Comunidades de Leitores

0 comentários Quinta-feira, 9 de Maio de 2013
Sabe o que são comunidades de leitores? Como funcionam, onde se reúnem, quais os prazeres e vantagens de ler em comunidade?

Durante a próxima Feira do Livro de Lisboa vou estar com a Sofia Ramos a conversar com os organizadores e vários membros das comunidades de leitores da área da Grande Lisboa.

Cada comunidade tem uma orgânica própria. Há as que são mais tradicionais, as que organizam passeios, as que só lêem clássicos, as que abordam autores portugueses, as que juntam os seus membros em jantares temáticos, as que convidam os autores, as que funcionam apenas para crianças incentivando hábitos de leitura e
muitas, muitas outras... 

Hoje em dia há largas dezenas de comunidades, grupos e clubes de leitores um pouco por todo o país, funcionando em Livrarias, Bibliotecas e noutros espaços. Venha conhecê-las.

A inscrição não é obrigatória. Pode aparecer sem avisar mas se se inscrever (através da página abaixo) terá desconto adicional ao desconto de feira na editora cujo livro for abordado naquele dia pela comunidade convidada.

Há mais dados e um programa com datas, livros e indicação das comunidades em causa nesta página do Facebook.

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Mais uma razão para a crise

0 comentários Segunda-feira, 15 de Abril de 2013
Tem sido ignorada como razão para a crise mas é uma realidade presente e confrangedora. Já todos nos cruzamos com ela nas empresas em que trabalhamos, nas instituições às quais recorremos, nos discursos e obra dos políticos.

Da mesma forma como há uma monumental ignorância da História e portanto cometer os mesmos erros não parece chocar ninguém, da mesma forma, dizia, há uma total ausência de planificação estratégica a médio ou longo prazo.

Uma empresa criada agora projecta-se no futuro pensando na sua estratégia e opções a 2 anos no máximo. Falando com algum gestor e perguntando-lhe "e como vai ser dentro de 10 anos?" a resposta não deverá fugir aos lugares comuns de sempre: "quando lá chegarmos veremos" ou "hoje em dia não é possível pensar a essa distância".

Da mesma forma as empresas e os governos, os líderes das instituições pensam as suas políticas contratuais em termos de meses ou poucos anos no máximo.

E o problema de tudo isto é não se ter ainda chegado a uma decisão: queremos empresas, instituições e políticas descartáveis? Empresas, instituições e políticas com prazo de validade cujo fim é marcado pelo recomeço ou pelo simples abandono.

No entender dos novos modelos de gestão dá muito trabalho readaptar um modelo de negócio, actualizá-lo, da mesma forma uma política. Assim é mais fácil, prático e económico fechar, terminar, concluir, quando for necessário repensar, refundar, adaptar.

E no entanto, o paradoxo é que as empresas, instituições e políticas têm como aparente objectivo "manterem-se cá" por bastante tempo.

O que acontece é simples: se um modelo se esgota, faz-se uma renovação total. E como não há memória histórica e porque toda a experiência ganha anteriormente é considerada não-válida, repetem-se erros e multiplicam-se custos. E como quem foi contratado está - e sabe-o - a prazo - planifica a coisa tendo por objectivo resultados rápidos sem se preocupar com a próxima mutação.

Claro que esta forma de funcionamento traz alguns problemas centrais: impossibilidade de fidelização de públicos, quase total impossibilidade de inovação estruturada ou políticas de crescimento continuado.

As evoluções no mundo digital têm vindo a ofuscar um pouco a nossa mundivisão. Olhando bem à nossa volta verificamos que fazem falta as grandes inovações que arrancam a humanidade dos seus momentos de crise. As inovações que realmente mudam os paradigmas e o mundo em que vivemos, aquelas que afectam de forma radical a nossa forma de vida.

Esta falta de projecção para o futuro, de inexistência da inovação dentro dos paradigmas actuais, faz-nos correr o risco sério de uma estagnação de modelos, e a economia percebe isso antes das pessoas porque vem da forma como o mundo inconscientemente pressente o futuro. 

Tive recentemente oportunidade de falar com alguns gestores que diziam ter traçado estratégias de crescimento a médio e longo prazo para as suas empresas e deparei-me com estratégias do tipo que pode ser generalizado da seguinte maneira:

"Criamos este modelo de negócio com objectivos a 2 anos. Se os objectivos forem cumpridos mantemo-nos nessa linha. caso não sejam cumpridos montaremos outro modelo [não identificado ou definido] com objectivos a 2 ou 3 anos..." E por aí adiante.
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Os ciclos da História, A Ficção-Científica, O Chipre e os Dias do Fim

0 comentários Quarta-feira, 20 de Março de 2013
Para quem não perceba a referência de imediato, esta é a máquina, a grande máquina que alimenta Metropolis. O filme é uma distopia assente num fundo de ficção científica mas sobretudo de uma ficção social que ameaçava o futuro de uma Alemanha e que levou à segunda guerra mundial.

A proximidade da realidade histórica com esta realidade ficcional é muito maior do que a generalidade de nós consegue hoje ver.

Anos mais tarde, no final das décadas de 60, na década de 70 e em começos da década de 80, a ficção científica, quer na literatura quer no cinema, evidenciou uma severa preocupação sobre o modo a Humanidade estava a evoluir.

Anos de desleixo e putrefacção do sistema político e social levaram a que os governantes tenham começado a violar as bases do contrato social de que o Chipre é exemplo mas também os ataques às reformas e pensões.

[Um parêntesis recto para deixar muito claro, pela enésima vez, que não sou de esquerda nem de direita. Sou e sempre fui pelas ideias que resolvem problemas e pelos Homens que as pensam.]

Esta é uma revolução silenciosa. Não é o povo que se revolta. Fomos treinados para aguentar e obedecer. A revolução está-nos a ser imposta por quem nos governa.

Na ficção científica aquilo que levou à maior parte das sociedades distópicas foi a criação de uma sociedade harmónica baseada no hedonismo. A proliferação não natural da espécie. O crescimento desmesurado da espécie num mundo incapaz de suportar uma tal realidade. Assim nalguns livros e filmes as sociedades matavam os seus velhos e enfermos (ou pura e simplesmente os que ultrapassassem os 30 ou 40 anos), noutras os alimentos frescos eram reservados para as elites e os restantes consumiam uma matéria verde-feijão que por acaso advinha do tratamento da matéria morta retirada de cadáveres humanos. Noutros eram criadas guerras artificiais para controlar a população... Os exemplos são múltiplos e variados.

