aqueles que têm mesmo de saber alguma coisa da história: é uma saga familiar que acompanha uma família que se propõe estar à altura da tradição de uma Austrália colonizada enquanto prisão do Reino de Sua Majestade: o objectivo dos vários membros desta família é serem os piores possível. Uma família disfuncional? Nem tando... leiam e deliciem-se.

1.
Satã em Goray - de Isaac Bashevis Singer - Ulisseia - trad. de João Carlos Alvim

Em primeiro lugar andava há anos a tentar deitar a mão a Singer e trazê-lo à edição em Portugal com o rigor que merece. Em segundo lugar é um grande livro.

Pleno de simbolismo, pleno de paralelismos históricos, pleno de importância nos dias que correm.

Romance histórico que acompanha uma pequena aldeia judaica do século XVI no territóriao actualmente correspondente à Polónia, uma aldeia que acaba de sobreviver, com muitas mazelas, aos ataques dos cossacos. Uma aldeia que se prepara para o Inverno rigoroso sem quase nada que comer. Uma aldeia à qual chega um personagem estranho que se diz profeta.

O livro foi escrito pouco antes e publicado pouco depois da fuga de Singer para os EUA no final dos anos 30, ameaçado que se sentia pelo regime Nazi em ascensão.

***

Para breve ficam prometidas as minhas escolhas do ano do que se andou a publicar por cá neste país em crise. Foi um rico ano, verdade seja dita.
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Murakami e eu

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Há uns anos atrás foi publicado o primeiro Murakami em Portugal pela Civilização. Algumas pessoas há que sabem do meu envolvimento nessa publicação. Tinha descoberto Murakami pouco tempo antes.

«Norwegian Wood» voltou hoje à recordação, vi o filme, sem surpresa pior do que o livro. Ainda assim a força daquela que tenho pessoalmente como a mais triste história de amor feliz não esmorece apesar de haver graves erros de continuidade e algumas mudanças de plano muito malfeitinhas.
Murakami acabou por não participar activamente no filme (esteve planeado que ele seria responsável pelo argumento) e creio que aí teve origem um problema grave: o filme procura criar uma carga simbólica pela sua montagem, pelo diálogo das cenas, dos espaços e da presença dos personagens nos determinados espaços. Com isso perdea  linearidade da narrativa de Murakami. Alguns longos planos de belíssimas paisagens japonesas faz perder força o conflito dialogante dos espaços-mundos presente no livro.
Apesar de todos os actores estarem bem escolhidos, sobressai claramente a actriz que desempenha o papel de Midori...
Enfim e no meio de tudo isto. Se tiverem filme e livro à frente, leiam o livro.
Na altura em que li o livro apaixonei-me por ele. Era o mais normal dos Murakamis, o mais real mas também o mais absurdo na sua normalidade. Um livro sobre a nossa incapacidade de nos entregarmos totalmente ou sobre o risco da entrega total (nos dois extremos dos personagens envolvidos na história), mas também sobre aquele problema grave de precisamente serem os extremos que se atraem. E se essas questões são grandes enigmas para o se humano, imagine-se no Japão onde tudo é interiorizado e se vive com uma noção de culpa católica não muito bem assimilada (ou demasiado bem assimilada).
Ao mesmo tempo coloca-se a questão do nosso mundo e das suas fronteiras, daquilo em que o nosso mundo pode tocar, permutar ou mesmo conter o mundo dos outros.
Recomendei o livro a imensa gente e descobri, para meu espanto, que as mulheres geralmente não gostavam dele. Talvez seja um livro muito masculino na sua forma de pensar. Talvez o personagem principal na sua incompreensão (ou sobrecompreensão) irrite as leitoras. Não sei.
Sei apenas que compreendo este livro como ele me compreende. Que me deixa com aquela tristeza que se assemelha a um vazio enorme. Uma profundeza, um abismo.

Resta-me portanto perguntar, ao jeito de certo personagem de Verne: «Quem jamais sondou as profundezas do abisbo?» respondendo: Murakami e eu..
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Excerto (1)

0 comentários quarta-feira, 19 de outubro de 2011
«E ainda por cima carregado com o saco do inglês. Aquilo pesava toneladas e batia-me contra o lado do joelho a que tinha sido operado. Não sei porque não troquei de mão mas aquela era a mão que dava mais jeito. Mas aquilo que me irritava mesmo foi ter trazido o raio dos chinelos. Já não tenho talento para "chinelar" como dizia a minha avó mas aqueles chinelos, levados a pensar no calor sufocante de lá de fora, eram dois tamanhos acima do meu.

