Livros do Ano 2014

0 comentários terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Como de costume, seguem as minhas escolhas. Como de costume escolho apenas de entre o que já li (na edição portuguesa ou noutras línguas antes de traduzido). Como de costume a ordem nada significa.

- Outras vozes, outros lugares de Truman Capote (Sextante). O romance de estreia de Capote e provavelmente a melhor coisa que escreveu.

- Karl Marx de Isaiah Berlin (Edições 70). A vantagem de uma biografia que foi sendo actualizada edição atrás de edição e aquilo que a torna num objecto único é a evolução da perspectiva do autor e da perspectiva sobre Marx ao longo de boa parte do século XX.

- A Invenção do Amor de José Ovejero (Alfaguara). Uma pequena pérola literária sobre as histórias que inventamos para nos embalarmos.

- Duzentos poemas de Emily Dickinson (Relógio d'Água). E. Dickinson é "a minha poetisa". Não posso dizer muito mais. Boa tradução.

- O Homem Verde de Kingsley Amis (Quetzal). Um dos meus livros preferidos de K. Amis. Uma história sobrenatural em que o mal toma conta da vida de um estalajadeiro do interior do reino unido. De certa forma é uma versão do "Castelo do homem ancorado" de Huysmans.

- 60 histórias de Donald Barthelme (Antígona). Barthelme é um pesadelo de para traduzir e nesta antologia como na anterior conseguimos, ainda assim, apanhar o essencial de um escritor que rompe os limites da ficção.

- Restaurante canibal de Gabriel Magalhães (Aletheia). Um "divertimento" de Gabriel magalhães que, como de costume, surpreende pela leveza da sua prosa.

- História e Utopia de E. M. Cioran (Letra Livre). Uma obra essencial do pensamento moderno.

- Jardins de cristais de Sérgio Rodrigues (Gradiva). Apesar de ser muito "tese" ainda assim um belíssimo livro. Um daqueles livros que só aparecem raramente mas ficam como referência.

- Notícias em três linhas de Félix Fénéon (Exclamação). Se eu tivesse de escolher um livro do ano, este seria um provável candidato. Bela estreia para a colecção dirigida pelo Rui Manuel Amaral. (ah, e sim, o micro-conto tem bem mais de 100 anos mas essa conversa ficará para segundas núpcias.)

- Mar de Afonso Cruz (Alfaguara). Novo tomo da enciclopédia que Afonso Cruz tem vindo a escrever. Sempre original.

- Diários de George Orwell (Dom Quixote).

- Obcénica de Hilda Hilst e André da Loba (Orfeu Negro). O livro mais fresco do ano.

- A Conversa de Bolzano de Sándor Márai (Dom Quixote). Um dos maiores romances da literatura europeia moderna. O romance fundamental de Márai. Não li esta tradução.

- A Imperatriz Viúva - Cixi, a Concubina Que Mudou a China de Jung Chang (Quetzal). Uma das biografias do ano; a autora de Cisnes Selvagens, revela a importância da mulher que segurou a China impedindo o seu estilhaçar. Não li esta tradução.

- Um bárbaro em casa de Frederico Pedreira (Língua Morta). Os primeiros dois contos estão mal revistos mas mesmo assim a leitura prende. Li poucos autores nacionais este ano mas este livro foi um dos melhores e uma boa surpresa.

- A estrada para Oxiana de Robert Byron (Tinta-da-china). Quiçá o melhor livro da magnífica colecção dirigida pelo Carlos Vaz Marques. Só não o digo expressamente porque não li todos. Não li esta tradução.

- Ética mínima de António Fidalgo (Gradiva). Um livro do qual ninguém escreveu e que passará despercebido mas que devia ser manual para a todos os portugueses.

- Nove História de J. D. Salinger (Quetzal). Mais um exemplo da escassa obra de Salinger que comprova o seu génio. Não li esta tradução)

- Contos e diários de Isaac Babel (Relógio d'Água). Aqui há uns anos atrás quase incluí o livro de contos de Isaac Babel publicado pela mesma editora na minha lista de livros do ano e não quis deixar de lado a oportunidade de comentar que me incomodava o facto de ser uma selecção de 300 e tal páginas quando os contos completos do autor tinham pouco mais de 400 páginas. Presumo que esta seja a edição completa acrescida dos Diários. Um livro essencial da literatura moderna. Não li esta tradução.

- O visitante da noite & outros contos de B. Traven (Antígona). O misterioso B. Traven, um dos maiores enigmas da literatura moderna, volta às livrarias décadas depois da edição da sua obra-prima. Eu estive quase a apanhar o autor quando estava na Babel. Fico contente que apareça finalmente em português e espero mais obras. Não li esta tradução.

- Obra Escrita. Volume I de João César Monteiro (Letra livre). Como é que, até agora, este livro não apareceu em nenhuma das listas de livros do ano?? Façam-se o favor de comprar e deleitem-se.

- Nós, Os Afogados de Carsten Jensen (Bertrand). Romance narrado por uma aldeia. Épico marítimo, história de navegadores, uma saga nórdica moderna. Não li esta tradução mas como é do João Reis, deve ser boa.

- Contos e Novelas de Saul Bellow Vol 1  (Relógio d'Água). Mais outro livro ignorado em quase todas as escolhas do ano. Não li esta tradução.

- A casa azul de Cláudia Clemente (Planeta). Romance de estreia da Cláudia Clemente que se narra a 4 vozes que correspondem aos elementos e constroem um puzzle que atravessa a história de Portugal durante o regime salazarista e após. Lê-se como um policial em que o crime é a paixão (seja ela pelo cinema ou por seres humanos).

- Autobiografia de Thomas Bernhard (Sistema Solar). A Sistema Solar continua a tradição editorial da A&A na publicação T. Bernhard com a edição da biografia literária do ano.

- Uivo e Outros Poemas de Allen Ginsberg (Relógio d'Água). Deve ser complicado para os críticos falar do livro de poesia mais lido da história da literatura americana, imagino que o silêncio nas escolhas do ano se deva à dicotomia difícil de resolver entre um livro comercialmente bem sucedido e o facto de ser poesia. Não li esta tradução.

- A Sombra da Rota da Seda de Colin Thubron (Bertrand). Para rivalizar com o livro de Robert Byron. Talvez o melhor livro de viagens publicado este ano; o de Byron é já um clássico, este provavelmente virá a sê-lo. Não li esta tradução.

- Stoner de John Williams (Dom Quixote). Nunca imaginei ver este livro publicado entre nós. Parabéns a quem teve a coragem de o editar. John Williams, juntamente com Richard G. Sterne são aquilo que a crítica americana costuma designar por "writers' writers" ou seja, escritores para escritores. Stoner é o melhor livro de Williams e um dos poucos romances modernos americanos dignos de nota.

- Os luminares de Eleanor Catton (Bertrand). Um calhamaço como já não sói. Um romance como já não sói. Vencedor do Booker há um ou dois anos atrás, o livro da canadiana nascida na Nova Zelândia (ou será que é o contrário?) é um objecto estranho na literatura moderna, um grande romance paisagem sobre um crime e a sua investigação numa pequena cidadezinha onde um aparente crime une todos os homens de poder de uma comunidade em formação no salão de um hotel e um estranho acabado de chegar se propõe a ouvir a história que cada um tem para contar. Grande livro, em todos os sentidos. Não li esta tradução.

- Sobre a violência de Hannah Arendt (Relógio d'Água). H.Arendt é provavelmente uma das vozes mais importantes do século XX. magnífico é que vão aparecendo livros seus, revelando espantosamente a sua actualidade (e não estou a falar de situações concretas,a violência de que fala a autora e tudo o que aborda é sempre supra histórico ainda que baseado na vivência que teve de momentos de viragem na história do século XX).

- Contos Reunidos de Aldous Huxley (Antígona). Huxley tem vindo a ser posto um pouco de lado sem qualquer justificação. A Antígona está, felizmente, a salvá-lo do oblívio. Não li esta tradução.

- O Demónio na Cidade Branca de Erik Larson  (Bertrand). Brilhante livro de história narrativa e investigação histórica que segue o caso verdadeiro de uma perseguição a um serial-killer em pleno auge do nazismo. Lê-se como um romance apesar da riqueza de pormenores e informações. Não li esta tradução.

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Por último apenas uma nota: ouvi a notícia no começo do ano que seria apresentada uma tradução do notável "Anatomia da Melâncolia" de Demócrito, o Novo (pseudónimo do monge Robert Burton). Cairam-me os queixos. É um dos meus clássicos de eleição mas, bolas! tem quase 1000 páginas. Eis portanto a minha surpresa quando vejo uma edição que mal chega às 200 páginas publicada pela Quetzal.

Creio que já o disse em tempos mas não gosto de versões condensadas. esta edição pretende ser uma espécie de best-of, uma antologia dos melhores momentos mas isso não se pode fazer a um livro que flui como um todo (muito menos a um livro que não está disponível na sua completude no nosso mercado). Gaste-se dinheiro noutra qualquer edição e não se façam crimes destes.