Em todos esses filmes e livros há um enorme fosso entre classes. Os que vivem bem acima e os que os amparam nos ombros com o seu trabalho, suor e sangue.

Em todos esses livros e filmes às classes exploradas é negado o acesso ao conhecimento histórico para que a comparação da sua realidade com outras não seja possível. Para essas classes exploradas, o acesso à cultura e conhecimento é substituído pela fé (uma fé desligada da realidade e inútil), pela disciplina e pela austeridade.

E as revoluções que possam nascer da ignorância e do desconhecimento histórico não são verdadeiras revoluções. São mera substituição de posições. mera troca de poderes. Um mero atraso na contínua corrupção dos sistemas.

Em todos esses filmes e livros, a generalidade dos governantes e dos processos que levam às situações extremas são bem intencionados no começo mas acabam por se tornar protectivos das classes dominantes. isto não são doutrinas de esquerda nem interpretações marxistas. O Poder é algo viciante, isolador e que pressupõe uma insatisfação constante na sua demanda (Tolkien já o tinha exemplificado).

Todas essas sociedades, enveredando por diversos caminhos, chegaram a resultados semelhantes.

Também nós para lá caminhamos. A passos muito largos. 

E a grande evidência é que todos sabemos que quem governa não nos pode salvar desse abismo. Não que a solução não seja política, a solução passa sempre pela polis e pela sociedade. O modelo é que não serve, o modelo é que se esgotou, os políticos é que o perverteram. O erro é sempre humano.

Mas são uma boa parte dos políticos instalados que impedirão a mudança de modelo. Por vezes não por má intenção, repito, mas porque não concebem outra realidade senão aquela na qual se instalaram e que lhes é confortável (e isto vale para esquerdas e direitas). E vale para sistemas bancários e económicos e para os modelos sociais.

Daí que devêssemos todos estar bem atentos à revolução que se está a dar. São os dias do fim do modelo vigente. Segue-se-lhes a revolução da substituição de poderes. mas estes dias do fim serão, como são sempre, dolorosos e terríveis. Mais uma vez, como tantas ao longo da sua história, a Humanidade sofrerá por sua causa. Os culpados somos todos nós.

O paradoxo nunca poderá ser evitado: todos devem ter acesso à História e à cultura em geral. Mas terão sempre de existir alguns capazes de uma visão de conjunto. aqueles que conseguem perceber a sociedade e os seus mecanismos. E esses deveram sempre governar mas, com o passar do tempo, acabarão sempre substituídos pelas escolhas do povo que não tem a visão de conjunto mas que, num sistema democrático é quem mais ordena, sem cultura e sem conhecimento histórico.


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Ban Joe?

0 comentários Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2013

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Status Quoi?

1 comentários Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2013
Pude confirmar hoje - já tinha ouvido - que, de acordo com dados da GFK, durante a minha estada na Babel fui o editor com mais vendas efectivas e portanto o que mais dinheiro deu à editora. Não estou contente pelo factor dinheiro nem nunca tive qualquer pretensão a concorrer com os meus colegas. Mas sinto-me verdadeiramente orgulhoso porque posso provar um ponto que defendo há muito tempo: com trabalho sério, a boa literatura também vende. E é de notar que se conseguiu esta situação numa altura em que a Babel não fazia qualquer tipo de comunicação ou marketing.

E na senda das boas notícias, soube que, apesar de continuar desempregado, estou entre os 5% de perfis mais vistos do Linkedin! 
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A crise artificial

0 comentários Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2013
No magnífico discurso do Dr. Marinho Pinto na abertura do ano judicial de 2013 (não estou a ser irónico, acho que é um discurso brilhante e importante), este falava da criação de uma crise artificial.

O Dr. Fernando Ulrich, com bem menos capacidades discursivas, anda a tentar dizer o mesmo (mas não consegue).

Quando se fala dessa criação de uma crise artificial não se está a dizer que a crise não existe. Apenas que os contornos que lhe são dados não são os verdadeiros. E isto é possível devido à ignorância do povo português e à sua parca vontade de se informar para lá dos discursos oficiais e suas cópias transmitidas pela maior parte da imprensa.

Em primeiro lugar (e último) é essencial compreender que não era o país que estava à beira da falência mas o Estado. É necessário entender que se o Estado falisse - e era bom que a acontecer, acontecesse connosco ainda dentro da zona Euro - os cidadãos e as empresas, tendo os seus bens acautelados, continuariam a viver.

Como num qualquer processo de insolvência, a comunidade internacional nomearia alguém para gerir o processo. Seria feito um levantamento - tão necessário - dos bens reais e efectivos do Estado, seria feito um apuramento sobre eventuais manobras ilícitas que pudessem ter conduzido à referida situação, e iniciava-se um processo de retorno aos credores do máximo de valor da dívida do Estado perante eles. Nessa altura seria recomendável que o povo, enquanto um todo se reunisse e se apresentasse como um único cliente para ganhar força perante outros credores.

Todos nós enquanto "accionistas" do Estado deveríamos lutar por reaver o máximo do que lá colocamos.

O que poderia acontecer de mais grave? Que algum outro Estado invocasse como forma de saldar a dívida do Estado português para com ele, uma passagem de soberania. Isto pode parecer assustador mas acredite o leitor que não incomodaria quase nada a maior parte do povo, pudesse este manter a sua língua e que as condições de vida se passassem a assemelhar à desse outro país. Com impostos mais baixos e leis e mecanismos públicos mais eficazes. Se ademais considerarmos o total desconhecimento do nosso passado histórico nas gerações mais novas (uma ou duas acima de mim até às dos meus vizinhos mais novos, a falta de orgulho no nosso país, nas suas instituições e conquistas, etc., perceberemos que pouca mossa faria.

Mais ainda se considerarmos que a situação a que se teria chegado derivava da má gestão dessa empresa chamada Estado, da forma como tem sido feita desde o 25 de Abril em que uma onda de Liberdade varreu os conceitos de autoridade, disciplina, responsabilidade e mérito para os substituir por coisas primárias. note-se que não defendo a tirania, apenas digo que, como boa parte das tiranias, era organizada, competente e funcional coisa que não aconteceu na gestão da coisa pública nos anos que se seguiram e em anos recentes se veio a exacerbar.