Atravessei a rua e segui pelo passeio até quase chegar à ponte. Vinha a amaldiçoar-me mais os chinelos e tive de me desviar do rapaz um pouco à pressa. Era tão alto como eu, bronzeado de dias inteiros na praia, e vinha estupidamente mal vestido. ao desviar-me o chinelo ia saindo do pé. Tive de dar dois meios passos para recuperar. O rapaz percebeu algo e olhou-me e eu a ele. Retesei os ombros para aguentar o ego mas o golpe estava dado.

Uma voz na minha cabeça ainda tentou convencer-me: "tu ocupas a posição que ocupas, és um dos mais prestigiados professores universitários da tua geração." Mas já a outra voz, mais sincera respondia: "qual quê. Não te ponhas com coisas: há-de comer mais gajas por mês que tu na vida."

É mesmo a isto que se reduz o orgulho macho mesmo depois de tantos séculos de civilização.»

De um original inédito «Os feitos amorosos de João Brás» por Fernando Sopinha Vieira

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Personagens (2)

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Irlandês seboso, chupado e chamuscado, traficante de rua de relevância média, sempre a fumar uma beata e no qual apenas se destacam os vivos olhos azuis que se mexem em movimentos nervosos de um lado para o outro: Nick O'Tean
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Sabedoria Editorial

0 comentários terça-feira, 18 de outubro de 2011
Encontrei aqui e é bem verdade. Um antigo documento que é uma verdade absoluta para algumas editoras que conheço.
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Fim de mais um ciclo

1 comentários sexta-feira, 7 de outubro de 2011
A partir de hoje deixo de estar ligado ao Grupo Babel. Foi um período em que aprendi muito e conheci alguns profissionais excelentes, fiz bons amigos e tive o prazer de trabalhar com grandes Autores. Infelizmente não foi possível alcançar todos os objectivos que pessoalmente me tinha imposto. Outras ocasiões virão. Obrigado a todos os que me ajudaram neste trecho do percurso e estou certo que os nossos caminhos voltarão a cruzar-se em breve.
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Lérias

0 comentários domingo, 2 de outubro de 2011
Já li quatro magníficas Lérias do Miguel. Como todos saberão, a linguagem humana nasceu da necessidade de propagar lérias. Daí que toda a linguagem, de forma mais ou menos perfeita, seja ficção, sejam lérias, seja mentira mesmo quando conta ou pretende meramente referir a verdade.
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O sistema e as vítimas

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No nosso país, continuam a lamentar-se as vítimas dos sistemas mas não se punem os criadores desses sistemas que não funcionam. É mais fácil e mais barato e o país continua a evoluir de derrota em derrota.
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A fracção do todo

0 comentários quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Foi um dos maiores sucessos editoriais de 2008. Tinha perto de 700 páginas e era uma obra de estreia de um autor australiano obviamente desconhecido. Tinha tudo para não ser um sucesso. «Uma parte do todo» de Steve Toltz, foi publicado em cinco continentes com um reconhecimento universal da crítica. Foi finalista do Booker (de que consta ser a primeira obra de estreia de um autor não-britânico a alcançar tal posição) e do Guardian Firrst Fiction Award. Traduziu-se e traduz-se ainda em mais de 40 países apesar da dificuldade orçamental de lidar com uma tradução caríssima e o risco de se apostar numa obra de estreia cujo autor não garantiu ainda sequência. Ainda assim a aposta foi unânime por parte dos melhores editores estrangeiros. O que leverá a que isto assim seja, perguntam-me. A qualidade transversal da obra: um calhamaço que nunca se repete, nunca abranda o ritmo e tem personagens únicas em situações extravagantes do princípio ao final do livro. A história de uma família de anti-heróis apostados declaradamente em defender a honra da herança australiana enquanto colónia para ladrões, assassinos, malfeitores, prostitutas e o que mais viesse. As sucessivas gerações desta família, cujas histórias e os tempos se cruzam, estão apostadas em ser as piores dos piores. Assim, o livro brinca com conceitos como 'justiça', ou 'verdade', ou 'honestidade' e, claro, 'ficção' como poucos podem fazer; e fá-lo ao mesmo tempo que conta uma grande história, faz com que o leitor identifique o lado mais perverso da sua alma com a daqueles bons-maus ou maus-bons, e fá-los rir sem parar. Talvez seja também um dos poucos triunfos modernos da aventura pincaresca mas é, acima de qualquer outra coisa, um livro que ninguém esquecerá. Uma história que atravessa veloz 700 páginas para, no final, deixar vontade de muito mais.
Em Outubro nas melhores livrarias.
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Vila-Matas sobre Henry Roth

