De novo Isaac Bashevis Singer
1 comentários sexta-feira, 27 de julho de 2012"Fiction in general should never become analyic. As a matter of fact, the writer of fiction should not even try to dabble in psychology and its various isms. Genuine Literature informs while it entertains. it manages to be both clear and profound. It has the magical power of merging causality with purpose, doubt with faith, the passions of the flesh with the yearnings of the soul. It is unique and general, national and universal, realistic and mystical. While it tolerates commentary by others, it should never try to explain itself. Those obvious truths must be emphatized, because false criticism and pseudo-originality have created a state of literary amnesia in our generation. The zeal for messages has made many writersforget that storytelling is the raison d'être of artistic prose."
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Da note do autor a The Collected Short-stories, NY, 1981
Clara Ferreira Alves e a falta de cultura
8 comentários quarta-feira, 25 de julho de 2012A recente crónica de Clara Ferreira Alves (CFA) "É a falta de cultura, estúpido", constituí um bom retrato do que se passa no nosso país e em boa parte do mundo. Ainda assim nalguns pontos acho que foi longe de mais e noutros acho que não teve coragem para dizer o que queria - ou espaço.
O Modernismo e os modernistas já falavam abertamente da nova era a que se chegava em que nada surgia de diferente ou inovador. A arte e a cultura"novas" teriam de ser re-arranjos originais do pré-existente. Tudo o que veio depois do Modernismo é isso: tentativa de moldar novas conexões com materiais antigos.
O problema nunca seria a cópia mas a má cópia, a cópia que perde qualidade relativamente ao original.
Para mim toda essa discussão é inútil e pouco acertada.
CFA esteve quase lá mas não disse o que tinha de ser dito. Não é verdade que a elite culta (ou consumidora de cultura) seja velha e não tenha sucessores. E sobretudo não é verdade que esteja a diminuir ou desaparecer. Sempre foi estupidamente reduzida. Sempre teve presença minoritária no poder, na religião, na Universidade, na administração, nas ciências, etc., etc. O problema é que actualmente foi empurrada para fora dos círculos de decisão. A Cultura, outrora respeitada, deixou de ser pertinente.
E qual o mal que isso arrasta? Um mal simples e terrivelmente pernicioso: a ausência de memória. A Cultura é memória, mais! é memória abrangente, diversa, polifónica, transversal. E é claro que num mundo "especializado", a visão de conjunto, a escolástica, a pluralidade do conhecimento, não têm lugar.
Sem memória repete-se o erro. Sem memória perde-se a civilização. Os exemplos vêem de todo o mundo: em virtude de um qualquer evento que prive a sociedade de um qualquer "bem" adquirido (electricidade, comida, água, gás, transportes, etc.) a população dá imediatamente o passo seguinte: o passo para o caos e para a barbárie. Motins, vandalismo, violência gratuíta.
A Cultura é a base de dados do que a Humanidade adquiriu - daí que eu deteste que se associe cultura com a Literatura. A Cultura tem de ser geral. Tem de ser um repositório do Homem integral. Das ciências humanas mas também das exactas; tem de ser o arquivo das conquistas da sociedade e dos seus fundamentos. E tem de ser transmitida transversalmente: não se aprendem valores sem conhecimentos, não se aprende disciplina sem organização/ordem, não se avança sem uma boa base de passado.
A diferença é visível e compreensível se compararmos Portugal e a Islândia e as diferentes reacções perante a crise.
Nós vivemos cada vez mais para o nosso umbigo. A nossa especialização é em nós mesmos (daí o Ministro Relvas ser Dr. antes de ser Dr.). Daí podermos atropelar os outros sem pruridos. Daí podermos ser espezinhados sem nos agitarmos.
E o problema actual foi que ao deixar-se afastar do respeito e da sua pequena mas pertinente influência junto do poder, a elite culta não tem força para lá voltar. A culpa não foi do Jornalismo, não foi da Política, não foi da Filosofia; a culpa foi da elite culta que foi preguiçosa. Que se demoveu das suas obrigações societárias.
Qual a única solução que vejo? Que a Elite culta forme os seus sucessores, que estes façam o mesmo para os que se hão-de seguir. Uma boa formação, o despertar do interesse, da motivação e do mérito conseguem angariar mais fiéis. É um trabalho de fundo e de fé. As próximas gerações terão pouca ou nenhuma percepção dos resultados. Não tentemos salvar todos, tentemos salvar os possíveis.
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O Modernismo e os modernistas já falavam abertamente da nova era a que se chegava em que nada surgia de diferente ou inovador. A arte e a cultura"novas" teriam de ser re-arranjos originais do pré-existente. Tudo o que veio depois do Modernismo é isso: tentativa de moldar novas conexões com materiais antigos.
O problema nunca seria a cópia mas a má cópia, a cópia que perde qualidade relativamente ao original.
Para mim toda essa discussão é inútil e pouco acertada.
CFA esteve quase lá mas não disse o que tinha de ser dito. Não é verdade que a elite culta (ou consumidora de cultura) seja velha e não tenha sucessores. E sobretudo não é verdade que esteja a diminuir ou desaparecer. Sempre foi estupidamente reduzida. Sempre teve presença minoritária no poder, na religião, na Universidade, na administração, nas ciências, etc., etc. O problema é que actualmente foi empurrada para fora dos círculos de decisão. A Cultura, outrora respeitada, deixou de ser pertinente.