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A destruição do sentido

0 comentários quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Para a Dóris Graça-Dias com quem me fartei 
de falar sobre este tipo de coisas


Há uns anos atrás escrevi um texto num blogue em que criticava a formação e a má preparação da "maior parte" de uma nova geração de tradutores. As respostas que se seguiram deixaram-me perplexo: para além de provirem da "menor parte" dos referidos tradutores, provavam que estes não tinham lido e interpretado o que eu tinha escrito. Ora eu sou editor e não escritor pelo que sei do valor (ou melhor da falta dele) da minha escrita; mas isso não quer dizer que eu não tivesse sido explícito no que tinha escrito e claro relativamente a quem tinha como assunto.

Isso levou-me a ter cedo uma consciência clara da incapacidade de interpretação das palavras que grassa nos nossos tempos. Essa mesma incapacidade interpretativa tem sido sobejamente mencionada, ano após ano, nos relatórios sobre o aproveitamento escolar e a qualidade de ensino mas não é, de forma alguma, exclusiva das novas gerações e isso perturbava-me pois não percebia bem a origem do fenómeno.

Recentemente li um livro que me foi recomendado por um amigo, livro no qual eu nunca teria tropeçado e, mesmo que o tivesse feito, dificilmente o teria lido (obrigado Robert, portanto). trata-se de um pequeno ensaio publicado exclusivamente em formato digital The distruction of Meaning de Simon Hardy. Nele, o autor aborda de uma forma eminentemente política a perda do sentido das palavras e, inerentemente, a sua perda de valor.

Não é que o livro seja de forma alguma deslumbrantemente elucidativo mas foi a chave para poder ligar algumas noções e pensamentos dispersos, algumas hipóteses e teorias para a compreensão deste fenómeno que está a por em causa o próprio tecido social.

A visão de conjunto que o problema arrasta é, assim, transversal: a palavra, ao longo do século XX, perdeu o seu valor. Os motivos são muitos: Hardy aponta alguns, Nelson Rodrigues na sua crónica sobre a "ascensão do idiota" apontava outros, Natalie Sarraute, no seu curto e essencial ensaio (que já referi uns milhares de vezes) "A Era da Suspeita", toca em mais alguns.

De uma forma ou de outra acabamos num problema central e simples que é válido para a palavra como para uma série de outras coisas na vida: nem todos temos talento para a palavra. Da mesma forma como poucos têm talento para o futebol ou para serem canalizadores. O facto, contudo, é que a modernidade (e a pós-modernidade que, salvo no que toca a arquitectura, são a mesma coisa) e as mudanças socio-políticas de finais do século XIX e de todo o século XX liberalizaram a utilização da palavra. Todos se julgam habilitados a utilizá-la conscientes ou não do seu poder e valor.

Em termos concretos e desde tempos antigos, Deus é a palavra e vice-versa. Acredite-se ou não. esta forma de ver implica a importância dada ao verbo pelas comunidades e sociedades desde sempre.

Em sociedades em que poucos tinham a "palavra de lei" (não estou, obviamente a falar da comunicação do dia a dia, estou a falar da palavra como forma de poder: o poder de dar ordens, o poder de reformar, de legislar, etc) a palavra tinha valor. Quem detivesse a palavra e a quebrasse perdia a honra e perder a honra quase sempre significava perder o seu lugar social.

Se pensarmos que a modernidade afasta o fulcro de importância da palavra para a sensação percebemos onde tudo isto nos vai levar. Entramos na era da suspeita e a palavra, outrora garante de honra e compromisso, não é passível de ser confiável. Simon Hardy chega a este ponto através da política e das organizações mas o problema entra nas nossas vidas por todos os lados.

Com efeito, em sociedades em que a maioria das pessoas usa regularmente ao longo da sua vida raramente mais de 300 a 500 vocábulos, porque não é dotada para a palavra (volto a dizer: como nem todos são dotados para o futebol ou para serem padres - não é qualquer tipo de depreciação, é uma constatação natural); mas em que essa maioria, por causa de todo um sistema socio-político que defende o "novo indivíduo", defende a limitação da riqueza vocabular (veja-se o politicamente correcto norte-americano, entretanto exportado, com mais ou menos consciência, para muitos outros países), atacando a ambiguidade e a polivalência de sentidos como se o mal estivesse aí, quando o mal está na destruição de sentido.

Este é um mal social e é tão mais evidente se considerarmos que há dois tipos de países/sociedades, onde se combate ainda esta situação: os países com melhores níveis de ensino generalista e cultural geral per capita; e os regimes tirânicos/ditatoriais. As duas faces da moeda.

Se exceptuarmos os dois extremos apontados, a maior parte do que sobra são países onde os políticos e as organizações (de uma forma geral todos quantos estão em cargos de responsabilidade com poder sobre outros) usam a palavra sem qualquer sentido de honra e/ou compromisso e as populações aceitam isso com uma leve revolta que tende a esmorecer perante uma atitude de aceitação, uma vez que também quem não está no poder todos os dias vai despindo a palavra de valor.

Estamos muito longe das "artes da mentira" de Twain ou Wilde que, apesar de tudo, valorizavam a palavra uma vez que defendiam a sua utilização mesmo quando desprovida de sentido ou subvertendo-o. Estamos na era da banalização da palavra mas, como aconteceu no começo da modernidade relativamente ao edifício literário, ainda não temos um novo edifício para substituir o que queremos demolir. E destruir o edifício da palavra é querer destruir o alicerce sobre o qual erigimos durante milénios a nossa sociedade. Não pode ser feito levianamente.

A destruição da comunicação pode levar à ruptura do tecido social e à aproximação de uma nova barbárie.

E o que aconteceu, no meio disto tudo, aos que detinham e detêm o talento para a palavra? Para além de terem sido atropelados pelo estouro, começaram a perceber - porque são os únicos que têm memória (lembremos que a função primária da palavra e da linguagem é definir as fronteiras do nosso mundo relativamente ao presente mas também ao passado) - que foram eles os culpados de toda a situação. A tendência para todo aquele que percebe que tem poder para mudar o mundo e que uma acção sua pode destruí-lo é, na maior parte das vezes, a inércia. Porque o futuro é sempre incerto e os resultados das últimas acções bem-intencionadas (socialismos e demais) resultaram "nisto tudo".

Será que o melhor é não agir, esta é, para muitos, a questão. Para outros a questão centra-se em saber se ainda é possível agir pois com a desvalorização do sentido da palavra, o seu poder para mudar a sociedade perde-se.

Se acham que tudo isto é muito abstracto, vejam os exemplos do dia-a-dia dados por Simon Hardy e comecem a olhar à vossa volta.

A perda do valor da palavra é a perda do sentido e a perda do contexto, não é mais possível interpretar porque a linguagem passa a ser directa mas ao sê-lo perde poder pela banalização. É à palavra que estavam, afinal, associados os valores humanos fundamentais: respeito, honra, dever, integridade, humor...

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Livros do Ano 2013

0 comentários segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Nos últimos anos tenho vindo a fazer grandes selecções de livros do ano. É-me difícil restringir os melhores a 10 ou 15 (ou 5 ou 3). Este ano, contudo, foi mais fácil. Li muito poucas novidades e andei pouco atento ao que se publicava por aí. Aproveitei para ler imensa coisa que tinha comprado nos últimos anos e que estava parada nas estantes.

Cá vai portanto a minha selecção dos livros do ano. Como sempre, estão incluídos apenas livros que li na edição portuguesa mencionada ou que conheço de ler noutras línguas. A ordem não tem qualquer relevância.

Afonso Cruz
Para Onde Vão os Guarda-Chuvas
Alfaguara

O Afonso Cruz não falha e mantém-se nas minhas escolhas anuais.


Fernando Esteves Pinto
O Carteiro de Fernando Pessoa
Parsifal

Já o tinha publicitado por aí. Um dos meus livros do ano sem qualquer dúvida. O fernando consegue sair do seu registo sem sair do seu espaço e entra na cabeça dos moradores da Rua Coelho da Rocha para uma intriga de desejos e crimes que explica mais de Pessoa que muito ensaio por aí publicado.


Raúl Brandão
A Pedra ainda Espera Dar Flor - Dispersos
Quetzal

Foi o primeiro livro que vi publicado neste ano. A primeira notícia de novidade e na altura disse logo que estava encontrado um dos livros do ano. Não voltei atrás mas eu sou de desconfiar no que toca ao R. Brandão. Quando não me param eu tenho um tendência para dizer que é provavelmente o maior autor europeu do seu período e provavelmente da literatura mundial.


Anthony Burgess
Laranja Mecânica
Alfaguara

Ainda estava eu na Babel e tentei agarrar por tudo os direitos deste livro para publicar na Ulisseia. A batalha foi feroz mas não consegui agarrá-lo e aqui está ele na Alfaguara. (não me pronuncio sobre a tradução que não li a mesma.)


Charles Bukowski
Histórias da Loucura Normal
Alfaguara

Também na Ulisseia comecei a publicar Bukowski mas infelizmente não houve meios para manter o autor na editora para grande pena minha. (também aqui não li a tradução.)


Leopoldo Brizuela
Numa Mesma Noite
Alfaguara

Grande livro. Li-o quando saiu em edição de língua espanhola.