0 comentários segunda-feira, 5 de setembro de 2011
«Henry Roth nació en 1906 en una aldea de Galitzia (entonces perteneciente al imperio austrohúngaro) y murió en los Estados Unidos en 1995. Sus padres emigraron a América y pasó su infancia de niño judío en Nueva York, experiencia que relató en una espléndida novela, Llámala sueño, publicada a los veintiocho años. La novela pasó desapercibida y Roth decidió dedicarse a otras cosas, trabajó en oficios tan dispares como ayudante de fontanero, enfermero de manicomio o criador de patos. Treinta años después, Llámato) sueño se reeditó y, en pocas semanas, se convirtió en una pieza clásica de la literatura norteamericana. Roth se quedó pasmado, y su reacción ante el éxito consistió en tomar la decisión de publicar algún día algo más, siempre y cuando él sobrepasara de largo la edad de ochenta años. Superó de largo esa edad, y entonces, treinta años después del éxito de la reedición de Llámalo sueño, dio a la imprenta A merced de una corriente salvaje, que los editores, dada la imponente extensión de la novela, dividieron en cuatro entregas. «He escrito mi novela -dijo al final de sus días- sólo para rescatar recuerdos raídos que brillaban suavemente en mi memoria.» Se trata de una novela escrita «para hacer que sea más fácil morir» y donde se burla, de una forma genial, del reconocimiento artístico. Sus mejores páginas tal vez sean aquellas en las que nos cuenta sus experiencias en las afueras de la literatura -esas páginas ocupan prácticamente la novela entera, como es lógico-, todo esos años, casi ochenta, en los que no se sabe si escribió, pero en todo caso no publicó, todos esos años en los que se olvidó de los afluentes del río de la literatura y se dejó llevar por la corriente salvaje de la vida.» Enrique Vila-Matas in Bartleby & Cia.
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O Diabo na Ulisseia em Setembro

2 comentários sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Isaac Bashevis Singer viu o nascimento e crescimento do nazismo (que, aliás, foi essencialmente contemporâneo do seu), assustado pela sua proximidade e significado, emigrou em 1935 para os Estados Unidos trazendo na mala boa parte de um romance intitulado «Satã em Goray», escrito na sua língua natural, o iídiche. Publicado originalmente por capítulos numa revista literária, este é um romance histórico passado numa pequena aldeia judaica geograficamente localizada na Polónia hodierna. Uma aldeia que apenas acabou de recuperar dos massacres perpetrados durante as invasões dos cossacos, que se apercebe da sua debilidade e da insegurança que a rodeia, da probabilidade da fome e da doença que o futuro poderá trazer. E é a essa aldeia que chega um dia o estranho Sabbadai Zevi que se apresenta como o novo Messias. Essachegada marca o momento em que, contra todos os apelos da razão, a comunidade acaba por se entregar nas mãos dessa fé cega. Lê-se como romance histórico, como disse, mas é também, claramente, um romance-alegoria sobre a implantação do nazismo e um alerta muito sério para os nossos tempos de crise financeira e grave insegurança. Andava há anos para publicar este romance mas só hoje o pude fazer pelo que estou bastante satisfeito. Preferia tê-lo feito a partir do iídiche mas não há tradutores em Portugal, ainda assim foi o próprio Singer que ou traduziu ou supervisionou as traduções das suas obras para inglês pelo que a traição será menor.
Satã em Goray, de Isaac Bashevis Singer (trad. de João Carlos Alvim) Só com uma nota final, que os editores também têm de vender o seu peixe: Singer foi galardoado com o prémio Nobel de Literatura em 1978 e esta é a primeira vez que este seu romance vê a luz do dia em Portugal. Opinem.
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Asimov em Setembro na Ulisseia (como nunca o viram)

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Se um grupo de cavalheiros se reunisse regularmente num clube nova iorquino para desvendar mistérios dos quais possuiam apenas uma notícia ou um relato (obviamente incompletos ou parciais), se durante os magníficos jantares servidos pelo extraordinário Henry se fossem tecendo as possibilidades de solucionar a intriga, isso seria
Os Crimes dos Viúvos Negros, de Isaac Asimov (trad. por Raquel Dutra Lopes) Na época em que o policial negro americano a la Spillane era rei e senhor, Asimov, convidado pela Ellery Queen Mystery Magazine, escreveu uma série de contos de aparência clássica mas que, na realidade, para além da fachada de boas histórias policiais (que são) é, ainda assim, um conjunto de ensaios sobre lógica, mecanismos da ficção e a Verdade. Este é um daqueles pequenos tesouros da literatura que me deu imenso prazer descobrir. Espero que também gostem.
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Serviço noticioso

0 comentários sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Dentro do espírito original deste blogue (e também devido à falta de tempo para nele escrever com regularidade) criei um espaço na coluna da direita que num impulso pensei denominar como "Serviço de rapidinhas" mas rapidamente percebi que isso atrairia um fluxo de visitantes indesejados sobretudo agora em tempos de crise. E nasceram as "Curtas": pequenas notícias e destaques sobre a área da cultura que eu quero partilhar convosco. Por exemplo um grande livro que descubro numa Amazon ou um preço de saldo num DVD, ou o lançamento de um livro daqueles que vale a pena, etc.