E qual o mal que isso arrasta? Um mal simples e terrivelmente pernicioso: a ausência de memória. A Cultura é memória, mais! é memória abrangente, diversa, polifónica, transversal. E é claro que num mundo "especializado", a visão de conjunto, a escolástica, a pluralidade do conhecimento, não têm lugar.
Sem memória repete-se o erro. Sem memória perde-se a civilização. Os exemplos vêem de todo o mundo: em virtude de um qualquer evento que prive a sociedade de um qualquer "bem" adquirido (electricidade, comida, água, gás, transportes, etc.) a população dá imediatamente o passo seguinte: o passo para o caos e para a barbárie. Motins, vandalismo, violência gratuíta.
A Cultura é a base de dados do que a Humanidade adquiriu - daí que eu deteste que se associe cultura com a Literatura. A Cultura tem de ser geral. Tem de ser um repositório do Homem integral. Das ciências humanas mas também das exactas; tem de ser o arquivo das conquistas da sociedade e dos seus fundamentos. E tem de ser transmitida transversalmente: não se aprendem valores sem conhecimentos, não se aprende disciplina sem organização/ordem, não se avança sem uma boa base de passado.
A diferença é visível e compreensível se compararmos Portugal e a Islândia e as diferentes reacções perante a crise.
Nós vivemos cada vez mais para o nosso umbigo. A nossa especialização é em nós mesmos (daí o Ministro Relvas ser Dr. antes de ser Dr.). Daí podermos atropelar os outros sem pruridos. Daí podermos ser espezinhados sem nos agitarmos.
E o problema actual foi que ao deixar-se afastar do respeito e da sua pequena mas pertinente influência junto do poder, a elite culta não tem força para lá voltar. A culpa não foi do Jornalismo, não foi da Política, não foi da Filosofia; a culpa foi da elite culta que foi preguiçosa. Que se demoveu das suas obrigações societárias.
Qual a única solução que vejo? Que a Elite culta forme os seus sucessores, que estes façam o mesmo para os que se hão-de seguir. Uma boa formação, o despertar do interesse, da motivação e do mérito conseguem angariar mais fiéis. É um trabalho de fundo e de fé. As próximas gerações terão pouca ou nenhuma percepção dos resultados. Não tentemos salvar todos, tentemos salvar os possíveis.
A grande História de José Hermano Saraiva
3 comentários domingo, 22 de julho de 2012Tem-me irritado bastante ver as reacções de grande parte da comunidade de historiadores e "gente de cultura" à morte de José Hermano Saraiva. Sobretudo e em primeiro lugar porque não são reacções ao falecimento mas à pessoa. Não é nem o tempo nem o lugar de as fazerem. É uma tremenda falta de respeito para com familiares e amigos. (Uma situação que parece começar a generalizar-se no âmbito da cultura.)
Em segundo lugar as críticas que são feitas - de que se tratava de um falso historiador, de um romancista/ficcionista da história dando importância à lenda e a história sensacionalista e sem bases - é uma crítica falhada. Na minha relação com os programas do JHS sempre senti o entusiasmo que passava e a notável capacidade de criar ligações entre as várias histórias. Isso é e foi sempre sinal de inteligência. Raramente me lembro de o ter ouvido a dizer que era historiador. Considerava-se um divulgador de História e, neste país de incultos, conseguir transmitir como ele o fez, entusiasmo e vontade de saber, conseguir levar pessoas a visitar os locais que referia e interessar as populações locais pelos seus monumentos e lendas (coisas que nunca aconteceria de outra maneira), é obra. E quem quisesse saber mais ou quem quisesse saber a "verdade", que investigasse - ele deixava as pistas. No meu entendimento esse é o verdadeiro valor do "ensino": despertar curiosidade e entusiasmo porque só desses pode partir a vontade individual de saber mais. O ensino massacrante e monocórdico de factos, o despejar de conhecimentos de forma insossa é estéril.
Se eu fizer um inventário de tudo o que me levou sempre a interessar-me pela História e pelas suas personagens e eventos, dou por mim a pensar nos desenhos animados das "Misteriosas Cidades do Ouro" que me levaram a comprar, ainda miúdo, vários livros 'sérios' sobre as civilizações pré-colombianas. Ainda hoje sei dizer nomes complicados de cidades Maias e Incas bem como a ordem cronológica das civilizações ou a sua dispersão geográfica. E sei muito bem que os Olmecas não eram uma tribo de extra-terrestres. Os romances históricos de Walter Scott que me deixaram ainda hoje um interesse tremendo pelo período das cruzadas a tal ponto que quando vi o filme "O reino dos céus" do Ridley Scott me ri dos erros históricos - tinha investigado muito no intervalo de tempo da minha leitura de "O talismã" com 11/12 anos até a essa altura - isso não me impediu de gostar do filme e ver, também, as algumas coisas certas que lá estavam retratadas. Após o filme fui comprar uma caríssima e única existente biografia do Rei leproso de Jerusalém.