Marc Chagall
Antigo Testamento
Relógio d'Água

Goste-se ou não de Chagall, o Antigo testamento é um dos livros da minha vida e o casamento resulta.


Alice Munro
Amada Vida
Relógio d'Água

Podia ter sido um qualquer dos livros da Alice Munro mas foi este porque encontrei há uns anos num banco do Aeroporto de Frankfurt a edição inglesa abandonada.


Jean Luc Fromental, Joelle Jolivet  
365 Pinguins
Orfeu Negro

Irresistível!


Alejo Carpentier
Concerto Barroco
Antígona

Outro dos meus fétiches. Tentei apanhá-lo ainda nos tempos da Cavalo de Ferro mas foi publicado numa chancela creio que da Saída de Emergência. Espero que a Antígona continue a publicação de Carpentier.


Jonathan Swift
Singela Proposta e Outros Textos Satíricos
Antígona

Irresistível II.


Andrei Platónov
Djan ou a Alma
Antígona

Um dos grandes nomes esquecidos da literatura mundial.


Sándor márai
A irmã
Dom Quixote

Há algum livro do márai que não seja bom? (também aqui não conheço a tradução, noutra língua)


Gao Xingjian
Uma Cana de Pesca para o Meu Avô
Dom Quixote

Por vezes é essencial percebermos o nosso lugar no mundo relativamente a tudo mas em especial no que toca à nossa mundivisão. Este é um daqueles livros que colocam frente a frente o universal e o particular de forma única.


Edmund Burke
Uma Investigação Filosófica acerca da Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo
Edições 70

Para a biblioteca dos textos fundamentais. Li-o na faculdade nos tempos em que voguei sobre os radicais portanto não conheço a tradução.


Ana Teresa Pereira
As Longas Tardes de Chuva em Nova Orleães
Relógio d'Água

Cada livro da Ana teresa Pereira é um magnífico deja vu. Haverá alguém na literatura universal capaz de cativar tanto a cada dose do mesmo?


Oliver Sacks
Enxaqueca
Relógio d'Água

Fiquei (e estou que sou preguiçoso e não me informei) na incerteza de saber se esta edição é a primeira ou uma reimpressão. (li em inglês e é outro dos meus fétiches)


Marcel Ruijters
Inferno
Mmmnnnrrrg

Se desta lista eu tivesse de escolher um livro para levar comigo para o além, este seria o escolhido.


ADENDA (só porque o copiar&colar não funcionou)

Alberto Manguel
Dicionário de Lugares Imaginários
Tinta da China

O meu livro de viagens preferido de há muitos anos para cá /juntamente com um outro que não vou referir porque talvez o futuro mo deixe publicar).
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Os meus votos para hoje:

0 comentários domingo, 29 de setembro de 2013
Gostaria que, de uma vez por todas, os portugueses acordassem. Vamos votar nas eleições autárquicas, isso significa votar em quem gere o pedaço de país em que vivemos. E é esse pedaço de país que aqui está em causa.

Quem vai votar para dar recados políticos, quem vota para dar força ou quem vota contra, está a léguas de perceber o que é a democracia.

Está na hora de o português começar, de uma vez por todas a votar em quem faz um melhor trabalho. E se não sabe nada sobre o que fez o seu/a sua presidente de junta ou de câmara, não vote. Eu, pelo menos, não quero que alguém decida sobre quem vai mandar no pedaço de país onde vivo só porque sim ou porque não, ou pelo nome ou pela bandeira, ou pela fotografia medonha ou pelo cartaz idiota. Se, como a maior parte dos portugueses, quer lá saber o que fizeram ou andam a fazer as juntas e as câmaras municipais, NÃO VOTE. Pela minha saúde.

Garanto-lhe que estas eleições não vão mudar o rumo do país, não vão aliviar as suas dificuldades, a carga de impostos ou seja o que for. Nunca aconteceu antes, não vai ser agora.

E os radicais votadores contra o partido X ou a favor do partido Y, por favor abstenham-se. São geralmente quem mais grita pelos valores democráticos sem saber nada sobre tudo isto. Fiquem em casa que está mais quentinho e confortável e distribuam frases lapidares via Facebook que o mundo inteiro pode ler-vos - até a CIA! - e essas opiniões conhecedoras do todo e desconhecedoras da parte continuarão a ditar os destinos do país nas eleições que têm esse fim em vista. Mas mais uma vez provam que o sistema nunca há-de mudar pois quem ignora o que se passa no seu pedaço de país, ignora o trabalho concreto e fácil de constatar de quem, perto de si, trabalha bem ou mal, apoiando esse sistema cego em que quem chega lá acima nunca passou pelo trabalho concreto junto das populações.

Eu, por exemplo apoiaria certamente o meu ex-presidente da junta que infelizmente não pode continuar a candidatar-se, a correr pela câmara e se estivéssemos num estado democrático de pessoas informadas e interessadas, as gentes do meu município teriam trocado informações entre si e saberiam que o presidente da junta X ou Y fez um excelente trabalho votariam nele na corrida a uma câmara. E talvez daqui a uns anos a um cargo superior. Mas como estamos no país das maravilhas, o meu futuro ex-presidente de junta, provavelmente vai afastar-se ou irá para outra junta. E quem manda nisto tudo continuará a ser um idiota que nunca fez nada por ninguém salvo por si mesmo, mas tem muitos amigos e fez muitos favores e fará muitos mais.
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Caro Octávio

2 comentários sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Achei por bem escrever-lhe em resposta aos comentários colocados na última entrada deste meu blogue. Neles, dizia-me o Octávio que uma parte da quebra das vendas de livros era devida à implementação do AO.

Como lhe disse, acredito que seja possível mas será sempre uma franja minúscula e infinitamente diminuta da população.

Não entenda que estou de acordo com o AO mas quero dar-lhe, ao acordo entenda-se, a importância devida. O referido AO é uma trapalhada linguística criada devido a interesses económicos muito claros mas mal pensados, cujos argumentos de defesa falham à partida. Não preciso de referir que um brasileiro como um português deixam de perceber o sentido de um vocábulo por este ter mais um "c" ou menos um "c" mas já vejo a complicação de um brasileiro perceber o que é um par de peúgas ou um português que não veja telenovelas, um cafuné. E não falo sequer da organização sintática das frases.

Dito isto incomoda-me a franja de resistentes ao AO. Incomoda-me que não comprem livros só por causa do AO. Isso significa que realmente não têm a paixão pelo livro. Eu li muitos livros em português do brasil quando os mesmos não estavam disponíveis em português de Portugal.

Mas também isso é um inómodo com que posso bem e, sinceramente, tem pouco peso. Há coisas que me incomodam muito mais.

Incomoda-me muito mais que os nossos jovens cheguem ao ensino universitário conhecendo e usando não mais de 500 vocábulos.

Incomoda-me a correcção política da linguagem que a esteriliza e leva a que gente com cabeça ande por aí a falar da maldita CÓ-icineração para não pronunciar "cu".

Incomoda-me sobremaneira que desde 1905 e dos primeiros censos, o número de leitores efectivos e regulares tenha diminuído.

Incomoda-me que em mais de um século as empresas de um sector constantemente em crise (o da edição) - já o diziam ao Camilo, em cartas, os seus editores - nunca se tenham efectivamente unido com campanhas continuadas e permanentes e abrangentes para conseguir novos leitores.

Incomoda-me um sistema de ensino que permite a formação de professores de português que não lêem e, como tal, não sabem incentivar a leitura (e aqui, para aqueles que gostam de ler mais do que o que escrevo, falo de uma maioria: se está indignado com o que leu, certamente não pertence a essa maioria).

Incomoda-me um sistema de ensino que permite que os jovens  cheguem ao nível universitário com essa limitação de vocabulário bem como de inteligência efectiva e os deixa terminar os cursos e lhes dá diplomas.

Incomoda-me que ninguém veja o que é escrito nos comentários aos jornais e em milhares de sites da internet. Será que ninguém percebeu que a maior parte de quem neles escreve ou comenta não sabe escrever? Será que ninguém percebe o quão gravíssimo isto é?

Incomoda-me o espartilhar da cultura que leva a que gente da "cultura" raramente perceba alguma coisa de economia.

Incomoda-me o horror aos números da mesma forma que o horror aos livros.

Incomoda-me que enquanto país não tenhamos tido a visão para nos defendermos estrategicamente na nossa posição pequena e periférica como o fizeram, com muito menos meios e muito mais reduzidas bases, os países escandinavos (facto que os conduziu à sua actual posição económico-social).

Incomoda-me perceber que não incomoda ninguém que os políticos, nas muitas escutas que vão sendi divulgadas ou nos acesos debates sobre "nada" que ocorrem amiúde no parlamento usem de vulgaridade e de linguagem baixa que se percebe ser a corrente no seu dia a dia.

Incomoda-me que a comunicação social não exerça a sua obrigação educativa. Com efeito para além das notícias mal-escritas, da qualidade pavorosa do registo de escrita e do registo oral, da inominável agramaticalidade dos textos escritos para a imprensa online. das regras vocabulares que ditam que os jornalistas não devem usar "palavras caras" que o povaréu não compreende.

