Livros do Ano 2014

Como de costume, seguem as minhas escolhas. Como de costume escolho apenas de entre o que já li (na edição portuguesa ou noutras línguas antes de traduzido). Como de costume a ordem nada significa.

- Outras vozes, outros lugares de Truman Capote (Sextante). O romance de estreia de Capote e provavelmente a melhor coisa que escreveu.

- Karl Marx de Isaiah Berlin (Edições 70). A vantagem de uma biografia que foi sendo actualizada edição atrás de edição e aquilo que a torna num objecto único é a evolução da perspectiva do autor e da perspectiva sobre Marx ao longo de boa parte do século XX.

- A Invenção do Amor de José Ovejero (Alfaguara). Uma pequena pérola literária sobre as histórias que inventamos para nos embalarmos.

- Duzentos poemas de Emily Dickinson (Relógio d'Água). E. Dickinson é "a minha poetisa". Não posso dizer muito mais. Boa tradução.

- O Homem Verde de Kingsley Amis (Quetzal). Um dos meus livros preferidos de K. Amis. Uma história sobrenatural em que o mal toma conta da vida de um estalajadeiro do interior do reino unido. De certa forma é uma versão do "Castelo do homem ancorado" de Huysmans.

- 60 histórias de Donald Barthelme (Antígona). Barthelme é um pesadelo de para traduzir e nesta antologia como na anterior conseguimos, ainda assim, apanhar o essencial de um escritor que rompe os limites da ficção.

- Restaurante canibal de Gabriel Magalhães (Aletheia). Um "divertimento" de Gabriel magalhães que, como de costume, surpreende pela leveza da sua prosa.

- História e Utopia de E. M. Cioran (Letra Livre). Uma obra essencial do pensamento moderno.

- Jardins de cristais de Sérgio Rodrigues (Gradiva). Apesar de ser muito "tese" ainda assim um belíssimo livro. Um daqueles livros que só aparecem raramente mas ficam como referência.

- Notícias em três linhas de Félix Fénéon (Exclamação). Se eu tivesse de escolher um livro do ano, este seria um provável candidato. Bela estreia para a colecção dirigida pelo Rui Manuel Amaral. (ah, e sim, o micro-conto tem bem mais de 100 anos mas essa conversa ficará para segundas núpcias.)

- Mar de Afonso Cruz (Alfaguara). Novo tomo da enciclopédia que Afonso Cruz tem vindo a escrever. Sempre original.

- Diários de George Orwell (Dom Quixote).

- Obcénica de Hilda Hilst e André da Loba (Orfeu Negro). O livro mais fresco do ano.

- A Conversa de Bolzano de Sándor Márai (Dom Quixote). Um dos maiores romances da literatura europeia moderna. O romance fundamental de Márai. Não li esta tradução.

- A Imperatriz Viúva - Cixi, a Concubina Que Mudou a China de Jung Chang (Quetzal). Uma das biografias do ano; a autora de Cisnes Selvagens, revela a importância da mulher que segurou a China impedindo o seu estilhaçar. Não li esta tradução.

- Um bárbaro em casa de Frederico Pedreira (Língua Morta). Os primeiros dois contos estão mal revistos mas mesmo assim a leitura prende. Li poucos autores nacionais este ano mas este livro foi um dos melhores e uma boa surpresa.

- A estrada para Oxiana de Robert Byron (Tinta-da-china). Quiçá o melhor livro da magnífica colecção dirigida pelo Carlos Vaz Marques. Só não o digo expressamente porque não li todos. Não li esta tradução.

- Ética mínima de António Fidalgo (Gradiva). Um livro do qual ninguém escreveu e que passará despercebido mas que devia ser manual para a todos os portugueses.

- Nove História de J. D. Salinger (Quetzal). Mais um exemplo da escassa obra de Salinger que comprova o seu génio. Não li esta tradução)

- Contos e diários de Isaac Babel (Relógio d'Água). Aqui há uns anos atrás quase incluí o livro de contos de Isaac Babel publicado pela mesma editora na minha lista de livros do ano e não quis deixar de lado a oportunidade de comentar que me incomodava o facto de ser uma selecção de 300 e tal páginas quando os contos completos do autor tinham pouco mais de 400 páginas. Presumo que esta seja a edição completa acrescida dos Diários. Um livro essencial da literatura moderna. Não li esta tradução.

- O visitante da noite & outros contos de B. Traven (Antígona). O misterioso B. Traven, um dos maiores enigmas da literatura moderna, volta às livrarias décadas depois da edição da sua obra-prima. Eu estive quase a apanhar o autor quando estava na Babel. Fico contente que apareça finalmente em português e espero mais obras. Não li esta tradução.