Concretamente é então necessário perceber onde está a falhar o contrato do Estado com os seus cidadãos. Não falo sequer do contrato social, falo do contrato simples de prestação de serviços. O Estado português é o maior responsável por processos de insolvência de empresas portuguesas devido aos atrasos nos pagamentos. É esse Estado que, ainda assim se sente capaz de criticar, multar e penalizar duramente quem para com ele não cumpre os ditos prazos de pagamento.

A situação apontada pelo Dr. Marinho Pinto relativamente aos tribunais arbitrais é uma situação que, no seu âmago, o menos atento dos portugueses já tem por adquirida, a incompetência e corrupção do Estado e os efeitos lesivos que agora os cidadãos sentem.

A cultura dos robalos e alheiras é uma coisa antiga portuguesa; a nossa incompetência governamental já na época dos romanos era descrita: "Há, nos confins da Ibéria, um povo que não se governa nem se deixa governar" (Júlio César); a presença desta corrupção e incompetência nada tem que ver com os modelos governativos ou com os sistemas. Acontecia na monarquia, acontece na república e na democracia. Tudo isto só é possível devido à falta de educação social e moral. Uma educação de valores e de mérito.

Queixem-se à vontade, estrebuchem o que entenderem, mas garanto-vos que num caso extremo como o acima descrito, uns milhões de portugueses dariam imensa importância ao facto de as suas equipas poderem ombrear nos campeonatos futebolísticos com os grandes do país que assumisse a soberania sobre este rectângulo à beira-mar plantado e ficariam somente preocupados em saber se faria sentido o Tony Carreira continuar a ser considerado o maior artista português.

Enquanto esta situação não for corrigida, podem continuar a dizer-nos que esta crise é assim e assado que a maior parte de nós engole e a outra não tem força para se fazer ouvir.
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Livros do Ano 2012 (VI)

0 comentários Sábado, 29 de Dezembro de 2012



1 - A cortina dos dias, de Alfredo Cunha (Porto)

Grande livro de fotografia sobre o princípio deste fim que agora vivemos.

2 - O Luxo Eterno - Da Idade do Sagrado ao Tempo das Marcas, de Gilles Lipovetsky e Elyette Roux (Edições 70)

Difícil, difícil é dizer bem sobre que trata este livro. é uma obra sobre coisas que nos fascinam e prendem, sobre as ideias que vemos nas coisas e nas marcas, sobre a essência. Um livro que fala sobre a satisfação de um desejo de requinte (créditos para a Ferrero).

3 - As elipses na água, de Javier Sotto y Castro (Bruma)

Há livros que estão condenados à obscuridade. Edição com tiragem limitadíssima, autor  sobre o qual não se encontra qualquer informação, editora (devidamente) obscura com um blogue que esteve online penso que nem um mês. Uma pequena obra-prima.

4 - Num lugar solitário, de Ana Teresa Pereira (Relógio d'Água)

Quando se diz que há autores que estão sempre a escrever o mesmo livro, Ana Teresa Pereira é precisamente assim. O resultado é que o livro é sempre bom. 

5 - Lisboa, uma cidade em tempo de guerra, de Margarida de Magalhães Ramalho (IN-CM)

Uma edição importante em que se cruza a história urbana com a história dos refugiados e dos passantes. Um documento impressionante.

5 - Persépolis, de Marjane Satrapi (Contraponto)

Finalmente em língua portuguesa. Continuo na dúvida se gosto mais do filme ou da BD...

6 - Paulo Guilherme, de Silva Designers (IN-CM)

Há uns anos valentes (mais de dez) estive no estúdio do Paulo Guilherme - filho do Olavo de Eça Leal (se não sabem quem foi, investiguem) - porque um editor com quem eu trabalhava queria fazer uma reedição do "Iratan e Iracema" de seu pai (que o Paulo Guilherme realizou em filme no final dos anos 80).
Foi uma das experiências que me marcaram. Este era um artista completo: arquitecto, designer, pintor, realizador, escritor, polemista, ensaísta e provavelmente um dos melhores conversadores com quem alguma vez privei.
Esta homenagem ao homem e ao artista é mais do que devida.

Bónus

1 - Contos escolhidos, de Isaac Babel (Relógio d'Água)

Se não o escrevi ainda, escrevo agora. Esta edição irrita-me imenso. O Isaac Babel é um dos melhores contistas russos mas com produção bastante contida. Publicar-se uma edição de contos escolhidos com quase 300 pp. quando os seus contos completos não ultrapassam em muito as 400 é uma frustração de edição. Ainda assim um grande livro na ausência do todo.

2 - Pessoa existe?, de Jerónimo Pizarro (Ática)

Talvez a provocação intelectual do ano.
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Livros do Ano 2012 (V)

0 comentários Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012


1 - O ilustre, de Clarice Lispector (Relógio d'Água)

Podia ser qualquer um, podiam ser todos os livros da Clarice... Foi este porque é dos que mais gostei.

2 - Uma Manhã Perdida, de Gabriela Adamasteanu (Dom Quixote)

Uma escritora ainda muito ignorada em Portugal. Este é o seu segundo melhor romance. Publicado no começo dos anos 80. (Não li esta tradução portuguesa)

3 - Mazagran, J. Rentes de Carvalho (Quetzal)

Só muito recentemente vim a descobrir Rentes de Carvalho. É muito bom poder ir descobrindo assim, coisas inesperadas. Mais um grande livro.

4 - A Sorte de Jim, de Kingsley Amis (Quetzal)

A obra-prima de Amis, uma tragicomédia que é em boa parte um retrato muito importante de uma realidade britânica de uma época de mudanças. O título original é "Lucky Jim" - Jim, o sortudo" ou coisa que o valha. Os editores e os tradutores têm medo que palavras dessas soem à província, o resultado é um título que pode transmitir uma carga diferente ao livro até pelas diversas utilizações da palavra "sorte". "Jim com sorte" poderia ter sido uma solução.

5 - Pulp, de Charles Bukowski (Alfaguara)
6 - Hollywood, de Charles Bukowski (Alfaguara)

Bukowski quase todo disponível em língua portuguesa com mais estas duas edições. "Pulp" é um dos grandes da literatura norte-americana e mundial.