Incomoda-me que não se perceba nem admita que a comunicação social, pela sua presença constante, nem que por efeito de contágio, tenha esta obrigação social, independentemente se é privada ou pública. É que, não o assumindo, corre o risco de se destruir a si própria em pouco tempo, atropelada por imprensa cada vez mais superficial estereotipada e inócua.

In comoda-me que não se aceite que o desafio é o melhor caminho para a aprendizagem.

(Certamente muitos deles já formados pelo sistema de ensino que tudo admite e tudo premeia.)

Incomoda-me essa falta de vergonha e sentido moral que é tranversal e que advém da pobreza cultural do país.

Incomoda-me a elite cultural que fecha os olhos a isto e se preocupa com tricas.

E sabe porque me incomoda tudo isto muito mais?

Porque se esses problemas tivessem sido resolvidos, o AO nunca teria sequer passado de uma ideia peregrina numa mente perturbada.

p.s. Não leia, por favor, Octávio, algum tipo de crítica pessoal. Não o conheço a esse ponto nem sei a sua posição em muitos destes pontos. Insurjo-me contra uma situação actual que só pode ser resolvida de uma única maneira: uma revolução educativa e cultural que, contudo, é a solução mais distante e impraticável aos olhos de quem comodamente se instalou no poder nas últimas largas dezenas de anos.


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Pontos de situações

3 comentários sábado, 10 de agosto de 2013
Não tenho escrito neste blogue, aliás não tenho escrito muito. Creio que já escrevi antes que não tenho a capacidade da escrita regular que é característica dos bons escritores de blogues.

Deixo-me afectar pelos tempos e pelas situações. E os tempos que correm não ajudam nada. Aquilo que sei do que se passa no meio onde sempre quis e gostaria de voltar a trabalhar assusta-me. Os números de vendas de livros são horrorosamente baixos.

Se antes os portugueses muito poucos livros compravam (não falo já do "liam"), neste momento não consigo perceber sequer como é que 80% das editoras se mantém. Devem estar em boa parte a endividar-se mais ainda para lá do que já estavam endividadas.

Neste blogue, escrevi há já algum tempo sobre o fim da edição em Portugal e temo que não me tenha enganado em quase nada. Não gosto nem quero ser profeta. Como muitos acredito que ainda hei-de voltar a trabalhar (no meu caso nesta área).

Assim e mais uma vez, desculpem a brevidade e a falta de boas notícias.
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Palhaçadas

0 comentários quinta-feira, 30 de maio de 2013
Acima de tudo porquê palhaço? Não é intenção dele fazer-nos rir (infelizmente). Ele está a ser sério mas tem efeitos cómicos. Uma pessoa culta como o MST deveria empregar termos mais precisos. Dizer que temos um Presidente ridículo é o termo mais correcto - até etimologicamente - "aquele que provoca o riso" mas que não o faz intencionalmente. Risível também serviria.

A outra grande questão é a do respeito pela posição. Quando há uns anos se debatia a questão do aborto eu tive de votar contra apesar de estar de acordo com a legalização. Aquilo que me fez tomar essa decisão é o conhecimento da falta de valores morais da nossa sociedade. Fiquei dividido entre a possibilidade de fazer um aborto - que me parecia correcta - e o facto de saber que esta possibilidade iria ser usada como meio anticoncepcional por uma sociedade inculta e desprovida de ética e moral. Como considero que a ética e a moral (não religiosa) são o cimento da sociedade, votei contra. Da mesma forma agora acho que o respeito - mesmo por quem não se dá a ele - é um valor essencial. Se abrimos precedentes para poder insultar seja quem for (apesar de "palhaço" mal entrar na minha lista de insultos leves), essa é a mensagem que transmitimos a uma sociedade que já não respeita nada. E o meu problema não está, obviamente, com a maior parte das pessoas que discutem a correcção do insulto, que se insurgem contra a sua utilização ou que a aprovam, está com os outros que tudo bebem sem degustar.

Por último, sim é verdade que Aníbal Cavaco Silva, a pessoa, tem revelado uma inépcia total no desempenho da presidência. Algumas frases e posições ditas e assumidas fazem-me recordar uma fase da vida do dr. Mário Soares há uns anos quando foi convidado pela SIC para apresentar uma série de grandes entrevistas com personalidades internacionais que marcaram o século XX (creio que Kissinger e outros), programas esses que acabaram cancelados ao fim de poucas emissões devido à alguma confusão que a idade trouxe ao dr. Mário Soares. Felizmente passado algum tempo (e certamente com mudança de medicação) a coisa passou. É verdade clara que Cavaco Silva não tem sido (na minha opinião nunca seria) o Presidente de que o país necessita nestes tempos de crise mas foi eleito democraticamente e desrespeitá-lo é desrespeitar a democracia. O que de todo nunca deverá impedir que nós, que temos consciência da inadequação, nos questionemos sobre o país e os nossos concidadãos e que percebamos, de uma vez por todas, que só uma revolução no sistema de educação e uma população culta pode tomar decisões mais conscientes e informadas. Que uma tal sociedade, acima de tudo, tem poder de análise para não insistir no erro.

Nota de rodapé:
Deve questionar-se a democracia, como se deve questionar o governo, um partido, um sistema, um presidente, quando se está pronto a apresentar uma alternativa. Confesso-me particularmente irritado com este nosso feitiozinho comodista latino de berrar do sofá insultos ao vento. Este país vive numa democracia (imperfeita dirão alguns com razão ou razões), assumamos isso e deixemos de ser uma população monárquica. Se estamos contra assumamos um papel activo politicamente. E sobretudo não sejamos apenas contra. Que a oposição seja alternativa, acima de tudo, que apresente soluções. Não podemos ser todos democraticamente críticos para a destruição e nunca apresentarmos a alternativa construtiva.
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Comunidades de Leitores

0 comentários quinta-feira, 9 de maio de 2013
Sabe o que são comunidades de leitores? Como funcionam, onde se reúnem, quais os prazeres e vantagens de ler em comunidade?

Durante a próxima Feira do Livro de Lisboa vou estar com a Sofia Ramos a conversar com os organizadores e vários membros das comunidades de leitores da área da Grande Lisboa.

Cada comunidade tem uma orgânica própria. Há as que são mais tradicionais, as que organizam passeios, as que só lêem clássicos, as que abordam autores portugueses, as que juntam os seus membros em jantares temáticos, as que convidam os autores, as que funcionam apenas para crianças incentivando hábitos de leitura e
muitas, muitas outras... 

Hoje em dia há largas dezenas de comunidades, grupos e clubes de leitores um pouco por todo o país, funcionando em Livrarias, Bibliotecas e noutros espaços. Venha conhecê-las.

A inscrição não é obrigatória. Pode aparecer sem avisar mas se se inscrever (através da página abaixo) terá desconto adicional ao desconto de feira na editora cujo livro for abordado naquele dia pela comunidade convidada.

Há mais dados e um programa com datas, livros e indicação das comunidades em causa nesta página do Facebook.

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Mais uma razão para a crise

0 comentários segunda-feira, 15 de abril de 2013
Tem sido ignorada como razão para a crise mas é uma realidade presente e confrangedora. Já todos nos cruzamos com ela nas empresas em que trabalhamos, nas instituições às quais recorremos, nos discursos e obra dos políticos.

Da mesma forma como há uma monumental ignorância da História e portanto cometer os mesmos erros não parece chocar ninguém, da mesma forma, dizia, há uma total ausência de planificação estratégica a médio ou longo prazo.

Uma empresa criada agora projecta-se no futuro pensando na sua estratégia e opções a 2 anos no máximo. Falando com algum gestor e perguntando-lhe "e como vai ser dentro de 10 anos?" a resposta não deverá fugir aos lugares comuns de sempre: "quando lá chegarmos veremos" ou "hoje em dia não é possível pensar a essa distância".

Da mesma forma as empresas e os governos, os líderes das instituições pensam as suas políticas contratuais em termos de meses ou poucos anos no máximo.

E o problema de tudo isto é não se ter ainda chegado a uma decisão: queremos empresas, instituições e políticas descartáveis? Empresas, instituições e políticas com prazo de validade cujo fim é marcado pelo recomeço ou pelo simples abandono.

No entender dos novos modelos de gestão dá muito trabalho readaptar um modelo de negócio, actualizá-lo, da mesma forma uma política. Assim é mais fácil, prático e económico fechar, terminar, concluir, quando for necessário repensar, refundar, adaptar.

E no entanto, o paradoxo é que as empresas, instituições e políticas têm como aparente objectivo "manterem-se cá" por bastante tempo.

O que acontece é simples: se um modelo se esgota, faz-se uma renovação total. E como não há memória histórica e porque toda a experiência ganha anteriormente é considerada não-válida, repetem-se erros e multiplicam-se custos. E como quem foi contratado está - e sabe-o - a prazo - planifica a coisa tendo por objectivo resultados rápidos sem se preocupar com a próxima mutação.