Faz tudo parte do meu novo sistema de economizar tempo e esforço: antes ficava bastante tempo a meditar (enquanto fazia outras coisas) naquilo que iria colocar no blogue para destacar uma destas pequenas notícias e quando finalmente tinha tempo já a notícia não tinha actualidade. Agora em jeito de espelho do esforço de reconversão do país, economizo. e como não sou de modas e não uso o Twitter... teve de ser assim.
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Blogue de luto

0 comentários domingo, 24 de julho de 2011
O Público informa-me que morreu a Maria Lúcia Lepecki. Aqui está uma grande perda. Mais do que tudo o que dizem da Maria Lúcia, grande escritora e ensaísta, foi uma Grande Professora e sobretudo uma das últimas grandes comunicadoras da Universidade portuguesa.
Dentro do departamento de românicas e da FLUL era a única professora que parecia respirar fora daquele ambiente de intriguistas e de invejosos. Parecia ser a única pessoa a divisar que havia um mundo fora daquele e era isso mesmo que transmitia aos alunos. Que também fora do modelo de ensino ultrapassado em que o aluno não tinha espaço para dar as suas opiniões e apenas poderia limitar-se a citar e os autores autorizados pelo professor da maneira como este os citava, tudo podia ser feito de outra forma com a Maria Lúcia. Lembro-me, e ainda noutro dia falava disso, que apresentei um trabalho, uma leitura comparada da «Leviana» do António Ferro e de «O amor é fodido» do MEC.
Foi a Maria Lúcia quem me fez descobrir a grandeza do Camilo, quem não se atrevia a dizer bem do Saramago ou do Lobo Antunes, por aquilo que tinham de bom ou diferente.
Mas mais que tudo a Maria Lúcia ensinou quem a queria ouvir a viver plenamente. A acordar para a grandeza do mundo e pequenez da nossa mesquinhez lusa (e fê-lo sem criticar seja o que for).
Ela ensinava as pessoas a terem curiosidade e seguirem essa mesma curiosidade; ela mostrava o que era amar a literatura portuguesa como poucos portugueses conseguem.
A Maria Lúcia foi uma pessoa feliz - apenas sofria com o afastamento dos netos. Foi um grande Ser Humano. Em tudo o que lhe conheci, estava acima.
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O fim da edição de livros em Portugal?

9 comentários segunda-feira, 18 de julho de 2011
A crise chegou e as editoras estão em pânico. As curtíssimas margens de lucro num negócio que pouco tinha de negócio desapareceram num espaço ainda mais curto de tempo. As livrarias não pagam, os leitores não compram. E vai piorar.As pequenas e médias editoras ou têm fundo de maneio que lhes permita aguentar a crise ou vão fechar portas (conheço muito poucas que tenham essa almofada de segurança). O mesmo vai passar-se com as pequenas e médias livrarias.

No que toca às grandes editoras, as soluções dos gestores passam por baixar preços e fazer grandes saldos, medidas inevitáveis para a sobrevivência no momento mas de consequências desastrosas no futuro. Se e quando a crise começar a passar, os alguns anos de preços da chuva, "packs" e saldos vão condicionar os leitores sobreviventes relativamente a preços mais 'verdadeiros'.

Dessa forma quem, apesar da crise, compra ainda livros vai, nos próximos tempos, matar a fome com preços que nunca sonhou. E depois? Haverá ainda espaço e tempo para os novos livros a preços superiores? Esta pergunta será válida para as editoras grandes como para as grandes cadeiras livreiras.

Claro que a crise tem as suas vantagens. A adequação da realidade do output editorial à capacidade de absorção do mercado. Mas se essas realidades estão ambas sob a sombra negrta da crise, como sobreviver?

Caber-me-ia agora indicar que é nestas alturas que se deveria apostar nas linhas de qualidade e na edição com rigor, critério e cuidados especiais. Que vai ser esse tipo de edição que vai garantir o futuro na altura das mudanças que se avizinham. Mas nem os gestores compreendem isso (nunca o compreenderam aliás) nem conseguem perspectivar qualquer opção estratégica que não resulte em retorno imediato - porque a edição em Portugal, dadas as suas margens, não foi nunca pensada num prisma de médio/longo prazo (salvo em casos pontuais).