7 - O futuro da ficção, de António-Pedro de Vasconcellos (Fundação Francisco Manuel dos Santos)

Estive hesitante em colocar este livro. A paginação é péssima. Encontrá-lo à venda foi um pesadelo. E o texto em si apesar de interessante deixa sempre um pouco uma impressão de incompleto. No entanto, como por vezes acontece, foi um livro que, devido a essa falta de completude, me obrigou a pensar em muitas coisas bastante interessantes. Acresce a isso a possibilidade de espreitarmos o mundo de A-P de Vasconcellos por mera curiosidade.
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Livros do Ano 2012 (IV)

0 comentários Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2012

1 - Um Império de Papel - Imagens do Colonialismo Português na Imprensa Periódica Ilustrada (1875-1940), de Leonor Pires Martins (Edições 70)

Um álbum interessantíssimo que traça num quase foto-jornalismo uma sociedade em transição. É sem dúvida um documento essencial da nossa história.

2 - Desenhar o vento - A última viagem do Capitão Salgari, de Ernesto Ferrero (Teodolito)

Para quem cresceu com Salgari (eu estive mais próximo do Jules Verne mas ainda assim), um romance biográfico sobre um homem que deu mais mundo aos homens.

3 - Portugueses no holocausto, de Esther Mucznik (Esfera dos Livros)

Outro documento importante cobrindo uma parte da história nossa que desconhecemos.

4 - Dentro do segredo, de José Luís Peixoto (Quetzal)

Magnífico livro de viagens.sobre um mundo que não se dá ao mundo.

5 - Uma Obra Enternecedora de Assombroso Génio, de Dave Eggers (Quetzal) 

Finalista do Pulitzer, o romance de Eggers é um assombroso estudo sobre os lugares e papéis sociais e familiares, sobre quando temos de assumir papéis que nunca imaginámos vir a ter de assumir, sobre o nosso papel na sociedade e na pequena sociedade que é a família. Daí a importância de um livro nos tempos que correm em que a nossa leviandade social é aterradora.

6 - 1089 e Tudo o Resto - Uma Viagem Pela Matemática, de David Acheson (Relógio d'Água)

De vez em quando gosto de me embrulhar num desafio destes, acho que faz muita falta à cabeça das gentes de letras. Obriga-nos a arrumar a casa aqui de cima e nós por natureza gostamos de um caos culto.

7 - A Palavra do Mudo, de Julio Ramon Ribeyro (Ahab)

Já tinha destacado em escolhas de anos anteriores. J. R. R. é um dos melhores contistas de todos os tempos, provavelmente ali no top 10. Grande livro, venha o segundo volume.
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Livros do Ano 2012 (III)

0 comentários Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2012


Continuo a divulgar a minha lista. Valem as notas deixadas nas entradas anteriores.

1 - Contos completos, de Lydia Davis (Relógio d'Água)

Comecei a publicar a Lydia Davis na Ulisseia  com o «Break it down - demolição». Conheci a autora por culpa do José Luís Peixoto que ma tinha recomendado há uns anos valentes. É sem dúvida nenhuma uma das melhores contistas contemporâneas de língua inglesa.

2 - A Mulher Que Tentou Matar o Bebé da Vizinha, de Liudmila Petruchévskaia (Relógio d'Água)  

Um dos melhores livros de contos do ano publicados em Portugal. Antologia de anos de escrita em torno de temas e realidades tabu de uma União Soviética. Forte, muito forte. Muito bom. (engraçado nessa força o paralelo com alguns contos da Lydia Davis)

3 - Arturo, de Davide Cali e Ninamasina (Bruaá)

Que dizer... Olha-se, folheia-se e percebe-se o porquê da escolha, acho eu.

4 - Rómulo de Carvalho/António Gedeão - Príncipe Perfeito, de Cristina Carvalho (Estampa)

A Cristina Carvalho, filha do Rómulo de Carvalho e também ela escritora, dá-nos o retrato muito pessoal de uma das figuras mais marcantes do século XX português.

5 - A forca, de Joe Abercrombie (Asa)

Esta escolha é para os fanáticos da fantasia. Não li a tradução do segundo volume da trilogia do Joe Abercrombie (aliás li-os todos em inglês). Abercrombie é o melhor escritor actual de fantasia - na minha opinião - e os seus livros apresentam um mundo onde se cruzam as principais correntes da fantasia próximas dos estereótipos clássicos. Aliado a tudo isso uma mestria nos diálogos à altura de George R. R. Martin e um sentido de humor britânico e muito muito negro que não deixam o leitor deixar de rir às gargalhadas nos mais terríveis momentos de acção.

6 - A química das lágrimas, de Peter Carey (Gradiva)

Peter Carey é um dos meus autores de eleição e ainda está para vir um livro seu que não me prenda. Mais uma vez aqui, Carey joga com a ficção, a história e a escrita como poucos.

7 - Conde Ferreira & C.ª - Traficantes de escravos, de José Capela (Afrontamento)

Imagino que a origem deste livro tenha sido uma tese mas quer a temática quer o tratamento são extremamente interessantes e servem para deixarmos de lado muito do nosso passado cor-de-rosa pintado por anos de ancient régime.
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Livros do Ano 2012 (II)

0 comentários Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2012

Aqui seguem mais sete dos meus livros do ano. Mais uma vez, sem que a numeração implique qualquer tipo de valoração.

1 - A Polaquinha, de Dalton Trevisan (Relógio d'Água)

Ainda estive para colocar o «Vampiro de Curitiba» mas adoro romances construídos de contos. este é um deles daquele que é provavelmente um dos maiores contistas do século XX em língua portuguesa.

2 - Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, de Pablo Neruda (Relógio d'Água)

Porque eu nunca consigo evitar Neruda.

3 - Kafkiana, de Agustina Bessa-Luís (Guimarães)

Reconhecendo-lhe o valor, não sou grande fã de Agustina. mas sou-o de Kafka e aqui o casamento é quase perfeito.

4 - Necrópole, de Santiago Gamboa (Eucleia)

Um romance portentoso, ainda o estive para publicar na Ulisseia. A prova de que a literatura sul-americana tem outros espaços que não apenas o do realismo mágico. Este romance alegórico-metafórico é um desafio à compreensão do nosso mundo e da presença constante da morte. (Li no original.)