Claro que esta forma de funcionamento traz alguns problemas centrais: impossibilidade de fidelização de públicos, quase total impossibilidade de inovação estruturada ou políticas de crescimento continuado.

As evoluções no mundo digital têm vindo a ofuscar um pouco a nossa mundivisão. Olhando bem à nossa volta verificamos que fazem falta as grandes inovações que arrancam a humanidade dos seus momentos de crise. As inovações que realmente mudam os paradigmas e o mundo em que vivemos, aquelas que afectam de forma radical a nossa forma de vida.

Esta falta de projecção para o futuro, de inexistência da inovação dentro dos paradigmas actuais, faz-nos correr o risco sério de uma estagnação de modelos, e a economia percebe isso antes das pessoas porque vem da forma como o mundo inconscientemente pressente o futuro. 

Tive recentemente oportunidade de falar com alguns gestores que diziam ter traçado estratégias de crescimento a médio e longo prazo para as suas empresas e deparei-me com estratégias do tipo que pode ser generalizado da seguinte maneira:

"Criamos este modelo de negócio com objectivos a 2 anos. Se os objectivos forem cumpridos mantemo-nos nessa linha. caso não sejam cumpridos montaremos outro modelo [não identificado ou definido] com objectivos a 2 ou 3 anos..." E por aí adiante.
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Os ciclos da História, A Ficção-Científica, O Chipre e os Dias do Fim

0 comentários quarta-feira, 20 de março de 2013
Para quem não perceba a referência de imediato, esta é a máquina, a grande máquina que alimenta Metropolis. O filme é uma distopia assente num fundo de ficção científica mas sobretudo de uma ficção social que ameaçava o futuro de uma Alemanha e que levou à segunda guerra mundial.

A proximidade da realidade histórica com esta realidade ficcional é muito maior do que a generalidade de nós consegue hoje ver.

Anos mais tarde, no final das décadas de 60, na década de 70 e em começos da década de 80, a ficção científica, quer na literatura quer no cinema, evidenciou uma severa preocupação sobre o modo a Humanidade estava a evoluir.

Anos de desleixo e putrefacção do sistema político e social levaram a que os governantes tenham começado a violar as bases do contrato social de que o Chipre é exemplo mas também os ataques às reformas e pensões.

[Um parêntesis recto para deixar muito claro, pela enésima vez, que não sou de esquerda nem de direita. Sou e sempre fui pelas ideias que resolvem problemas e pelos Homens que as pensam.]

Esta é uma revolução silenciosa. Não é o povo que se revolta. Fomos treinados para aguentar e obedecer. A revolução está-nos a ser imposta por quem nos governa.

Na ficção científica aquilo que levou à maior parte das sociedades distópicas foi a criação de uma sociedade harmónica baseada no hedonismo. A proliferação não natural da espécie. O crescimento desmesurado da espécie num mundo incapaz de suportar uma tal realidade. Assim nalguns livros e filmes as sociedades matavam os seus velhos e enfermos (ou pura e simplesmente os que ultrapassassem os 30 ou 40 anos), noutras os alimentos frescos eram reservados para as elites e os restantes consumiam uma matéria verde-feijão que por acaso advinha do tratamento da matéria morta retirada de cadáveres humanos. Noutros eram criadas guerras artificiais para controlar a população... Os exemplos são múltiplos e variados.

Em todos esses filmes e livros há um enorme fosso entre classes. Os que vivem bem acima e os que os amparam nos ombros com o seu trabalho, suor e sangue.

Em todos esses livros e filmes às classes exploradas é negado o acesso ao conhecimento histórico para que a comparação da sua realidade com outras não seja possível. Para essas classes exploradas, o acesso à cultura e conhecimento é substituído pela fé (uma fé desligada da realidade e inútil), pela disciplina e pela austeridade.

E as revoluções que possam nascer da ignorância e do desconhecimento histórico não são verdadeiras revoluções. São mera substituição de posições. mera troca de poderes. Um mero atraso na contínua corrupção dos sistemas.

Em todos esses filmes e livros, a generalidade dos governantes e dos processos que levam às situações extremas são bem intencionados no começo mas acabam por se tornar protectivos das classes dominantes. isto não são doutrinas de esquerda nem interpretações marxistas. O Poder é algo viciante, isolador e que pressupõe uma insatisfação constante na sua demanda (Tolkien já o tinha exemplificado).

Todas essas sociedades, enveredando por diversos caminhos, chegaram a resultados semelhantes.

Também nós para lá caminhamos. A passos muito largos. 

E a grande evidência é que todos sabemos que quem governa não nos pode salvar desse abismo. Não que a solução não seja política, a solução passa sempre pela polis e pela sociedade. O modelo é que não serve, o modelo é que se esgotou, os políticos é que o perverteram. O erro é sempre humano.

Mas são uma boa parte dos políticos instalados que impedirão a mudança de modelo. Por vezes não por má intenção, repito, mas porque não concebem outra realidade senão aquela na qual se instalaram e que lhes é confortável (e isto vale para esquerdas e direitas). E vale para sistemas bancários e económicos e para os modelos sociais.

Daí que devêssemos todos estar bem atentos à revolução que se está a dar. São os dias do fim do modelo vigente. Segue-se-lhes a revolução da substituição de poderes. mas estes dias do fim serão, como são sempre, dolorosos e terríveis. Mais uma vez, como tantas ao longo da sua história, a Humanidade sofrerá por sua causa. Os culpados somos todos nós.

O paradoxo nunca poderá ser evitado: todos devem ter acesso à História e à cultura em geral. Mas terão sempre de existir alguns capazes de uma visão de conjunto. aqueles que conseguem perceber a sociedade e os seus mecanismos. E esses deveram sempre governar mas, com o passar do tempo, acabarão sempre substituídos pelas escolhas do povo que não tem a visão de conjunto mas que, num sistema democrático é quem mais ordena, sem cultura e sem conhecimento histórico.


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Ban Joe?

0 comentários segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

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Status Quoi?

1 comentários terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Pude confirmar hoje - já tinha ouvido - que, de acordo com dados da GFK, durante a minha estada na Babel fui o editor com mais vendas efectivas e portanto o que mais dinheiro deu à editora. Não estou contente pelo factor dinheiro nem nunca tive qualquer pretensão a concorrer com os meus colegas. Mas sinto-me verdadeiramente orgulhoso porque posso provar um ponto que defendo há muito tempo: com trabalho sério, a boa literatura também vende. E é de notar que se conseguiu esta situação numa altura em que a Babel não fazia qualquer tipo de comunicação ou marketing.

E na senda das boas notícias, soube que, apesar de continuar desempregado, estou entre os 5% de perfis mais vistos do Linkedin! 
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A crise artificial

0 comentários sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
No magnífico discurso do Dr. Marinho Pinto na abertura do ano judicial de 2013 (não estou a ser irónico, acho que é um discurso brilhante e importante), este falava da criação de uma crise artificial.

O Dr. Fernando Ulrich, com bem menos capacidades discursivas, anda a tentar dizer o mesmo (mas não consegue).

Quando se fala dessa criação de uma crise artificial não se está a dizer que a crise não existe. Apenas que os contornos que lhe são dados não são os verdadeiros. E isto é possível devido à ignorância do povo português e à sua parca vontade de se informar para lá dos discursos oficiais e suas cópias transmitidas pela maior parte da imprensa.

Em primeiro lugar (e último) é essencial compreender que não era o país que estava à beira da falência mas o Estado. É necessário entender que se o Estado falisse - e era bom que a acontecer, acontecesse connosco ainda dentro da zona Euro - os cidadãos e as empresas, tendo os seus bens acautelados, continuariam a viver.

Como num qualquer processo de insolvência, a comunidade internacional nomearia alguém para gerir o processo. Seria feito um levantamento - tão necessário - dos bens reais e efectivos do Estado, seria feito um apuramento sobre eventuais manobras ilícitas que pudessem ter conduzido à referida situação, e iniciava-se um processo de retorno aos credores do máximo de valor da dívida do Estado perante eles. Nessa altura seria recomendável que o povo, enquanto um todo se reunisse e se apresentasse como um único cliente para ganhar força perante outros credores.

Todos nós enquanto "accionistas" do Estado deveríamos lutar por reaver o máximo do que lá colocamos.

O que poderia acontecer de mais grave? Que algum outro Estado invocasse como forma de saldar a dívida do Estado português para com ele, uma passagem de soberania. Isto pode parecer assustador mas acredite o leitor que não incomodaria quase nada a maior parte do povo, pudesse este manter a sua língua e que as condições de vida se passassem a assemelhar à desse outro país. Com impostos mais baixos e leis e mecanismos públicos mais eficazes. Se ademais considerarmos o total desconhecimento do nosso passado histórico nas gerações mais novas (uma ou duas acima de mim até às dos meus vizinhos mais novos, a falta de orgulho no nosso país, nas suas instituições e conquistas, etc., perceberemos que pouca mossa faria.