Os exemplos acima são apenas dois dos muitos que poderia referir. Mas gostava mesmo que a maioria dos críticos de JHS olhasse para a sua memória consciente e me dissesse o que os motivou e cativou para a História. Tenho a certeza que a maior parte terá pontos de ligação com experiências semelhantes às minhas ou com leituras dos grandes livros da historiografia romântica - tão próximos afinal dos programas de JHS. A ficção é a melhor maneira de despertar interesse para a pesquisa da verdade. Mas os limitados que acham que a ficção é composta apenas de uma camada, que não há intenção, que não há emoção que não há o mistério que leva ao caminho para a Luz (não o estádio); esses serão sempre os falhados na sua capacidade de motivar e iluminar os outros.
Nada nesta vida é plano e uno. Nada na História é o que é. Estou a ler agora a única biografia de Tamerlão - se não sabem quem foi, investiguem - e a descobrir que anos de historiografia oficial chinesa e sobretudo soviética criaram uma parede de desinformação que ainda hoje leva os que procuram saber alguma verdade a lutar contra moinhos.
Já não me lembro quem disse que a História era escrita pelos vencedores. É uma verdade e nessa guerra JHS levou a melhor contra todos os outros. Se metade da "sua" História eram mentiras, lendas e factos por confirmar, não me interessa. Tenho a certeza de que quem seguiu os seus programas ainda hoje, ao viajar pelo nosso país pára nos monumentos e visita os museus locais para saber mais, conhecer lendas, e perceber o que realmente se passou. O resto são egos feridos.
p.s. E não me venham com a velha história do comentário cobarde pós 25 de Abril de que Camões era um trabalhador. Naquele tempo e para JHS que tinha sido Ministro do Estado Novo essa foi a estratégia de sobrevivência e provavelmente a maneira de ficar num país que amava e cuja História o inspirava. Cobardes somos nós que deixamos os nossos governantes espezinhar-nos e cortamos na casaca de quem acabou de morrer.
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Em segundo lugar as críticas que são feitas - de que se tratava de um falso historiador, de um romancista/ficcionista da história dando importância à lenda e a história sensacionalista e sem bases - é uma crítica falhada. Na minha relação com os programas do JHS sempre senti o entusiasmo que passava e a notável capacidade de criar ligações entre as várias histórias. Isso é e foi sempre sinal de inteligência. Raramente me lembro de o ter ouvido a dizer que era historiador. Considerava-se um divulgador de História e, neste país de incultos, conseguir transmitir como ele o fez, entusiasmo e vontade de saber, conseguir levar pessoas a visitar os locais que referia e interessar as populações locais pelos seus monumentos e lendas (coisas que nunca aconteceria de outra maneira), é obra. E quem quisesse saber mais ou quem quisesse saber a "verdade", que investigasse - ele deixava as pistas. No meu entendimento esse é o verdadeiro valor do "ensino": despertar curiosidade e entusiasmo porque só desses pode partir a vontade individual de saber mais. O ensino massacrante e monocórdico de factos, o despejar de conhecimentos de forma insossa é estéril.
Se eu fizer um inventário de tudo o que me levou sempre a interessar-me pela História e pelas suas personagens e eventos, dou por mim a pensar nos desenhos animados das "Misteriosas Cidades do Ouro" que me levaram a comprar, ainda miúdo, vários livros 'sérios' sobre as civilizações pré-colombianas. Ainda hoje sei dizer nomes complicados de cidades Maias e Incas bem como a ordem cronológica das civilizações ou a sua dispersão geográfica. E sei muito bem que os Olmecas não eram uma tribo de extra-terrestres. Os romances históricos de Walter Scott que me deixaram ainda hoje um interesse tremendo pelo período das cruzadas a tal ponto que quando vi o filme "O reino dos céus" do Ridley Scott me ri dos erros históricos - tinha investigado muito no intervalo de tempo da minha leitura de "O talismã" com 11/12 anos até a essa altura - isso não me impediu de gostar do filme e ver, também, as algumas coisas certas que lá estavam retratadas. Após o filme fui comprar uma caríssima e única existente biografia do Rei leproso de Jerusalém.
Os exemplos acima são apenas dois dos muitos que poderia referir. Mas gostava mesmo que a maioria dos críticos de JHS olhasse para a sua memória consciente e me dissesse o que os motivou e cativou para a História. Tenho a certeza que a maior parte terá pontos de ligação com experiências semelhantes às minhas ou com leituras dos grandes livros da historiografia romântica - tão próximos afinal dos programas de JHS. A ficção é a melhor maneira de despertar interesse para a pesquisa da verdade. Mas os limitados que acham que a ficção é composta apenas de uma camada, que não há intenção, que não há emoção que não há o mistério que leva ao caminho para a Luz (não o estádio); esses serão sempre os falhados na sua capacidade de motivar e iluminar os outros.
Nada nesta vida é plano e uno. Nada na História é o que é. Estou a ler agora a única biografia de Tamerlão - se não sabem quem foi, investiguem - e a descobrir que anos de historiografia oficial chinesa e sobretudo soviética criaram uma parede de desinformação que ainda hoje leva os que procuram saber alguma verdade a lutar contra moinhos.