5 - Domar os Deuses - Religião e Democracia em Três Continentes, de Ian Buruma (Edições 70)

O fenómeno religioso e as suas relações com a política e sociedade. Um livro marcante.

6 - Jesus Cristo Bebia Cerveja, de Afonso Cruz (Alfaguara)

O Afonso Cruz não larga as minhas escolhas do ano há, creio, pelo menos uns 3 ou 4 anos. Deve ser porque tem aquela coisa notável de não parecer um escritor quando escreve.

7 - Fernando Guedes - o decano dos editores portugueses, entrevista de Sara Figueiredo Costa (Booktailors)

Mais do que o livro em si - que vale muito a pena - o conceito e a importância da colecção e do que com ela se pretende. Bravo. Precisamos muito de memória na edição portuguesa. Espero volumes sobre o Luís Oliveira, Luís Amaro, Vítor Silva Tavares e outros.
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Livros do Ano 2012 (I)

1 comentários Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2012

Aqui seguem os primeiros 7 títulos que fazem parte da minha lista de Livros do ano 2012. A ordem e numeração não representam qualquer tipo de gradação (salvo no número 1).


1 - A lebre de olhos de âmbar, de Edmund de Waal (Sextante)

Um livro que eu queria muito publicar. Tinha-o há uns anitos já nas minhas listas. Pessoalmente é o meu livro do ano.
Sendo uma memória pode ler-se igualmente como um romance, uma notável saga familiar, uma história da Europa nos últimos 150 anos, uma história dos gostos, costumes e ideias no mesmo período, um retrato de um mundo perdido.
Um livro inimitável que recebeu o prémio Costa (antigo Whitebread) na categoria de Biografia. Imperdível.


2 - O Colecionador de Mundos, de Ilija Trojanow (Arkheion)

Richard Burton (o explorador, não o actor) é uma das figuras que sempre me fascinaram. Um filho de uma época que tudo fez para nela não se incluir, para fugir aos espartilhos de uma sociedade victoriana que impelia quem não quisesse fazer parte dela a partir mundo fora escondendo-se nos cantos mais exóticos de um império onde o sol não se punha. Este é um retrato possível de Burton, literariamente magnífico, soberbamente investigado e construído.


3 - Sándor Márai, A Ilha (Dom Quixote)

Magnífico como todos os Márais. Um grande romance em mais uma tradução excelente da Piroska Felkai.


4 - Fernando Pessoa, Prosa de Álvaro de Campos (Ática)

Um dos livros do ano a nível mundial numa edição impecável. Parabéns a esta nova Ática e à equipa comandada pelo Jerónimo Pizarro.


5 - George Steiner, A poesia do pensamento (Relógio D'Água)

Mais um Steiner de perder o fôlego. Uma história das ideias e das palavras que lhes dão forma e da forma que essas palavras por vezes assumem.


6 - Jaroslav Hasek, O bom soldado Svejk (Tinta-da-China)

Depois de anos de apenas termos uma versão retalhada a machado, a versão integral de um dos clássicos europeus mais importantes com a vantagem de uma tradução do original feita pelo Lumir Nahodil. Este é um romance incontornável.


7 - António Barahona, Maçãs de Espelho (Língua Morta)

Provavelmente (outra vez) Barahona leva a distinção de livro do ano de poesia.

Mais livros do ano em breve...
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Escolhas do ano 2012

0 comentários Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012
Este blogue tem andado como o país, parado. Nada tem acontecido que mereça um destaque salvo livros, claro.

Assim e ao longo das próximas semanas, ao ritmo a que me for possível, irei afixar as minhas escolhas do ano. Um ano em que li menos novidades, que o orçamento foi bem mais contido.

São, como de costume, escolhas entre obras que ou li em português ou já tinha lido noutras línguas.

Até breve...
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Um esclarecimento

0 comentários Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012
... muito rápido e apenas na medida da alguma confusão gerada via Facebook e pelos contactos de vários jornalistas: o prémio Nobel Mo Yan não foi publicado por mim na Ulisseia. Foi editado pelo grande editor João Carlos Alvim em 2007. Parabéns ao João Carlos por ter tido visão como todos os editores devem ter. Fica aquele abraço.
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De novo Isaac Bashevis Singer

1 comentários Sexta-feira, 27 de Julho de 2012
"Fiction in general should never become analyic. As a matter of fact, the writer of fiction should not even try to dabble in psychology and its various isms. Genuine Literature informs while it entertains. it manages to be both clear and profound. It has the magical power of merging causality with purpose, doubt with faith, the passions of the flesh with the yearnings of the soul. It is unique and general, national and universal, realistic and mystical. While it tolerates commentary by others, it should never try to explain itself. Those obvious truths must be emphatized, because false criticism and pseudo-originality have created a state of literary amnesia in our generation. The zeal for messages has made many writersforget that storytelling is the raison d'être of artistic prose."

Da note do autor a The Collected Short-stories, NY, 1981
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Clara Ferreira Alves e a falta de cultura

8 comentários Quarta-feira, 25 de Julho de 2012
A recente crónica de Clara Ferreira Alves (CFA) "É a falta de cultura, estúpido", constituí um bom retrato do que se passa no nosso país e em boa parte do mundo. Ainda assim nalguns pontos acho que foi longe de mais e noutros acho que não teve coragem para dizer o que queria - ou espaço.

O Modernismo e os modernistas já falavam abertamente da nova era a que se chegava em que nada surgia de diferente ou inovador. A arte e a cultura"novas" teriam de ser re-arranjos originais do pré-existente. Tudo o que veio depois do Modernismo é isso: tentativa de moldar novas conexões com materiais antigos.

O problema nunca seria a cópia mas a má cópia, a cópia que perde qualidade relativamente ao original.

Para mim toda essa discussão é inútil e pouco acertada.

CFA esteve quase lá mas não disse o que tinha de ser dito. Não é verdade que a elite culta (ou consumidora de cultura) seja velha e não tenha sucessores. E sobretudo não é verdade que esteja a diminuir ou desaparecer. Sempre foi estupidamente reduzida. Sempre teve presença minoritária no poder, na religião, na Universidade, na administração, nas ciências, etc., etc. O problema é que actualmente foi empurrada para fora dos círculos de decisão. A Cultura, outrora respeitada, deixou de ser pertinente.