Mais ainda se considerarmos que a situação a que se teria chegado derivava da má gestão dessa empresa chamada Estado, da forma como tem sido feita desde o 25 de Abril em que uma onda de Liberdade varreu os conceitos de autoridade, disciplina, responsabilidade e mérito para os substituir por coisas primárias. note-se que não defendo a tirania, apenas digo que, como boa parte das tiranias, era organizada, competente e funcional coisa que não aconteceu na gestão da coisa pública nos anos que se seguiram e em anos recentes se veio a exacerbar.

Concretamente é então necessário perceber onde está a falhar o contrato do Estado com os seus cidadãos. Não falo sequer do contrato social, falo do contrato simples de prestação de serviços. O Estado português é o maior responsável por processos de insolvência de empresas portuguesas devido aos atrasos nos pagamentos. É esse Estado que, ainda assim se sente capaz de criticar, multar e penalizar duramente quem para com ele não cumpre os ditos prazos de pagamento.

A situação apontada pelo Dr. Marinho Pinto relativamente aos tribunais arbitrais é uma situação que, no seu âmago, o menos atento dos portugueses já tem por adquirida, a incompetência e corrupção do Estado e os efeitos lesivos que agora os cidadãos sentem.

A cultura dos robalos e alheiras é uma coisa antiga portuguesa; a nossa incompetência governamental já na época dos romanos era descrita: "Há, nos confins da Ibéria, um povo que não se governa nem se deixa governar" (Júlio César); a presença desta corrupção e incompetência nada tem que ver com os modelos governativos ou com os sistemas. Acontecia na monarquia, acontece na república e na democracia. Tudo isto só é possível devido à falta de educação social e moral. Uma educação de valores e de mérito.

Queixem-se à vontade, estrebuchem o que entenderem, mas garanto-vos que num caso extremo como o acima descrito, uns milhões de portugueses dariam imensa importância ao facto de as suas equipas poderem ombrear nos campeonatos futebolísticos com os grandes do país que assumisse a soberania sobre este rectângulo à beira-mar plantado e ficariam somente preocupados em saber se faria sentido o Tony Carreira continuar a ser considerado o maior artista português.

Enquanto esta situação não for corrigida, podem continuar a dizer-nos que esta crise é assim e assado que a maior parte de nós engole e a outra não tem força para se fazer ouvir.
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Livros do Ano 2012 (VI)

0 comentários sábado, 29 de dezembro de 2012



1 - A cortina dos dias, de Alfredo Cunha (Porto)

Grande livro de fotografia sobre o princípio deste fim que agora vivemos.

2 - O Luxo Eterno - Da Idade do Sagrado ao Tempo das Marcas, de Gilles Lipovetsky e Elyette Roux (Edições 70)

Difícil, difícil é dizer bem sobre que trata este livro. é uma obra sobre coisas que nos fascinam e prendem, sobre as ideias que vemos nas coisas e nas marcas, sobre a essência. Um livro que fala sobre a satisfação de um desejo de requinte (créditos para a Ferrero).

3 - As elipses na água, de Javier Sotto y Castro (Bruma)

Há livros que estão condenados à obscuridade. Edição com tiragem limitadíssima, autor  sobre o qual não se encontra qualquer informação, editora (devidamente) obscura com um blogue que esteve online penso que nem um mês. Uma pequena obra-prima.

4 - Num lugar solitário, de Ana Teresa Pereira (Relógio d'Água)

Quando se diz que há autores que estão sempre a escrever o mesmo livro, Ana Teresa Pereira é precisamente assim. O resultado é que o livro é sempre bom. 

5 - Lisboa, uma cidade em tempo de guerra, de Margarida de Magalhães Ramalho (IN-CM)

Uma edição importante em que se cruza a história urbana com a história dos refugiados e dos passantes. Um documento impressionante.

5 - Persépolis, de Marjane Satrapi (Contraponto)

Finalmente em língua portuguesa. Continuo na dúvida se gosto mais do filme ou da BD...

6 - Paulo Guilherme, de Silva Designers (IN-CM)

Há uns anos valentes (mais de dez) estive no estúdio do Paulo Guilherme - filho do Olavo de Eça Leal (se não sabem quem foi, investiguem) - porque um editor com quem eu trabalhava queria fazer uma reedição do "Iratan e Iracema" de seu pai (que o Paulo Guilherme realizou em filme no final dos anos 80).
Foi uma das experiências que me marcaram. Este era um artista completo: arquitecto, designer, pintor, realizador, escritor, polemista, ensaísta e provavelmente um dos melhores conversadores com quem alguma vez privei.
Esta homenagem ao homem e ao artista é mais do que devida.

Bónus

1 - Contos escolhidos, de Isaac Babel (Relógio d'Água)

Se não o escrevi ainda, escrevo agora. Esta edição irrita-me imenso. O Isaac Babel é um dos melhores contistas russos mas com produção bastante contida. Publicar-se uma edição de contos escolhidos com quase 300 pp. quando os seus contos completos não ultrapassam em muito as 400 é uma frustração de edição. Ainda assim um grande livro na ausência do todo.

2 - Pessoa existe?, de Jerónimo Pizarro (Ática)

Talvez a provocação intelectual do ano.
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Livros do Ano 2012 (V)

0 comentários quinta-feira, 27 de dezembro de 2012


1 - O ilustre, de Clarice Lispector (Relógio d'Água)

Podia ser qualquer um, podiam ser todos os livros da Clarice... Foi este porque é dos que mais gostei.

2 - Uma Manhã Perdida, de Gabriela Adamasteanu (Dom Quixote)

Uma escritora ainda muito ignorada em Portugal. Este é o seu segundo melhor romance. Publicado no começo dos anos 80. (Não li esta tradução portuguesa)

3 - Mazagran, J. Rentes de Carvalho (Quetzal)

Só muito recentemente vim a descobrir Rentes de Carvalho. É muito bom poder ir descobrindo assim, coisas inesperadas. Mais um grande livro.

4 - A Sorte de Jim, de Kingsley Amis (Quetzal)

A obra-prima de Amis, uma tragicomédia que é em boa parte um retrato muito importante de uma realidade britânica de uma época de mudanças. O título original é "Lucky Jim" - Jim, o sortudo" ou coisa que o valha. Os editores e os tradutores têm medo que palavras dessas soem à província, o resultado é um título que pode transmitir uma carga diferente ao livro até pelas diversas utilizações da palavra "sorte". "Jim com sorte" poderia ter sido uma solução.

5 - Pulp, de Charles Bukowski (Alfaguara)
6 - Hollywood, de Charles Bukowski (Alfaguara)

Bukowski quase todo disponível em língua portuguesa com mais estas duas edições. "Pulp" é um dos grandes da literatura norte-americana e mundial.

7 - O futuro da ficção, de António-Pedro de Vasconcellos (Fundação Francisco Manuel dos Santos)

Estive hesitante em colocar este livro. A paginação é péssima. Encontrá-lo à venda foi um pesadelo. E o texto em si apesar de interessante deixa sempre um pouco uma impressão de incompleto. No entanto, como por vezes acontece, foi um livro que, devido a essa falta de completude, me obrigou a pensar em muitas coisas bastante interessantes. Acresce a isso a possibilidade de espreitarmos o mundo de A-P de Vasconcellos por mera curiosidade.
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Livros do Ano 2012 (IV)

0 comentários sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

1 - Um Império de Papel - Imagens do Colonialismo Português na Imprensa Periódica Ilustrada (1875-1940), de Leonor Pires Martins (Edições 70)

Um álbum interessantíssimo que traça num quase foto-jornalismo uma sociedade em transição. É sem dúvida um documento essencial da nossa história.

2 - Desenhar o vento - A última viagem do Capitão Salgari, de Ernesto Ferrero (Teodolito)

Para quem cresceu com Salgari (eu estive mais próximo do Jules Verne mas ainda assim), um romance biográfico sobre um homem que deu mais mundo aos homens.

3 - Portugueses no holocausto, de Esther Mucznik (Esfera dos Livros)

Outro documento importante cobrindo uma parte da história nossa que desconhecemos.

4 - Dentro do segredo, de José Luís Peixoto (Quetzal)

Magnífico livro de viagens.sobre um mundo que não se dá ao mundo.

5 - Uma Obra Enternecedora de Assombroso Génio, de Dave Eggers (Quetzal) 

Finalista do Pulitzer, o romance de Eggers é um assombroso estudo sobre os lugares e papéis sociais e familiares, sobre quando temos de assumir papéis que nunca imaginámos vir a ter de assumir, sobre o nosso papel na sociedade e na pequena sociedade que é a família. Daí a importância de um livro nos tempos que correm em que a nossa leviandade social é aterradora.

6 - 1089 e Tudo o Resto - Uma Viagem Pela Matemática, de David Acheson (Relógio d'Água)

De vez em quando gosto de me embrulhar num desafio destes, acho que faz muita falta à cabeça das gentes de letras. Obriga-nos a arrumar a casa aqui de cima e nós por natureza gostamos de um caos culto.

7 - A Palavra do Mudo, de Julio Ramon Ribeyro (Ahab)

Já tinha destacado em escolhas de anos anteriores. J. R. R. é um dos melhores contistas de todos os tempos, provavelmente ali no top 10. Grande livro, venha o segundo volume.
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Livros do Ano 2012 (III)

0 comentários quarta-feira, 19 de dezembro de 2012


Continuo a divulgar a minha lista. Valem as notas deixadas nas entradas anteriores.