Já não me lembro quem disse que a História era escrita pelos vencedores. É uma verdade e nessa guerra JHS levou a melhor contra todos os outros. Se metade da "sua" História eram mentiras, lendas e factos por confirmar, não me interessa. Tenho a certeza de que quem seguiu os seus programas ainda hoje, ao viajar pelo nosso país pára nos monumentos e visita os museus locais para saber mais, conhecer lendas, e perceber o que realmente se passou. O resto são egos feridos.
p.s. E não me venham com a velha história do comentário cobarde pós 25 de Abril de que Camões era um trabalhador. Naquele tempo e para JHS que tinha sido Ministro do Estado Novo essa foi a estratégia de sobrevivência e provavelmente a maneira de ficar num país que amava e cuja História o inspirava. Cobardes somos nós que deixamos os nossos governantes espezinhar-nos e cortamos na casaca de quem acabou de morrer.
Um prazer raro
0 comentários sexta-feira, 18 de maio de 2012Sabem quando nós andamos a dizer uma coisa e a maior parte das pessoas a quem o dizemos, especialistas todos na matéria, nos ouvem como se estivéssemos a dizer disparates? Há muito tempo que digo umas coisas que penso sobre a modernidade e pós modernidade literária, sobre aquilo que acho que o modernismo (que trouxe algumas coisas boas) fez de mal pela literatura e pela noção de comunicação necessária entre escritor e leitor. E de vez em quando sinto-me só nessa opinião.
Hoje abri o calhamaço das Collected Stories de Isaac Bashevis Singer e li a magnífica nota de autor cujo segundo parágrafo reza da seguinte maneira:
«In the process of creating them [the stories], I have become aware of the many dangers that lurk behind the writer of fiction. The worst of them are: 1. The idea that the writer must be a sociologist and a politician, adjusting himself to what are called social dialectics. 2. Greed for money and quick recognition. 3. Forced originality - namely, the illusion that pretentious rhetoric, precious innovations in style, and playing with artificial symbols can express the basic and ever-changing nature of human relations, or reflect combinations and complications of heredity and environment. These verbal pitfalls of so-called "experimental" writing have done damage even to genuine talent; they have destroyed much of modern poetry by making it obscure, esoteric, and charmless. Imagination is one thing, and the distortion of what Spinoza called "the order of things" is something else entirely. Literature can very well describe the absurd, but it should never be absurd itself.»
Soube bem.
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Hoje abri o calhamaço das Collected Stories de Isaac Bashevis Singer e li a magnífica nota de autor cujo segundo parágrafo reza da seguinte maneira:
«In the process of creating them [the stories], I have become aware of the many dangers that lurk behind the writer of fiction. The worst of them are: 1. The idea that the writer must be a sociologist and a politician, adjusting himself to what are called social dialectics. 2. Greed for money and quick recognition. 3. Forced originality - namely, the illusion that pretentious rhetoric, precious innovations in style, and playing with artificial symbols can express the basic and ever-changing nature of human relations, or reflect combinations and complications of heredity and environment. These verbal pitfalls of so-called "experimental" writing have done damage even to genuine talent; they have destroyed much of modern poetry by making it obscure, esoteric, and charmless. Imagination is one thing, and the distortion of what Spinoza called "the order of things" is something else entirely. Literature can very well describe the absurd, but it should never be absurd itself.»
Soube bem.
O desemprego (piadinha)
2 comentários quinta-feira, 12 de abril de 2012
Recebi hoje o seguinte e-mail intitulado, como podem verificar "A Page Personnel dá-lhe os parabéns pelo seu novo desafio profissional":
Achei que era devida uma resposta.
Prezados Senhores,
Estou
habituado a receber muita publicidade por e-mail, mas esta está ao nível
da de uma escola de línguas que no Natal passado me desejou "Marry
Christmas" (com a maior seriedade e um excelente design). Com efeito e
depois de me ter inscrito na Michael Page sem voltar a ter um contacto
desse lado há mais de 3 anos, recebo a publicidade abaixo em que me
informam que eu sou um dos 53 profissionais que encontrou emprego no
primeiro trimestre de 2012 (facto que surpreende de todo pois, ao que sei, continuo desempregado).
Acho
absolutamente brilhante o respeito que evidenciam pela situação
precária de quem, efectivamente, está desempregado. Falta muita ética
no mundo laboral em Portugal, mas tal é compreensível quando exemplos destes
chegam através de uma firma com a reputação internacional da Michael
Page. Se por acaso acham que as letrinhas pequenas acima do anúncio - que indicam
"publicidade" - conseguem tirar a piada à piada estão enganados.
Eu dava umas liçõezinhas de moral ao vosso director de marketing, dava - podem contratar-me para rever a vossa publicidade e campanhas: levo pouco e faço um excelente trabalho!
Sem outro assunto
Hugo Xavier
Bibliografia Geral da Edição e do Livro
1 comentários terça-feira, 13 de março de 2012A pedido de vários amigos e conhecidos, disponibilizo AQUI uma bibliografia de tudo aquilo que ao longo dos anos fui consultando e considero relevante por um ou outro motivo dentro da área da indústria e negócio do livro (que é, também para muitos, uma arte).
Sugestões, acréscimos e críticas são bem-vindas em comentário e devidamente consideradas para incluão na lista.
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Sugestões, acréscimos e críticas são bem-vindas em comentário e devidamente consideradas para incluão na lista.