E qual o mal que isso arrasta? Um mal simples e terrivelmente pernicioso: a ausência de memória. A Cultura é memória, mais! é memória abrangente, diversa, polifónica, transversal. E é claro que num mundo "especializado", a visão de conjunto, a escolástica, a pluralidade do conhecimento, não têm lugar.

Sem memória repete-se o erro. Sem memória perde-se a civilização. Os exemplos vêem de todo o mundo: em virtude de um qualquer evento que prive a sociedade de um qualquer "bem" adquirido (electricidade, comida, água, gás, transportes, etc.) a população dá imediatamente o passo seguinte: o passo para o caos e para a barbárie. Motins, vandalismo, violência gratuíta.

A Cultura é a base de dados do que a Humanidade adquiriu - daí que eu deteste que se associe cultura com a Literatura. A Cultura tem de ser geral. Tem de ser um repositório do Homem integral. Das ciências humanas mas também das exactas; tem de ser o arquivo das conquistas da sociedade e dos seus fundamentos. E tem de ser transmitida transversalmente: não se aprendem valores sem conhecimentos, não se aprende disciplina sem organização/ordem, não se avança sem uma boa base de passado.

A diferença é visível e compreensível se compararmos Portugal e a Islândia e as diferentes reacções perante a crise.

Nós vivemos cada vez mais para o nosso umbigo. A nossa especialização é em nós mesmos (daí o Ministro Relvas ser Dr. antes de ser Dr.). Daí podermos atropelar os outros sem pruridos. Daí podermos ser espezinhados sem nos agitarmos.

E o problema actual foi que ao deixar-se afastar do respeito e da sua pequena mas pertinente influência junto do poder, a elite culta não tem força para lá voltar. A culpa não foi do Jornalismo, não foi da Política, não foi da Filosofia; a culpa foi da elite culta que foi preguiçosa. Que se demoveu das suas obrigações societárias.

Qual a única solução que vejo? Que a Elite culta forme os seus sucessores, que estes façam o mesmo para os que se hão-de seguir. Uma boa formação, o despertar do interesse, da motivação e do mérito conseguem angariar mais fiéis. É um trabalho de fundo e de fé. As próximas gerações terão pouca ou nenhuma percepção dos resultados. Não tentemos salvar todos, tentemos salvar os possíveis.
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A grande História de José Hermano Saraiva

1 comentários Domingo, 22 de Julho de 2012
Tem-me irritado bastante ver as reacções de grande parte da comunidade de historiadores e "gente de cultura" à morte de José Hermano Saraiva. Sobretudo e em primeiro lugar porque não são reacções ao falecimento mas à pessoa. Não é nem o tempo nem o lugar de as fazerem. É uma tremenda falta de respeito para com familiares e amigos. (Uma situação que parece começar a generalizar-se no âmbito da cultura.)

Em segundo lugar as críticas que são feitas - de que se tratava de um falso historiador, de um romancista/ficcionista da história dando importância à lenda e a história sensacionalista e sem bases - é uma crítica falhada. Na minha relação com os programas do JHS sempre senti o entusiasmo que passava e a notável capacidade de criar ligações entre as várias histórias. Isso é e foi sempre sinal de inteligência. Raramente me lembro de o ter ouvido a dizer que era historiador. Considerava-se um divulgador de História e, neste país de incultos, conseguir transmitir como ele o fez, entusiasmo e vontade de saber, conseguir levar pessoas a visitar os locais que referia e interessar as populações locais pelos seus monumentos e lendas (coisas que nunca aconteceria de outra maneira), é obra. E quem quisesse saber mais ou quem quisesse saber a "verdade", que investigasse - ele deixava as pistas. No meu entendimento esse é o verdadeiro valor do "ensino": despertar curiosidade e entusiasmo porque só desses pode partir a vontade individual de saber mais. O ensino massacrante e monocórdico de factos, o despejar de conhecimentos de forma insossa é estéril.

Se eu fizer um inventário de tudo o que me levou sempre a interessar-me pela História e pelas suas personagens e eventos, dou por mim a pensar nos desenhos animados das "Misteriosas Cidades do Ouro" que me levaram a comprar, ainda miúdo, vários livros 'sérios' sobre as civilizações pré-colombianas. Ainda hoje sei dizer nomes complicados de cidades Maias e Incas bem como a ordem cronológica das civilizações ou a sua dispersão geográfica. E sei muito bem que os Olmecas não eram uma tribo de extra-terrestres. Os romances históricos de Walter Scott que me deixaram ainda hoje um interesse tremendo pelo período das cruzadas a tal ponto que quando vi o filme "O reino dos céus" do Ridley Scott me ri dos erros históricos - tinha investigado muito no intervalo de tempo da minha leitura de "O talismã" com 11/12 anos até a essa altura - isso não me impediu de gostar do filme e ver, também, as algumas coisas certas que lá estavam retratadas. Após o filme fui comprar uma caríssima e única existente biografia do Rei leproso de Jerusalém.

Os exemplos acima são apenas dois dos muitos que poderia referir. Mas gostava mesmo que a maioria dos críticos de JHS olhasse para a sua memória consciente e me dissesse o que os motivou e cativou para a História. Tenho a certeza que a maior parte terá pontos de ligação com experiências semelhantes às minhas ou com leituras dos grandes livros da historiografia romântica - tão próximos afinal dos programas de JHS. A ficção é a melhor maneira de despertar interesse para a pesquisa da verdade. Mas os limitados que acham que a ficção é composta apenas de uma camada, que não há intenção, que não há emoção que não há o mistério que leva ao caminho para a Luz (não o estádio); esses serão sempre os falhados na sua capacidade de motivar e iluminar os outros.

Nada nesta vida é plano e uno. Nada na História é o que é. Estou a ler agora a única biografia de Tamerlão - se não sabem quem foi, investiguem - e a descobrir que anos de historiografia oficial chinesa e sobretudo soviética criaram uma parede de desinformação que ainda hoje leva os que procuram saber alguma verdade a lutar contra moinhos.