Não devemos escamotear a verdade: o sector vai ficar moribundo. Vão fechar editoras, distribuidoras, livrarias e mesmo gráficas. Muitas. A maior parte. Vão ficar sem trabalho editores, livreiros, comerciais, tradutores, revisores, técnicos diversos das mais diversas áreas ligadas à edição de livros e sua produção.

Mas se a crise é a principal culpada não podemos também ignorar que a situação acontece pela realidade de um país sem hábitos de leitura, um país onde os agentes da área da edição nunca se uniram em campanhas efectivas de desenvolvimento e angariação de novos leitores. Nunca houve acções integradas e continuadas de impacto nessa área porque a cultura é um bem (muito) acessório. Um país onde, apesar das qualidades notáveis que os portugueses possuem, nunca se tirou delas partido, com um sistema de ensino medíocre que trabalha para a medianização e não para a excelência; um país que nunca soube reconhecer os seus maiores valores e os perde constantemente para o exterior. Um país onde é mais fácil criticar quem se distingue do que valorizar.

Neste quadro não podemos ter esperança no sector editorial e os investimentos nas novas tecnologias do livro, com os valores que implicam, parecem ainda mais incongruentes.

Gostaria muito de estar errado mas fica o aviso: comecem a preparar-se para encomendar livros do Brasil.
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Os consagrados da Ulisseia

4 comentários quinta-feira, 7 de julho de 2011
Uma das apostas da Ulisseia é, como já mencionei diversas vezes, a construção de um catálogo de ficção de referência. Aliás é a sua principal aposta.
Isso implica construir um catálogo com base dos modernos cânones da literatura mas, ao mesmo tempo, incluir clássicos e clássicos modernos e implica, no meu entender, conhecer os cânones literários que também são - ou vão sendo - desconhecidos em Portugal.
Daí que, antes de falar dos consagrados que certamente conhecem, quero falar sobre a última novidade da Ulisseia que dificilmente conhecerão.
Tarjei Vesaas, o autor, foi por três vezes candidato ao Nobel, venceu o prémio do Conselho Nórdico e é unanimemente reconhecido nos países escandinavos como o autor norueguês mais importante ó século XX ao lado de Hamsun.
A escrita de Vesaas é cristalina e aparentemente muito simples. Debaixo dessa superfície de simplicidade para uma floresta de significações que fazem de histórias simples, lições de narrativa e de vida.
Este livro será aquilo que os ingleses chamam o coming-of-age novel e os alemães buildungroman, um romance curto - os romances de Vesaas raramente ultrapassam as 200 e poucas páginas - que se desenrola ao longo de uma noite de Primavera, daquelas noites em que, pelas paragens mais frias do Norte europeu, a neve começa a derreter mesmo quando por vezes ainda cai. Dois irmãos - Sissel de 16 anos e o seu irmão mais novo Hallstein - ficam sozinhos por uma noite na ausência dos pais, na casa da quinta onde habitam. Ao começo da noite um co«njunto de estranhos estranhos (perdoem-me a repetição) bate-lhes à porta.
Aquilo que era para ser uma noite tranquila e controlada é de imediato tomada de assalto por uma enorme tensão. Com o carro avariado, entram na casa uma mãe em trabalho de parto, um pai quase histérico, um padrinho acriançado, uma madrinha paralítica mas que talvez não o seja e uma estranha rapariga com a qual, apesar de nunca se terem cruzado, Hallstein tem sonhado nos últimos tempos.
De manhã tudo terá mudado e a adolescência também terá partido durante a noite.
A força da escrita de Vesaas é assombrosa. Quando primeiro li este autor disse para mim que tinha de o publicar. É como um Murakami nórdico sem o ser bem. Dêem-me depois as vossas opiniões.
Quanto ao Pavese que esteve desaparecido do mercado durante anos aparecendo apenas de forma pontual aqui e ali em edições sem continuidade, é um dos mais importantes nomes da literatura europeia da primeira metade do século XX.
É o escritor do modernismo das sensações, da indefinição do sentimento. Apresentando sempre estas temáticas numa lógica de romance quase clássico.
É nossa intenção publicar as obras de Pavese ao ritmo de 1 a 2 títulos por ano e devolver-lhe o seu merecido lugar entre os grandes nomes da literatura.
Um dos meus problemas com Golding, prémio Nobel da literatura e vencedor do Booker, é a sempre difícil relação que o leitor tem com os personagens. Há uma frieza que marca a distância entre os dois níveis e que, apesar da qualidade da escrita e da originalidade dos enredos, nos mantém claramente na posição que o autor pretende que tenhamos: observadores imparciais.
Este livro não é assim. Provavelmente também porque será a obra mais autobriográfica de Golding.
A história é divertida e pisca a vários passos o olho ao leitor. Arrasta-o para si e para os personagens daquela pequena aldeia do interior rural de Inglaterra onde o jovem narrador quer viver o seu sonho de se tornar "artista", coisa inaudita e que acarreta significações não muito abonatórias para si.
Um livro sobre a coragem de assumir a diferença num meio que não a aceita e a julga através de preconceitos equívocos e equivocados.
Divertido e comovente e, sobretudo, importante.
Heinrich Böll é um pouco (ou muito) como aqueles cientista comportamentais que pegam em vários seres vivos de uma comunidade e os colocam em situações e realidades diferentes e estranhas para ver como se comportam e se se adaptam.
A temática central da obra de Böll foi sempre essa: como se comportam os seres humanos face a situações extremas.
À lupa do microscópio-pena do autor desenrola-se, neste romance, a vida de uma família da alta burguesia alemã que procura refazer a sua vida num cenário de completa destruição do pós guerra.
Quem pense que estamos perante um romance sério e duro sobre condições extremas, desengane-se. Este livro é uma deliciosa comédia de aparências que joga de uma forma moderna com um tema tão pós-moderno como é a identidade e a sua diferença da imagem.
Daqueles livros que são irrepreensivelmente bem escritos, provocam muitas gargalhadas nos momentos certos e nos obrigam e pensar muito sobre certas coisas.
O autor também ganhou o Nobel.
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Uma sugestão