The winner takes it all
0 comentários segunda-feira, 30 de janeiro de 2012Passos Coelho anunciou que espera através da sua plataforma digital que os portugueses dêem boas ideias para o país. Não é mal pensado. Ainda por cima se considerarmos a falta de ideias crónica de que manda.
Mas depois e para confirmar o diagnóstico de demência ao qual todos já chegámos relativamente à classe política vem a questão da forma como isto é organizado.
Vão ao site e divirtam-se.
Passo a explicar: qualquer pessoa (não há mal nenhum nisso) pode criar o seu movimento. A seguir cria uma página do facebook e quem tiver mais votos tem direito a (rufam os tambores) uma "audiência com o primeiro ministro de Portugal".
Passo a explicar melhor:
Primeiro coloquemos de lado a hipótese de o projecto vencedor ser uma palermada tipo "Luís Filipe Vieira para primeiro ministro". É o mais provavel vencedor mas enfim...
Consideremos então que os os projectos mais votados são importantes, são revolucionários e podem dar, efectivamente, mais valias ao país. O projecto vencedor é ouvido pelo primeiro-ministro.
Quer isto dizer várias coisas:
- se houver 40 projectos excepcionais - um poderá ser apresentado e defendido.
- se o projecto vencedor for ouvido, nada nos garante qualquer tipo de execussão prática.
- o Luís Filipe Vieira nunca será primeiro-ministro.
Meu deus - se se gasta o nosso dinheirinho para fazer plataformas digitais que se façam as coisas seriamente e com valores democráticos. Uma brincadeira destas é uma vergonha, mais uma vergonha...
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Mas depois e para confirmar o diagnóstico de demência ao qual todos já chegámos relativamente à classe política vem a questão da forma como isto é organizado.
Vão ao site e divirtam-se.
Passo a explicar: qualquer pessoa (não há mal nenhum nisso) pode criar o seu movimento. A seguir cria uma página do facebook e quem tiver mais votos tem direito a (rufam os tambores) uma "audiência com o primeiro ministro de Portugal".
Passo a explicar melhor:
Primeiro coloquemos de lado a hipótese de o projecto vencedor ser uma palermada tipo "Luís Filipe Vieira para primeiro ministro". É o mais provavel vencedor mas enfim...
Consideremos então que os os projectos mais votados são importantes, são revolucionários e podem dar, efectivamente, mais valias ao país. O projecto vencedor é ouvido pelo primeiro-ministro.
Quer isto dizer várias coisas:
- se houver 40 projectos excepcionais - um poderá ser apresentado e defendido.
- se o projecto vencedor for ouvido, nada nos garante qualquer tipo de execussão prática.
- o Luís Filipe Vieira nunca será primeiro-ministro.
Meu deus - se se gasta o nosso dinheirinho para fazer plataformas digitais que se façam as coisas seriamente e com valores democráticos. Uma brincadeira destas é uma vergonha, mais uma vergonha...
Esclarecimento
2 comentários segunda-feira, 23 de janeiro de 2012Em virtude de uma série de situações que ultimamente se têm levantado
relativas ao insulto do Editor Jorge Reis-Sá ao recém-falecido escritor
Rui Costa, queria clarificar os seguintes pontos:
1.
Já não trabalho na Babel, por vontade dessa empresa, desde o começo de Outubro de 2011.
2.
No final de 2010, através do Ricardo Álvaro (consultor editorial), foi-me apresentado um romance original do escritor Rui Costa. Esse romance, no meu entender, era uma obra de grande qualidade que merecia publicação. Isso mesmo tive oportunidade de comunicar ao Rui com quem, depois de apresentado um plano editorial devidamente autorizado pela Direcção da Babel, foi assinado um contrato para futura publicação. Eu fui sempre o editor responsável pelo projecto.
3.
Por indicação dessa mesma Direcção esse e outros livros foram sendo adiados até ao momento da minha saída. Ao que sei o projecto foi entregue a outro editor da casa (que não o Director Editorial Jorge Reis-Sá).
4.
Desde a minha saída e depois de explicar a situação ao Rui não voltei a ter contacto com ele.
5.
Tive conhecimento das recentes afirmações do Director Editorial da Babel Jorge Reis-Sá e quero desde já demarcar-me publicamente da posição assumida por essa editora através do seu Director Editorial. Coloco-me à inteira disposição da família do Rui Costa para qualquer esclarecimento ou auxílio dentro do que são os meus conhecimentos relativos a esta situação.
6.
Considero os comentários de Jorge Reis-Sá como desumanos e e de uma violência extrema para com a família, amigos e sobretudo para o próprio Rui.
7.
Posso afirmar que a Babel tem uma política de comunicação rígida e que qualquer funcionário só está autorizado a fazer quaisquer declarações públicas sobre qualquer assunto relacionado com a editora, os seus autores, as suas políticas, etc. quando autorizado por uma direcção de comunicação.
8.
Jorge Reis-Sá sabia perfeitamente que o livro estava no programa editorial.
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1.
Já não trabalho na Babel, por vontade dessa empresa, desde o começo de Outubro de 2011.
2.
No final de 2010, através do Ricardo Álvaro (consultor editorial), foi-me apresentado um romance original do escritor Rui Costa. Esse romance, no meu entender, era uma obra de grande qualidade que merecia publicação. Isso mesmo tive oportunidade de comunicar ao Rui com quem, depois de apresentado um plano editorial devidamente autorizado pela Direcção da Babel, foi assinado um contrato para futura publicação. Eu fui sempre o editor responsável pelo projecto.