Já não me lembro quem disse que a História era escrita pelos vencedores. É uma verdade e nessa guerra JHS levou a melhor contra todos os outros. Se metade da "sua" História eram mentiras, lendas e factos por confirmar, não me interessa. Tenho a certeza de que quem seguiu os seus programas ainda hoje, ao viajar pelo nosso país pára nos monumentos e visita os museus locais para saber mais, conhecer lendas, e perceber o que realmente se passou. O resto são egos feridos.

p.s. E não me venham com a velha história do comentário cobarde pós 25 de Abril de que Camões era um trabalhador. Naquele tempo e para JHS que tinha sido Ministro do Estado Novo essa foi a estratégia de sobrevivência e provavelmente a maneira de ficar num país que amava e cuja História o inspirava. Cobardes somos nós que deixamos os nossos governantes espezinhar-nos e cortamos na casaca de quem acabou de morrer.
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Um prazer raro

0 comentários Sexta-feira, 18 de Maio de 2012
Sabem quando nós andamos a dizer uma coisa e a maior parte das pessoas a quem o dizemos, especialistas todos na matéria, nos ouvem como se estivéssemos a dizer disparates? Há muito tempo que digo umas coisas que penso sobre a modernidade e pós modernidade literária, sobre aquilo que acho que o modernismo (que trouxe algumas coisas boas) fez de mal pela literatura e pela noção de comunicação necessária entre escritor e leitor. E de vez em quando sinto-me só nessa opinião.

Hoje abri o calhamaço das Collected Stories de Isaac Bashevis Singer e li a magnífica nota de autor cujo segundo parágrafo reza da seguinte maneira:

«In the process of creating them [the stories], I have become aware of the many dangers that lurk behind the writer of fiction. The worst of them are: 1. The idea that the writer must be a sociologist and a politician, adjusting himself to what are called social dialectics. 2. Greed for money and quick recognition. 3. Forced originality - namely, the illusion that pretentious rhetoric, precious innovations in style, and playing with artificial symbols can express the basic and ever-changing nature of human relations, or reflect combinations and complications of heredity and environment. These verbal pitfalls of so-called "experimental" writing have done damage even to genuine talent; they have destroyed much of modern poetry by making it obscure, esoteric, and charmless. Imagination is one thing, and the distortion of what Spinoza called "the order of things" is something else entirely. Literature can very well describe the absurd, but it should never be absurd itself.»

Soube bem.
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O desemprego (piadinha)

2 comentários Quinta-feira, 12 de Abril de 2012
Recebi hoje o seguinte e-mail intitulado, como podem verificar "A Page Personnel dá-lhe os parabéns pelo seu novo desafio profissional":

Achei que era devida uma resposta.

Prezados Senhores,
Estou habituado a receber muita publicidade por e-mail, mas esta está ao nível da de uma escola de línguas que no Natal passado me desejou "Marry Christmas" (com a maior seriedade e  um excelente design). Com efeito e depois de me ter inscrito na Michael Page sem voltar a ter um contacto desse lado há mais de 3 anos, recebo a publicidade abaixo em que me informam que eu sou um dos 53 profissionais que encontrou emprego no primeiro trimestre de 2012 (facto que surpreende de todo pois, ao que sei, continuo desempregado).
Acho absolutamente brilhante o respeito que evidenciam pela situação precária de quem, efectivamente, está desempregado. Falta muita ética no mundo laboral em Portugal, mas tal é compreensível quando exemplos destes chegam através de uma firma com a reputação internacional da Michael Page. Se por acaso acham que as letrinhas pequenas acima do anúncio - que indicam "publicidade" - conseguem tirar a piada à piada estão enganados.
Eu dava umas liçõezinhas de moral ao vosso director de marketing, dava - podem contratar-me para rever a vossa publicidade e campanhas: levo pouco e faço um excelente trabalho!


Sem outro assunto
Hugo Xavier
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Bibliografia Geral da Edição e do Livro

1 comentários Terça-feira, 13 de Março de 2012
A pedido de vários amigos e conhecidos, disponibilizo AQUI uma bibliografia de tudo aquilo que ao longo dos anos fui consultando e considero relevante por um ou outro motivo dentro da área da indústria e negócio do livro (que é, também para muitos, uma arte).

Sugestões, acréscimos e críticas são bem-vindas em comentário e devidamente consideradas para incluão na lista.
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The winner takes it all

0 comentários Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
Passos Coelho anunciou que espera através da sua plataforma digital que os portugueses dêem boas ideias para o país. Não é mal pensado. Ainda por cima se considerarmos a falta de ideias crónica de que manda.

Mas depois e para confirmar o diagnóstico de demência ao qual todos já chegámos relativamente à classe política vem a questão da forma como isto é organizado.

Vão ao site e divirtam-se.

Passo a explicar: qualquer pessoa (não há mal nenhum nisso) pode criar o seu movimento. A seguir cria uma página do facebook e quem tiver mais votos tem direito a (rufam os tambores) uma "audiência com o primeiro ministro de Portugal".

Passo a explicar melhor:

Primeiro coloquemos de lado a hipótese de o projecto vencedor ser uma palermada tipo "Luís Filipe Vieira para primeiro ministro". É o mais provavel vencedor mas enfim...

Consideremos então que os os projectos mais votados são importantes, são revolucionários e podem dar, efectivamente, mais valias ao país. O projecto vencedor é ouvido pelo primeiro-ministro.

Quer isto dizer várias coisas:
- se houver 40 projectos excepcionais - um poderá ser apresentado e defendido.
- se o projecto vencedor for ouvido, nada nos garante qualquer tipo de execussão prática.
- o Luís Filipe Vieira nunca será primeiro-ministro.

Meu deus - se se gasta o nosso dinheirinho para fazer plataformas digitais que se façam as coisas seriamente e com valores democráticos. Uma brincadeira destas é uma vergonha, mais uma vergonha...



 


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Esclarecimento

2 comentários Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012
Em virtude de uma série de situações que ultimamente se têm levantado relativas ao insulto do Editor Jorge Reis-Sá ao recém-falecido escritor Rui Costa, queria clarificar os seguintes pontos:

1.
Já não trabalho na Babel, por vontade dessa empresa, desde o começo de Outubro de 2011.

2.
No final de 2010, através do Ricardo Álvaro (consultor editorial), foi-me apresentado um romance original do escritor Rui Costa. Esse romance, no meu entender, era uma obra de grande qualidade que merecia publicação. Isso mesmo tive oportunidade de comunicar ao Rui com quem, depois de apresentado um plano editorial devidamente autorizado pela Direcção da Babel, foi assinado um contrato para futura publicação. Eu fui sempre o editor responsável pelo projecto.


3.
Por indicação dessa mesma Direcção esse e outros livros foram sendo adiados até ao momento da minha saída. Ao que sei o projecto foi entregue a outro editor da casa (que não o Director Editorial Jorge Reis-Sá).