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Como saberão sou um apreciador da literatura fantástica o que não quer, de forma alguma, dizer o mesmo que fantasia. E de vez em quando, para descontrair, compro qualquer coisa que me parece interessante.
Foi assim que, no final do ano passado, descobri aquela que, para mim é a melhor série de fantasia actual: o ciclo de romances de Joe Abercrombie (até agora 5).
Os primeiros três constituem uma espécie de trilogia com personagens que se cruzam e descruzam num mundo que reflecte os vários estereótipos da literatura fantástica moderna (estão lá Robert E. Howard, Tolkien e outros). Os últimos dois são livros independentes mas só vale a pena serem lidos com a leitura prévia da trilogia inicial. Ainda assim, na minha opinião, são os melhores.
Aquilo que faz a diferença é a simplicidade com que brinca com géneros, com os próprios estereótipos, mas também a qualidade literária muito acima da média para não falar do fabuloso sentido de humor e capacidade de presentificação ao leitor de tudo o que acontece.
Se a maior parte da fantasia moderna é, toda ela, um cansativo cliché, esta é a excepção que confirma a regra. E ao que consta está para ser publicado em português. Espero que ponham um bom tradutor a traduzir porque merece.
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Uma mensagem para a Moody's

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Segui a sugestão, bem pensada, do José Mário e escrevi um pequeno e-mail à Moody's para agradecer a sua ajuda em fazer com que saiamos da crise.
Escrevam também:
RatingsDesk@moodys.com
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Correntes d'escritas??

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Já não bastavam os e-mails com correntes agora também me mandam para o blogue. Tá bonito tá. Mas vá lá, esta é da casa e portanto responde-se.

1. Existe um livro que relerias várias vezes?
Muitos mas não tenho tempo para reler. Estou a guardá-los para a reforma se ainda tiver vista.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Não. Sou prático nisto. Ou me interessa, ou tenho de ler, ou, se não me motiva, há muito mais que ler na vida que é demasiado curta. Ok, vá lá: O corredor de Jean Reverzy. Só voltei a tentar ler este porque da minha primeira leitura ficou a ideia de que era uma coisa tão irritantemente estúpida que pensei que não podia ser verdade.

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
... Seria provavelmente o errado. Com a minha sorte...

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Aqui tem de vir o As mil e uma noites integral... que só li bocadinhos e ando há milénios para ler. Ah, e o La vita do Benvenuto Cellini.

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Uma cena nada final, mesmo bem no meio, passada num poço no The wind-up bird chronicle que quem leu não esquece.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Verne, Stevenson, Salgari, Os cinco, Jim Kjelgaard, Jack London, Walter Scott, G. A. Henry, Mark Twain e a colecção completa da revista Tintin, ou seja era aventura e mais aventura. Costumava rasgar os livros infantis que me davam.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Tenho uma longa lista daquele tipo de autores que escrevem sobre coisas que não me entusiasmam mas cuja leitura não consigo parar. Assim no topo da lista: Julien Green, Maria Judite de Carvalho e um outro autor que não vou mencionar porque um dia talvez o publique.
Porquê? Porque escrevem tão bem que, apesar de abordarem temas pelos quais geralmente não me interesso, são inelargáveis (isto existe?)