3.
Por indicação dessa mesma Direcção esse e outros livros foram sendo adiados até ao momento da minha saída. Ao que sei o projecto foi entregue a outro editor da casa (que não o Director Editorial Jorge Reis-Sá).
4.
Desde a minha saída e depois de explicar a situação ao Rui não voltei a ter contacto com ele.
5.
Tive conhecimento das recentes afirmações do Director Editorial da Babel Jorge Reis-Sá e quero desde já demarcar-me publicamente da posição assumida por essa editora através do seu Director Editorial. Coloco-me à inteira disposição da família do Rui Costa para qualquer esclarecimento ou auxílio dentro do que são os meus conhecimentos relativos a esta situação.
6.
Considero os comentários de Jorge Reis-Sá como desumanos e e de uma violência extrema para com a família, amigos e sobretudo para o próprio Rui.
7.
Posso afirmar que a Babel tem uma política de comunicação rígida e que qualquer funcionário só está autorizado a fazer quaisquer declarações públicas sobre qualquer assunto relacionado com a editora, os seus autores, as suas políticas, etc. quando autorizado por uma direcção de comunicação.
8.
Jorge Reis-Sá sabia perfeitamente que o livro estava no programa editorial.
Posso explicar tudo?
0 comentários sexta-feira, 20 de janeiro de 2012Hoje estive a ouvir um pouco do debate na Assembleia da República sobre a questão dos transportes e senti-me iluminado. Queria partilhar convosco a razão de isto andar como anda.
Numa empresa em que trabalhei, chegou-se um dia à conclusão de que não havia dinheiro. Nunca passou pela cabeça de quem geria tal projecto que a gestão fosse inadequada - apesar desses gestores não saberem nada sobre a área da empresa que tinham sido convidados para gerir - a culpa era da crise.
Qualquer das pessoas que, como eu, andam cá já uns aninhos nas lides da área em que operava essa empresa percebiam que a gestão era inadequada ao negócio e às suas muito específicas circunstâncias e singularidades.
Como é um sector em crise crónica (não se esqueçam de ir fazendo paralelismos com o que se passa na governação de Portugal - e não só deste governo mas dos vários governos ao longo de anos e anos), achou o patrão que aquilo que faltava ao sector eram gestores.
E assim foi, chegados os gestores a um negócio que estava em processo de falência por todo o seu modelo ter sido pensado por quem nada sabia do sector (gestores também aconselhados por uma das pessoas com pior reputação na área - coisa que esses gestores nem se preocuparam em apurar), não conhecendo portanto o público-alvo/cliente e as suas necessidades e muito menos tendo conhecimentos que lhes permitissem avaliar a eficácia dos seus subalternos uma vez que não é posível avaliar sem se ter o conhecimento superior daquilo que se avalia, não conhecendo processos e muito menos percebendo a mecânica comercial do sector. Foi assim, dizia, que passados alguns meses os gestores comunicaram a sua solução para os problemas graves.
Primeiro chegou um e-mail que falava na redução de custos necessária: iria deixar de haver fruta na copa e pedia-se a maior cotenção possível na impressão de fotocópias e documentos. Com essas e outras medidas conseguiam reduzir imenso os custos. A seguir vieram os despedimentos.
Hoje na AR falava-se dos cortes de carreiras, linhas ferroviárias, percursos de barco e outros que vão impedir uma faixa da população de se deslocar e cortar, portanto, o acesso a educação ou saúde; cria-se uma situação complexa a quem não tem outro meio de deslocação para chegar ao seu local de trabalho; isolam-se algumas povoações, ostracizam-se outras votando-as ao degredo social e com tudo isso poupam-se cerca de 20 milhões de Euros ao ano em empresas que têm dívidas de milhares de milhões.
Meus amigos, como é que alguém espera ou pode esperar medidas concretas e "boas" por parte dos governantes quando estes nada sabem das áreas sobre as quais decidem e muito menos ouvem quem sabe?
Estou farto de dizer que só há uma maneira de se resolverem os problemas do país: os políticos portugueses deveriam ser absolutamente obrigados a usar o serviço nacional de saúde, os transportes públicos, os seus filhos deveriam estar em escolas públicas... se isto acontecesse estas pessoas poderiam ter intervenções úteis.
Não precisamos de responsabilizar criminalmente os políticos. Precisamos de os por ao nosso nível para que eles percebam os problemas de quem está abaixo do palanque.
Somos uma sociedade hipócrita em que quem manda grita mais alto. Quem manda vive rodeado de yespeople que ausculta os especialistas nas diversas áreas, mas depois verifica-se que esses especialistas afinal não são especialistas e sim pessoas que estão à frente de empresas e instituições por nomeação política. Ninguém sabe de nada, mas decidem sobre tudo. E fazem-no porque não os afecta directamente.
p.s. ouvido hoje numa paragem de autocarro:
- Opá o Catroga agora é que deve tar arrependido de se ter metido na política que bastava o passado dele nas grandes empresas para justificar que esteja na EDP e não dar azo a estas bocas...