1 - Contos completos, de Lydia Davis (Relógio d'Água)

Comecei a publicar a Lydia Davis na Ulisseia  com o «Break it down - demolição». Conheci a autora por culpa do José Luís Peixoto que ma tinha recomendado há uns anos valentes. É sem dúvida nenhuma uma das melhores contistas contemporâneas de língua inglesa.

2 - A Mulher Que Tentou Matar o Bebé da Vizinha, de Liudmila Petruchévskaia (Relógio d'Água)  

Um dos melhores livros de contos do ano publicados em Portugal. Antologia de anos de escrita em torno de temas e realidades tabu de uma União Soviética. Forte, muito forte. Muito bom. (engraçado nessa força o paralelo com alguns contos da Lydia Davis)

3 - Arturo, de Davide Cali e Ninamasina (Bruaá)

Que dizer... Olha-se, folheia-se e percebe-se o porquê da escolha, acho eu.

4 - Rómulo de Carvalho/António Gedeão - Príncipe Perfeito, de Cristina Carvalho (Estampa)

A Cristina Carvalho, filha do Rómulo de Carvalho e também ela escritora, dá-nos o retrato muito pessoal de uma das figuras mais marcantes do século XX português.

5 - A forca, de Joe Abercrombie (Asa)

Esta escolha é para os fanáticos da fantasia. Não li a tradução do segundo volume da trilogia do Joe Abercrombie (aliás li-os todos em inglês). Abercrombie é o melhor escritor actual de fantasia - na minha opinião - e os seus livros apresentam um mundo onde se cruzam as principais correntes da fantasia próximas dos estereótipos clássicos. Aliado a tudo isso uma mestria nos diálogos à altura de George R. R. Martin e um sentido de humor britânico e muito muito negro que não deixam o leitor deixar de rir às gargalhadas nos mais terríveis momentos de acção.

6 - A química das lágrimas, de Peter Carey (Gradiva)

Peter Carey é um dos meus autores de eleição e ainda está para vir um livro seu que não me prenda. Mais uma vez aqui, Carey joga com a ficção, a história e a escrita como poucos.

7 - Conde Ferreira & C.ª - Traficantes de escravos, de José Capela (Afrontamento)

Imagino que a origem deste livro tenha sido uma tese mas quer a temática quer o tratamento são extremamente interessantes e servem para deixarmos de lado muito do nosso passado cor-de-rosa pintado por anos de ancient régime.
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Livros do Ano 2012 (II)

0 comentários sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Aqui seguem mais sete dos meus livros do ano. Mais uma vez, sem que a numeração implique qualquer tipo de valoração.

1 - A Polaquinha, de Dalton Trevisan (Relógio d'Água)

Ainda estive para colocar o «Vampiro de Curitiba» mas adoro romances construídos de contos. este é um deles daquele que é provavelmente um dos maiores contistas do século XX em língua portuguesa.

2 - Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, de Pablo Neruda (Relógio d'Água)

Porque eu nunca consigo evitar Neruda.

3 - Kafkiana, de Agustina Bessa-Luís (Guimarães)

Reconhecendo-lhe o valor, não sou grande fã de Agustina. mas sou-o de Kafka e aqui o casamento é quase perfeito.

4 - Necrópole, de Santiago Gamboa (Eucleia)

Um romance portentoso, ainda o estive para publicar na Ulisseia. A prova de que a literatura sul-americana tem outros espaços que não apenas o do realismo mágico. Este romance alegórico-metafórico é um desafio à compreensão do nosso mundo e da presença constante da morte. (Li no original.)

5 - Domar os Deuses - Religião e Democracia em Três Continentes, de Ian Buruma (Edições 70)

O fenómeno religioso e as suas relações com a política e sociedade. Um livro marcante.

6 - Jesus Cristo Bebia Cerveja, de Afonso Cruz (Alfaguara)

O Afonso Cruz não larga as minhas escolhas do ano há, creio, pelo menos uns 3 ou 4 anos. Deve ser porque tem aquela coisa notável de não parecer um escritor quando escreve.

7 - Fernando Guedes - o decano dos editores portugueses, entrevista de Sara Figueiredo Costa (Booktailors)

Mais do que o livro em si - que vale muito a pena - o conceito e a importância da colecção e do que com ela se pretende. Bravo. Precisamos muito de memória na edição portuguesa. Espero volumes sobre o Luís Oliveira, Luís Amaro, Vítor Silva Tavares e outros.
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Livros do Ano 2012 (I)

1 comentários quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Aqui seguem os primeiros 7 títulos que fazem parte da minha lista de Livros do ano 2012. A ordem e numeração não representam qualquer tipo de gradação (salvo no número 1).


1 - A lebre de olhos de âmbar, de Edmund de Waal (Sextante)

Um livro que eu queria muito publicar. Tinha-o há uns anitos já nas minhas listas. Pessoalmente é o meu livro do ano.
Sendo uma memória pode ler-se igualmente como um romance, uma notável saga familiar, uma história da Europa nos últimos 150 anos, uma história dos gostos, costumes e ideias no mesmo período, um retrato de um mundo perdido.
Um livro inimitável que recebeu o prémio Costa (antigo Whitebread) na categoria de Biografia. Imperdível.


2 - O Colecionador de Mundos, de Ilija Trojanow (Arkheion)

Richard Burton (o explorador, não o actor) é uma das figuras que sempre me fascinaram. Um filho de uma época que tudo fez para nela não se incluir, para fugir aos espartilhos de uma sociedade victoriana que impelia quem não quisesse fazer parte dela a partir mundo fora escondendo-se nos cantos mais exóticos de um império onde o sol não se punha. Este é um retrato possível de Burton, literariamente magnífico, soberbamente investigado e construído.


3 - Sándor Márai, A Ilha (Dom Quixote)

Magnífico como todos os Márais. Um grande romance em mais uma tradução excelente da Piroska Felkai.


4 - Fernando Pessoa, Prosa de Álvaro de Campos (Ática)

Um dos livros do ano a nível mundial numa edição impecável. Parabéns a esta nova Ática e à equipa comandada pelo Jerónimo Pizarro.


5 - George Steiner, A poesia do pensamento (Relógio D'Água)

Mais um Steiner de perder o fôlego. Uma história das ideias e das palavras que lhes dão forma e da forma que essas palavras por vezes assumem.


6 - Jaroslav Hasek, O bom soldado Svejk (Tinta-da-China)

Depois de anos de apenas termos uma versão retalhada a machado, a versão integral de um dos clássicos europeus mais importantes com a vantagem de uma tradução do original feita pelo Lumir Nahodil. Este é um romance incontornável.


7 - António Barahona, Maçãs de Espelho (Língua Morta)

Provavelmente (outra vez) Barahona leva a distinção de livro do ano de poesia.

Mais livros do ano em breve...
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Escolhas do ano 2012

0 comentários segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Este blogue tem andado como o país, parado. Nada tem acontecido que mereça um destaque salvo livros, claro.

Assim e ao longo das próximas semanas, ao ritmo a que me for possível, irei afixar as minhas escolhas do ano. Um ano em que li menos novidades, que o orçamento foi bem mais contido.

São, como de costume, escolhas entre obras que ou li em português ou já tinha lido noutras línguas.

Até breve...
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Um esclarecimento

0 comentários quinta-feira, 11 de outubro de 2012
... muito rápido e apenas na medida da alguma confusão gerada via Facebook e pelos contactos de vários jornalistas: o prémio Nobel Mo Yan não foi publicado por mim na Ulisseia. Foi editado pelo grande editor João Carlos Alvim em 2007. Parabéns ao João Carlos por ter tido visão como todos os editores devem ter. Fica aquele abraço.
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De novo Isaac Bashevis Singer

1 comentários sexta-feira, 27 de julho de 2012
"Fiction in general should never become analyic. As a matter of fact, the writer of fiction should not even try to dabble in psychology and its various isms. Genuine Literature informs while it entertains. it manages to be both clear and profound. It has the magical power of merging causality with purpose, doubt with faith, the passions of the flesh with the yearnings of the soul. It is unique and general, national and universal, realistic and mystical. While it tolerates commentary by others, it should never try to explain itself. Those obvious truths must be emphatized, because false criticism and pseudo-originality have created a state of literary amnesia in our generation. The zeal for messages has made many writersforget that storytelling is the raison d'être of artistic prose."

Da note do autor a The Collected Short-stories, NY, 1981
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Clara Ferreira Alves e a falta de cultura

8 comentários quarta-feira, 25 de julho de 2012
A recente crónica de Clara Ferreira Alves (CFA) "É a falta de cultura, estúpido", constituí um bom retrato do que se passa no nosso país e em boa parte do mundo. Ainda assim nalguns pontos acho que foi longe de mais e noutros acho que não teve coragem para dizer o que queria - ou espaço.

O Modernismo e os modernistas já falavam abertamente da nova era a que se chegava em que nada surgia de diferente ou inovador. A arte e a cultura"novas" teriam de ser re-arranjos originais do pré-existente. Tudo o que veio depois do Modernismo é isso: tentativa de moldar novas conexões com materiais antigos.