- Obra Escrita. Volume I de João César Monteiro (Letra livre). Como é que, até agora, este livro não apareceu em nenhuma das listas de livros do ano?? Façam-se o favor de comprar e deleitem-se.

- Nós, Os Afogados de Carsten Jensen (Bertrand). Romance narrado por uma aldeia. Épico marítimo, história de navegadores, uma saga nórdica moderna. Não li esta tradução mas como é do João Reis, deve ser boa.

- Contos e Novelas de Saul Bellow Vol 1  (Relógio d'Água). Mais outro livro ignorado em quase todas as escolhas do ano. Não li esta tradução.

- A casa azul de Cláudia Clemente (Planeta). Romance de estreia da Cláudia Clemente que se narra a 4 vozes que correspondem aos elementos e constroem um puzzle que atravessa a história de Portugal durante o regime salazarista e após. Lê-se como um policial em que o crime é a paixão (seja ela pelo cinema ou por seres humanos).

- Autobiografia de Thomas Bernhard (Sistema Solar). A Sistema Solar continua a tradição editorial da A&A na publicação T. Bernhard com a edição da biografia literária do ano.

- Uivo e Outros Poemas de Allen Ginsberg (Relógio d'Água). Deve ser complicado para os críticos falar do livro de poesia mais lido da história da literatura americana, imagino que o silêncio nas escolhas do ano se deva à dicotomia difícil de resolver entre um livro comercialmente bem sucedido e o facto de ser poesia. Não li esta tradução.

- A Sombra da Rota da Seda de Colin Thubron (Bertrand). Para rivalizar com o livro de Robert Byron. Talvez o melhor livro de viagens publicado este ano; o de Byron é já um clássico, este provavelmente virá a sê-lo. Não li esta tradução.

- Stoner de John Williams (Dom Quixote). Nunca imaginei ver este livro publicado entre nós. Parabéns a quem teve a coragem de o editar. John Williams, juntamente com Richard G. Sterne são aquilo que a crítica americana costuma designar por "writers' writers" ou seja, escritores para escritores. Stoner é o melhor livro de Williams e um dos poucos romances modernos americanos dignos de nota.

- Os luminares de Eleanor Catton (Bertrand). Um calhamaço como já não sói. Um romance como já não sói. Vencedor do Booker há um ou dois anos atrás, o livro da canadiana nascida na Nova Zelândia (ou será que é o contrário?) é um objecto estranho na literatura moderna, um grande romance paisagem sobre um crime e a sua investigação numa pequena cidadezinha onde um aparente crime une todos os homens de poder de uma comunidade em formação no salão de um hotel e um estranho acabado de chegar se propõe a ouvir a história que cada um tem para contar. Grande livro, em todos os sentidos. Não li esta tradução.

- Sobre a violência de Hannah Arendt (Relógio d'Água). H.Arendt é provavelmente uma das vozes mais importantes do século XX. magnífico é que vão aparecendo livros seus, revelando espantosamente a sua actualidade (e não estou a falar de situações concretas,a violência de que fala a autora e tudo o que aborda é sempre supra histórico ainda que baseado na vivência que teve de momentos de viragem na história do século XX).

- Contos Reunidos de Aldous Huxley (Antígona). Huxley tem vindo a ser posto um pouco de lado sem qualquer justificação. A Antígona está, felizmente, a salvá-lo do oblívio. Não li esta tradução.

- O Demónio na Cidade Branca de Erik Larson  (Bertrand). Brilhante livro de história narrativa e investigação histórica que segue o caso verdadeiro de uma perseguição a um serial-killer em pleno auge do nazismo. Lê-se como um romance apesar da riqueza de pormenores e informações. Não li esta tradução.

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Por último apenas uma nota: ouvi a notícia no começo do ano que seria apresentada uma tradução do notável "Anatomia da Melâncolia" de Demócrito, o Novo (pseudónimo do monge Robert Burton). Cairam-me os queixos. É um dos meus clássicos de eleição mas, bolas! tem quase 1000 páginas. Eis portanto a minha surpresa quando vejo uma edição que mal chega às 200 páginas publicada pela Quetzal.

Creio que já o disse em tempos mas não gosto de versões condensadas. esta edição pretende ser uma espécie de best-of, uma antologia dos melhores momentos mas isso não se pode fazer a um livro que flui como um todo (muito menos a um livro que não está disponível na sua completude no nosso mercado). Gaste-se dinheiro noutra qualquer edição e não se façam crimes destes.

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