4.
Desde a minha saída e depois de explicar a situação ao Rui não voltei a ter contacto com ele.


5.
Tive conhecimento das recentes afirmações do Director Editorial da Babel Jorge Reis-Sá e quero desde já demarcar-me publicamente da posição assumida por essa editora através do seu Director Editorial. Coloco-me à inteira disposição da família do Rui Costa para qualquer esclarecimento ou auxílio dentro do que são os meus conhecimentos relativos a esta situação.


6.
Considero os comentários de Jorge Reis-Sá como desumanos e e de uma violência extrema para com a família, amigos e sobretudo para o próprio Rui.


7.
Posso afirmar que a Babel tem uma política de comunicação rígida e que qualquer funcionário só está autorizado a fazer quaisquer declarações públicas sobre qualquer assunto relacionado com a editora, os seus autores, as suas políticas, etc. quando autorizado por uma direcção de comunicação.

8.
Jorge Reis-Sá sabia perfeitamente que o livro estava no programa editorial.
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Posso explicar tudo?

0 comentários Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
Hoje estive a ouvir um pouco do debate na Assembleia da República sobre a questão dos transportes e senti-me iluminado. Queria partilhar convosco a razão de isto andar como anda.

Numa empresa em que trabalhei, chegou-se um dia à conclusão de que não havia dinheiro. Nunca passou pela cabeça de quem geria tal projecto que a gestão fosse inadequada - apesar desses gestores não saberem nada sobre a área da empresa que tinham sido convidados para gerir - a culpa era da crise.

Qualquer das pessoas que, como eu, andam cá já uns aninhos nas lides da área em que operava essa empresa percebiam que a gestão era inadequada ao negócio e às suas muito específicas circunstâncias e singularidades.

Como é um sector em crise crónica (não se esqueçam de ir fazendo paralelismos com o que se passa na governação de Portugal - e não só deste governo mas dos vários governos ao longo de anos e anos), achou o patrão que aquilo que faltava ao sector eram gestores.

E assim foi, chegados os gestores a um negócio que estava em processo de falência por todo o seu modelo ter sido pensado por quem nada sabia do sector (gestores também aconselhados por uma das pessoas com pior reputação na área - coisa que esses gestores nem se preocuparam em apurar), não conhecendo portanto o público-alvo/cliente e as suas necessidades e muito menos tendo conhecimentos que lhes permitissem avaliar a eficácia dos seus subalternos uma vez que não é posível avaliar sem se ter o conhecimento superior daquilo que se avalia, não conhecendo processos e muito menos percebendo a mecânica comercial do sector. Foi assim, dizia, que passados alguns meses os gestores comunicaram a sua solução para os problemas graves.

Primeiro chegou um e-mail que falava na redução de custos necessária: iria deixar de haver fruta na copa e pedia-se a maior cotenção possível na impressão de fotocópias e documentos. Com essas e outras medidas conseguiam reduzir imenso os custos. A seguir vieram os despedimentos.

Hoje na AR falava-se dos cortes de carreiras, linhas ferroviárias, percursos de barco e outros que vão impedir uma faixa da população de se deslocar e cortar, portanto, o acesso a educação ou saúde; cria-se uma situação complexa a quem não tem outro meio de deslocação para chegar ao seu local de trabalho; isolam-se algumas povoações, ostracizam-se outras votando-as ao degredo social e com tudo isso poupam-se cerca de 20 milhões de Euros ao ano em empresas que têm dívidas de milhares de milhões.

Meus amigos, como é que alguém espera ou pode esperar medidas concretas e "boas" por parte dos governantes quando estes nada sabem das áreas sobre as quais decidem e muito menos ouvem quem sabe?

Estou farto de dizer que só há uma maneira de se resolverem os problemas do país: os políticos portugueses deveriam ser absolutamente obrigados a usar o serviço nacional de saúde, os transportes públicos, os seus filhos deveriam estar em escolas públicas... se isto acontecesse estas pessoas poderiam ter intervenções úteis.


Não precisamos de responsabilizar criminalmente os políticos. Precisamos de os por ao nosso nível para que eles percebam os problemas de quem está abaixo do palanque.
Somos uma sociedade hipócrita em que quem manda grita mais alto. Quem manda vive rodeado de yespeople que ausculta os especialistas nas diversas áreas, mas depois verifica-se que esses especialistas afinal não são especialistas e sim pessoas que estão à frente de empresas e instituições por nomeação política. Ninguém sabe de nada, mas decidem sobre tudo. E fazem-no porque não os afecta directamente.



p.s. ouvido hoje numa paragem de autocarro: 

- Opá o Catroga agora é que deve tar arrependido de se ter metido na política que bastava o passado dele nas grandes empresas para justificar que esteja na EDP e não dar azo a estas bocas...
- Hummm... mas se não se tivesse metido na política provavelmente nnca teria construído o passado que lhe permitiu estar hoje onde está.
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Schettino e un cretino!

0 comentários Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
Depois das recentes notícias que revelam que o comandante do cruzeiro afundado estava com uma loira moldava, alta, de 25 anos, chamada Dominika, que não consta das listas de passageiros e tripulação e que terá caído no mesmo bote juntamente com o Comandante e o seu Imediato; começam a revelar-se cada vez mais factos sobre a vida de Francesco Schettino.

Vídeos gravados por tripulantes explicam o árduo dia-a-dia do Comandante e dos tripulantes bem como das convidadas. Aqui está um desses vídeos revelados em primeira mão:
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Estes são, efectivamente, os dias do Fim...

0 comentários Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012
Com os meus horários desorganizados de português desempregado, cheguei há pouco a casa e, enquanto comia, liguei a televisão (coisa rara). Antes de ter capacidade de reacção e perceber que estava ante o programa do Dr. Phil, fiquei a saber que há um tipo nos Estados Unidos que tem um negócio online em que as pessoas lhe pagam para fazer telefonemas e romper relações, dar más notícias ou mesmo pedir o divórcio.

Conjugando esta informação com o facto de hoje de manhã, pela primeira vez em 35 anos de vida (e a experiência conjugada de milhões de seres humanos), ter deixado cair uma torrada e esta tombado com o lado barrado com manteiga para cima, é de concluir que estamos efectivamente próximos do fim do mundo.
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