- Hummm... mas se não se tivesse metido na política provavelmente nnca teria construído o passado que lhe permitiu estar hoje onde está.
read more “Posso explicar tudo?”
Numa empresa em que trabalhei, chegou-se um dia à conclusão de que não havia dinheiro. Nunca passou pela cabeça de quem geria tal projecto que a gestão fosse inadequada - apesar desses gestores não saberem nada sobre a área da empresa que tinham sido convidados para gerir - a culpa era da crise.
Qualquer das pessoas que, como eu, andam cá já uns aninhos nas lides da área em que operava essa empresa percebiam que a gestão era inadequada ao negócio e às suas muito específicas circunstâncias e singularidades.
Como é um sector em crise crónica (não se esqueçam de ir fazendo paralelismos com o que se passa na governação de Portugal - e não só deste governo mas dos vários governos ao longo de anos e anos), achou o patrão que aquilo que faltava ao sector eram gestores.
E assim foi, chegados os gestores a um negócio que estava em processo de falência por todo o seu modelo ter sido pensado por quem nada sabia do sector (gestores também aconselhados por uma das pessoas com pior reputação na área - coisa que esses gestores nem se preocuparam em apurar), não conhecendo portanto o público-alvo/cliente e as suas necessidades e muito menos tendo conhecimentos que lhes permitissem avaliar a eficácia dos seus subalternos uma vez que não é posível avaliar sem se ter o conhecimento superior daquilo que se avalia, não conhecendo processos e muito menos percebendo a mecânica comercial do sector. Foi assim, dizia, que passados alguns meses os gestores comunicaram a sua solução para os problemas graves.
Primeiro chegou um e-mail que falava na redução de custos necessária: iria deixar de haver fruta na copa e pedia-se a maior cotenção possível na impressão de fotocópias e documentos. Com essas e outras medidas conseguiam reduzir imenso os custos. A seguir vieram os despedimentos.
Hoje na AR falava-se dos cortes de carreiras, linhas ferroviárias, percursos de barco e outros que vão impedir uma faixa da população de se deslocar e cortar, portanto, o acesso a educação ou saúde; cria-se uma situação complexa a quem não tem outro meio de deslocação para chegar ao seu local de trabalho; isolam-se algumas povoações, ostracizam-se outras votando-as ao degredo social e com tudo isso poupam-se cerca de 20 milhões de Euros ao ano em empresas que têm dívidas de milhares de milhões.
Meus amigos, como é que alguém espera ou pode esperar medidas concretas e "boas" por parte dos governantes quando estes nada sabem das áreas sobre as quais decidem e muito menos ouvem quem sabe?
Estou farto de dizer que só há uma maneira de se resolverem os problemas do país: os políticos portugueses deveriam ser absolutamente obrigados a usar o serviço nacional de saúde, os transportes públicos, os seus filhos deveriam estar em escolas públicas... se isto acontecesse estas pessoas poderiam ter intervenções úteis.
Não precisamos de responsabilizar criminalmente os políticos. Precisamos de os por ao nosso nível para que eles percebam os problemas de quem está abaixo do palanque.
Somos uma sociedade hipócrita em que quem manda grita mais alto. Quem manda vive rodeado de yespeople que ausculta os especialistas nas diversas áreas, mas depois verifica-se que esses especialistas afinal não são especialistas e sim pessoas que estão à frente de empresas e instituições por nomeação política. Ninguém sabe de nada, mas decidem sobre tudo. E fazem-no porque não os afecta directamente.
p.s. ouvido hoje numa paragem de autocarro:
- Opá o Catroga agora é que deve tar arrependido de se ter metido na política que bastava o passado dele nas grandes empresas para justificar que esteja na EDP e não dar azo a estas bocas...
- Hummm... mas se não se tivesse metido na política provavelmente nnca teria construído o passado que lhe permitiu estar hoje onde está.
Schettino e un cretino!
0 comentários quinta-feira, 19 de janeiro de 2012Depois das recentes notícias que revelam que o comandante do cruzeiro afundado estava com uma loira
moldava, alta, de 25 anos, chamada Dominika, que não consta das listas
de passageiros e tripulação e que terá caído no mesmo bote juntamente
com o Comandante e o seu Imediato; começam a revelar-se cada vez mais
factos sobre a vida de Francesco Schettino.
Vídeos gravados por tripulantes explicam o árduo dia-a-dia do Comandante e dos tripulantes bem como das convidadas. Aqui está um desses vídeos revelados em primeira mão:
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Vídeos gravados por tripulantes explicam o árduo dia-a-dia do Comandante e dos tripulantes bem como das convidadas. Aqui está um desses vídeos revelados em primeira mão:
Estes são, efectivamente, os dias do Fim...
0 comentários quarta-feira, 18 de janeiro de 2012Com os meus horários desorganizados de português desempregado, cheguei há pouco a casa e, enquanto comia, liguei a televisão (coisa rara). Antes de ter capacidade de reacção e perceber que estava ante o programa do Dr. Phil, fiquei a saber que há um tipo nos Estados Unidos que tem um negócio online em que as pessoas lhe pagam para fazer telefonemas e romper relações, dar más notícias ou mesmo pedir o divórcio.
Conjugando esta informação com o facto de hoje de manhã, pela primeira vez em 35 anos de vida (e a experiência conjugada de milhões de seres humanos), ter deixado cair uma torrada e esta tombado com o lado barrado com manteiga para cima, é de concluir que estamos efectivamente próximos do fim do mundo.