O problema nunca seria a cópia mas a má cópia, a cópia que perde qualidade relativamente ao original.

Para mim toda essa discussão é inútil e pouco acertada.

CFA esteve quase lá mas não disse o que tinha de ser dito. Não é verdade que a elite culta (ou consumidora de cultura) seja velha e não tenha sucessores. E sobretudo não é verdade que esteja a diminuir ou desaparecer. Sempre foi estupidamente reduzida. Sempre teve presença minoritária no poder, na religião, na Universidade, na administração, nas ciências, etc., etc. O problema é que actualmente foi empurrada para fora dos círculos de decisão. A Cultura, outrora respeitada, deixou de ser pertinente.

E qual o mal que isso arrasta? Um mal simples e terrivelmente pernicioso: a ausência de memória. A Cultura é memória, mais! é memória abrangente, diversa, polifónica, transversal. E é claro que num mundo "especializado", a visão de conjunto, a escolástica, a pluralidade do conhecimento, não têm lugar.

Sem memória repete-se o erro. Sem memória perde-se a civilização. Os exemplos vêem de todo o mundo: em virtude de um qualquer evento que prive a sociedade de um qualquer "bem" adquirido (electricidade, comida, água, gás, transportes, etc.) a população dá imediatamente o passo seguinte: o passo para o caos e para a barbárie. Motins, vandalismo, violência gratuíta.

A Cultura é a base de dados do que a Humanidade adquiriu - daí que eu deteste que se associe cultura com a Literatura. A Cultura tem de ser geral. Tem de ser um repositório do Homem integral. Das ciências humanas mas também das exactas; tem de ser o arquivo das conquistas da sociedade e dos seus fundamentos. E tem de ser transmitida transversalmente: não se aprendem valores sem conhecimentos, não se aprende disciplina sem organização/ordem, não se avança sem uma boa base de passado.

A diferença é visível e compreensível se compararmos Portugal e a Islândia e as diferentes reacções perante a crise.

Nós vivemos cada vez mais para o nosso umbigo. A nossa especialização é em nós mesmos (daí o Ministro Relvas ser Dr. antes de ser Dr.). Daí podermos atropelar os outros sem pruridos. Daí podermos ser espezinhados sem nos agitarmos.

E o problema actual foi que ao deixar-se afastar do respeito e da sua pequena mas pertinente influência junto do poder, a elite culta não tem força para lá voltar. A culpa não foi do Jornalismo, não foi da Política, não foi da Filosofia; a culpa foi da elite culta que foi preguiçosa. Que se demoveu das suas obrigações societárias.

Qual a única solução que vejo? Que a Elite culta forme os seus sucessores, que estes façam o mesmo para os que se hão-de seguir. Uma boa formação, o despertar do interesse, da motivação e do mérito conseguem angariar mais fiéis. É um trabalho de fundo e de fé. As próximas gerações terão pouca ou nenhuma percepção dos resultados. Não tentemos salvar todos, tentemos salvar os possíveis.
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A grande História de José Hermano Saraiva

3 comentários domingo, 22 de julho de 2012
Tem-me irritado bastante ver as reacções de grande parte da comunidade de historiadores e "gente de cultura" à morte de José Hermano Saraiva. Sobretudo e em primeiro lugar porque não são reacções ao falecimento mas à pessoa. Não é nem o tempo nem o lugar de as fazerem. É uma tremenda falta de respeito para com familiares e amigos. (Uma situação que parece começar a generalizar-se no âmbito da cultura.)

Em segundo lugar as críticas que são feitas - de que se tratava de um falso historiador, de um romancista/ficcionista da história dando importância à lenda e a história sensacionalista e sem bases - é uma crítica falhada. Na minha relação com os programas do JHS sempre senti o entusiasmo que passava e a notável capacidade de criar ligações entre as várias histórias. Isso é e foi sempre sinal de inteligência. Raramente me lembro de o ter ouvido a dizer que era historiador. Considerava-se um divulgador de História e, neste país de incultos, conseguir transmitir como ele o fez, entusiasmo e vontade de saber, conseguir levar pessoas a visitar os locais que referia e interessar as populações locais pelos seus monumentos e lendas (coisas que nunca aconteceria de outra maneira), é obra. E quem quisesse saber mais ou quem quisesse saber a "verdade", que investigasse - ele deixava as pistas. No meu entendimento esse é o verdadeiro valor do "ensino": despertar curiosidade e entusiasmo porque só desses pode partir a vontade individual de saber mais. O ensino massacrante e monocórdico de factos, o despejar de conhecimentos de forma insossa é estéril.

Se eu fizer um inventário de tudo o que me levou sempre a interessar-me pela História e pelas suas personagens e eventos, dou por mim a pensar nos desenhos animados das "Misteriosas Cidades do Ouro" que me levaram a comprar, ainda miúdo, vários livros 'sérios' sobre as civilizações pré-colombianas. Ainda hoje sei dizer nomes complicados de cidades Maias e Incas bem como a ordem cronológica das civilizações ou a sua dispersão geográfica. E sei muito bem que os Olmecas não eram uma tribo de extra-terrestres. Os romances históricos de Walter Scott que me deixaram ainda hoje um interesse tremendo pelo período das cruzadas a tal ponto que quando vi o filme "O reino dos céus" do Ridley Scott me ri dos erros históricos - tinha investigado muito no intervalo de tempo da minha leitura de "O talismã" com 11/12 anos até a essa altura - isso não me impediu de gostar do filme e ver, também, as algumas coisas certas que lá estavam retratadas. Após o filme fui comprar uma caríssima e única existente biografia do Rei leproso de Jerusalém.

Os exemplos acima são apenas dois dos muitos que poderia referir. Mas gostava mesmo que a maioria dos críticos de JHS olhasse para a sua memória consciente e me dissesse o que os motivou e cativou para a História. Tenho a certeza que a maior parte terá pontos de ligação com experiências semelhantes às minhas ou com leituras dos grandes livros da historiografia romântica - tão próximos afinal dos programas de JHS. A ficção é a melhor maneira de despertar interesse para a pesquisa da verdade. Mas os limitados que acham que a ficção é composta apenas de uma camada, que não há intenção, que não há emoção que não há o mistério que leva ao caminho para a Luz (não o estádio); esses serão sempre os falhados na sua capacidade de motivar e iluminar os outros.

Nada nesta vida é plano e uno. Nada na História é o que é. Estou a ler agora a única biografia de Tamerlão - se não sabem quem foi, investiguem - e a descobrir que anos de historiografia oficial chinesa e sobretudo soviética criaram uma parede de desinformação que ainda hoje leva os que procuram saber alguma verdade a lutar contra moinhos.

Já não me lembro quem disse que a História era escrita pelos vencedores. É uma verdade e nessa guerra JHS levou a melhor contra todos os outros. Se metade da "sua" História eram mentiras, lendas e factos por confirmar, não me interessa. Tenho a certeza de que quem seguiu os seus programas ainda hoje, ao viajar pelo nosso país pára nos monumentos e visita os museus locais para saber mais, conhecer lendas, e perceber o que realmente se passou. O resto são egos feridos.

p.s. E não me venham com a velha história do comentário cobarde pós 25 de Abril de que Camões era um trabalhador. Naquele tempo e para JHS que tinha sido Ministro do Estado Novo essa foi a estratégia de sobrevivência e provavelmente a maneira de ficar num país que amava e cuja História o inspirava. Cobardes somos nós que deixamos os nossos governantes espezinhar-nos e cortamos na casaca de quem acabou de morrer.
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Um prazer raro

0 comentários sexta-feira, 18 de maio de 2012
Sabem quando nós andamos a dizer uma coisa e a maior parte das pessoas a quem o dizemos, especialistas todos na matéria, nos ouvem como se estivéssemos a dizer disparates? Há muito tempo que digo umas coisas que penso sobre a modernidade e pós modernidade literária, sobre aquilo que acho que o modernismo (que trouxe algumas coisas boas) fez de mal pela literatura e pela noção de comunicação necessária entre escritor e leitor. E de vez em quando sinto-me só nessa opinião.

Hoje abri o calhamaço das Collected Stories de Isaac Bashevis Singer e li a magnífica nota de autor cujo segundo parágrafo reza da seguinte maneira:

«In the process of creating them [the stories], I have become aware of the many dangers that lurk behind the writer of fiction. The worst of them are: 1. The idea that the writer must be a sociologist and a politician, adjusting himself to what are called social dialectics. 2. Greed for money and quick recognition. 3. Forced originality - namely, the illusion that pretentious rhetoric, precious innovations in style, and playing with artificial symbols can express the basic and ever-changing nature of human relations, or reflect combinations and complications of heredity and environment. These verbal pitfalls of so-called "experimental" writing have done damage even to genuine talent; they have destroyed much of modern poetry by making it obscure, esoteric, and charmless. Imagination is one thing, and the distortion of what Spinoza called "the order of things" is something else entirely. Literature can very well describe the absurd, but it should never be absurd itself.»

Soube bem.
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