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
A ilha do tesouro (Stevenson), Caninos brancos (London), As aventuras de Sindbad (do Guyla Krudy), Moby Dick (Melville), O último justo (Schwarz-Bart), Gente independente (Laxness), O último Unicórnio (Beagle), A noite e o riso (Bragança), Contos fantásticos (Carvalhal), Zero (Loyola Brandão), Com amor e raiva (Pratolini), A ponte sobre o Drina (Andric), A tia Júlia e o escrevedor (Llosa), A roda da fortuna (Jorn), Dom Quixote (Cervantes), Wuthering heights (Brontë), Complete short-stories (Maugham), The wind-up bird Chronicle (Murakami), O bosque harmonioso (Abelaira),(J. Roth), Narciso e Goldmundo (Hesse), The sacred book of the werewolf (Pelevin), Oscar & Lucinda (Carey), Kristin Lavransdatter (Undset), A noite de Walpurgis e O Golem (Meyrink), Gormenghast (Peake), O Castelo do homem ancorado (Huysmans), Margarida e o mestre (Bulgakov), quase tudo do Bioy Casares, A última receita (Lindgren), Heart's delight (Nilsson), quase toda a obra da Selma Lagerlöf, quase tudo do John Fowles, Escrevo-lhe de Itália (Déon), Inside, outside (Wouk), poesia do Char, do Vinicius, do Browning, do Neruda, da Szymborska, do Maiakowski, quase toda a ficção do Stanislav Lem, Casa de campo (Donoso), Great expectations (Dickens), os contos do Machen e do Robert E. Howard, Os moedeiros falsos (Gide), os contos do Eça, O arranca corações (Vian), poesia do Mário de Saa, do Joaquim Namorado, do Carlos Queiroz, todo o Raul Brandão, os contos e algumas crónicas e ensaios de António Ferro, tudo do Edward Whittemore, Zorba (Kazantzaki), O livro de San Michele (Munthe), To kill a mockingbird (Lee), Spice & Wolf (os "light novels"), Behold! this dreamer (de la Mare), mais poesia do Gomes Leal, Manoel de Barros, Coleridge, e posso continuar se quiserem mas sentir-me-ia como o Eco nos últimos romances: a masturbar-se para o público.

9. Que livro estás a ler?
The heroes do Joe Abercrombie e uma série de outros que, por motivos profissionais, não vou revelar.

10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.
Não tenho dez amigos com blogues portanto vai para blogueiros que gostaria de ver a responderem a isto: para o Zé Mário, a Isabel, o Eduardo, o André, a Sara, para o Paulo e o Nuno, o Rui, o José, outro Nuno, para o Don (para ver se volta a escrever), a Susana e a Susana (já foram demasiados mas como nenhum deles me segue, não se nota)
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Literatura de língua portuguesa na Ulisseia, um (ou 4) desafios

6 comentários quarta-feira, 29 de junho de 2011
Já vos falei um pouco do que andava a fazer na Ulisseia mas este ano posso concretizar com mais propriedade ainda aquilo que pretendo fazer em termos da edição de obras de autores de língua portuguesa. Também nessa área, como nas restantes, o desafio que me foi feito é a edição de ficção de referência: publicar não apenas autores consagrados como novos autores que prometam vir a fazer parte de cânones futuros.

Claro que essa é uma escolha do editor e portanto gostaria mesmo de saber a vossa opinião - depois de lidos os livros - opiniões pelas contracapas são, no mínimo discutíveis.


Assim este ano o romance-choque de Fernando Esteves Pinto, «Brutal». Uma obra para quem gosta da literatura que dá socos, bem aveludados, no estômago do leitor (daqueles socos no estômago que sobem à cabeça porque obrigam a pensar). O Miguel Real disse já por várias vezes que o Fernando é dos poucos escritores portugueses a saber escrever - e como! - sobre sexo mas eu creio que vai muito para lá disso. Há algo de existencialista na sua escrita que o aproxima da força de um «Húmus», esse objecto estranho da nossa literatura, e de «A morte do palhaço», outro ainda mais estranho produto de Raul Brandão.

O livro segue duas idades de um mesmo personagem, fascinado por teatro, que narra trazendo em encenações palpitantes à boca da cena os traumas de infância que enformam a sua difícil relação com a sua companheira. Olhar e diálogo entre os diversos tempos sobre si mesmos e sobre os outros (tempos entenda-se) é um encadear de momentos vívidos escritos de forma inesquecível. Agora não o escondo: é um livro difícil. A Maria do Rosário teve o livro em sua posse mas admitiu que era um livro bom mas difícil de encontrar público. O que acham? São leitores preparados para pugilato literário ou daqueles que preferem ser acarinhados pelas suas leituras? Cada um destes tipos de leitor tem as suas vantagens e desvantagens, as suas glórias e misérias mas os primeiros são mais raros. 

Por outro lado um nome consagrado mas esquecido: a grande Maria Judite de Carvalho. Este será o seu único (e formalmente verdadeiro) romance (curto ou novela longa). Narradora maior da situação da mulher numa sociedade cada vez mais desumanizada.

MJC fala da solidão como poucos escritores em todo o mundo conseguiram: com uma verdade incómoda e impossível de contornar. Uma incomodidade que se torna física e asfixiante. De repente temos de pousar o livro e olhar em roda. Como dizia o Eduardo Pitta, provavelmente não com estas palavras que seguem por fraca memória, a escrita de MJC vale por todo um seminário de escrita criativa.

Curiosamente próximo do livro do Fernando Esteves Pinto está este também violento romance-choque do Paulo José Miranda (primeiro prémio Saramago) a quem desafiei para regressar à edição deste lado do canal - ele vive agora do outro lado do Atlântico.

Uma obra que põe a nu o vazio das relações modernas e a necessidade de uma violência física e psicológica para comunicar os sentimentos que não conseguimos sequer entender por nós próprios. Crítica do nosso mundo da comunicação em que comunicamos levianamente tudo o que temos de superficial para comunicar mas nunca nos abrimos. E quando o queremos fazer não há como.

Alguém há-de lembrar-se de um livro publicado pela Bertrand em Portugal, corria o ano de 1976. Uma obra proibida no Brasil aquando da sua publicação poucos anos antes e só "liberado" 9 anos depois. Cá também esteve fora de circulação até 1976. Chamava-se «Zero» e durante a Expo 98 foi considerada uma das 100 obras de língua portuguesa do século XX.

«Zero», que vamos publicar em Outubro comemorando, cá como no Brasil, o aniversário da sua polémica publicação, será provavelmente o único romance verdadeiramente inovador do século XX depois das experiências modernistas joycianas (ok, a heresia é minha). Este outro, livro com que começamos a publicação das obras de Loyola Brandão por cá, é algo totalmente diferente mas que, também ele, foi inovador na forma como abordou questões ambientais naquilo que poderia chamar-se um pan-romance, sobretudo pela pluralidade de leituras que permite e pela pluralidade de leitores a quem abre a porta.

Diz-se muitas vezes que os autores brasileiros não vendem em Portugal e até é verdade. À excepção daqueles grandes nomes incontornáveis, qualquer nome que se apresente não merece sequer uma palavra da crítica, quanto mais a atenção dos leitores. Daí também o meu desafio: se é um leitor que gosta de qualquer uma seguintes coisas (independentemente se gosta das outras), se gosta de uma grande história seja ela de amor, policial/thriller, ficção científica, ambientalista ou poética; se gosta de obras escritas numa linguagem aparentemente simples mas onde cada palavra para além de se poder ler à superfície encerra em si outros significados e uma poesia tremenda; se gosta de grandes romances metafóricos comparáveis, por exemplo, a «Ensaio sobre a cegueira», mas que vão muito para lá desse livro em qualidade literária propriamente dita e "inventividade", experimente umas páginas deste mundo onde o desaparecimento da camada de ozono obriga o ser humano a viver de noite e debaixo da terra, a comprar frascos com cheiro de flores ou terra molhada e onde, ainda assim, é tão difícil aceitar a nossa culpa em tudo isso como quebrar as regras de um amor.

É isto. Ficam os desafios e esperam-se as opiniões. 
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Compêndio civilizacional

1 comentários sexta-feira, 17 de junho de 2011
Uma das grandes vantagens do Facebook, para além de, por vezes, nos contemplar com eflúvios de palermice, é oferecer algumas grandes sínteses culturais e civilizacionais.
O vídeo em causa é o melhor exemplo da tipologia mencionada e, em si só e em menos de 5 minutos, condensa toda a cultura de um povo de forma bem mais sucinta que a feira da Avenida da Liberdade e o piquenique do Carreira.
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Notícias do mundo

0 comentários sexta-feira, 15 de abril de 2011
O governo grego anunciou um protocolo de parcerias para produzir um pequeno computador destinado aos jovens estudantes. Trata-se de um modelo apenas com o essencial para permitir a familiarização com as novas tecnologias combatendo a info-exclusão. Ao ser produzido a nível nacional será um notável investimento e fonte de encaixe para as empresas nacionais que o venham a produzir e comercializar. Em honra aos grandes homens e grandes feitos so povo helénico este modelo de pequeno computador chamar-se-á: Sócrates.
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FLM

2 comentários sábado, 26 de março de 2011
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Personagens (1)

0 comentários terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Actriz de filmes pornográficos lésbicos grega: Clitmestra.
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Palermas há muitos meu chapéu.
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