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Conjugando esta informação com o facto de hoje de manhã, pela primeira vez em 35 anos de vida (e a experiência conjugada de milhões de seres humanos), ter deixado cair uma torrada e esta tombado com o lado barrado com manteiga para cima, é de concluir que estamos efectivamente próximos do fim do mundo.
Livros do Ano 2011
0 comentários quarta-feira, 11 de janeiro de 2012O ano viu a crise apertar. A meio dele escrevi um texto em que perguntava se nos aproximavamos do fim da edição tal como a conhecemos. Continuo a achar que sim caso não sejam tomadas medidas sérias pensadas e conhecedoras.
Contudo, a nível editorial propriamente dito, este ano, ainda mais que os dois anos anteriores, viram a qualidade das escolhas a esmerar-se. Infelizmente - e cada vez mais - desacompanhada da qualidade das traduções
Não estive tão atento ao ano editorial devido às flutuações do meu próprio momento profissional portanto as escolhas que faço são feitas com base em notas que fui tomando, certamente incompletas. Mas não são as escolhas anuais de qualquer pessoa, mesmo um crítico, limitadas? - incapaz que é de ler tudo e estar a par de tudo? Pelo meu lado, ainda assim, admito ter estado menos atento que em anos anteriores.
Assim e desde já, sem qualquer ordem de preferência:
1 - Memória do fogo (vol.1), de Eduardo Galleano (Livros de Areia)
2 - Poesia completa, de Manoel de Barros (Caminho)
3 - Ferdydurke, de Witold Gombrowicz (7 nós)
4 - Viver no Fim dos Tempos, de Slavoj Zizek (Relógio d'Água)
5 - Prosas Apátridas, de Julio Ramon Ribeyro (Ahab)
6 - Madrugada na tua alma, de Gabriel Magalhães (Aletheia)
7 - A História Não Acabou, de Cláudio Magris (Quetzal)
8 - Canções Mexicanas, de Gonçalo M. Tavares (Caminho)
9 - Puta Que os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco, de João Pedro George (Tinta da China)
10 - O Mundo de S J Perelman, de S.J. Perelman (Tinta da China)
11 - Caminhar no Gelo, de Werner Herzog (Tinta da China)
12 - Argumentos Para Filmes, de Fernando Pessoa (Ática)
13 - América, América, de Jorge de Sena (Guimarães Editores)
14 - Vieram como andorinhas, de William Maxwell (Sextante)
15 - A verdadeira história do bandido Maximiliano, de Jacinto Rego de Almeida (Sextante)
16 - A Escavação, de Andrei Platónov (Antígona)
17 - A Livraria, de Penelope Fitzgerald (Clube do Autor)
18 - Pornopopeia, de Reinaldo Moraes (Quetzal)
19 - Purga, de Sofi Oksanen (Alfaguara)
20 - Ondina, de La Motte-Fouqué (Antígona)
21 - Contos Completos (1947-1992), de Gabriel García Márquez (Dom Quixote)
22 - Garman & Worse, de Alexander Kielland (Eucleia)
23 - Os Buddenbrook, de Thomas Mann (Dom Quixote)
24 - O Chalet da Memória, Tony Judt (Edições 70)
25 - O Sentido do Fim, Julian Barnes (Quetzal)
26 - A Viagem de Felícia, William Trevor (Relógio d'Água)
27 - Amor e Verão, de William Trevor (Relógio d'Água)
28 - Lérias, de Miguel Martins (Averno)
29 - A arte de chorar em coro, de Erling Jepsen (Eucleia)
30 - Identidade e conflito, de Fernando Esteves Pinto (Lua de Marfim) - igualmente vencedor da pior capa do ano
31 - A Magia dos Números, de Yoko Ogawa (Quetzal)
32 - Memórias de um morto, Hjalmar Bergman (Eucleia)
read more “Livros do Ano 2011”
Contudo, a nível editorial propriamente dito, este ano, ainda mais que os dois anos anteriores, viram a qualidade das escolhas a esmerar-se. Infelizmente - e cada vez mais - desacompanhada da qualidade das traduções
Não estive tão atento ao ano editorial devido às flutuações do meu próprio momento profissional portanto as escolhas que faço são feitas com base em notas que fui tomando, certamente incompletas. Mas não são as escolhas anuais de qualquer pessoa, mesmo um crítico, limitadas? - incapaz que é de ler tudo e estar a par de tudo? Pelo meu lado, ainda assim, admito ter estado menos atento que em anos anteriores.
Assim e desde já, sem qualquer ordem de preferência:
1 - Memória do fogo (vol.1), de Eduardo Galleano (Livros de Areia)
2 - Poesia completa, de Manoel de Barros (Caminho)
3 - Ferdydurke, de Witold Gombrowicz (7 nós)
4 - Viver no Fim dos Tempos, de Slavoj Zizek (Relógio d'Água)
5 - Prosas Apátridas, de Julio Ramon Ribeyro (Ahab)
6 - Madrugada na tua alma, de Gabriel Magalhães (Aletheia)
7 - A História Não Acabou, de Cláudio Magris (Quetzal)
8 - Canções Mexicanas, de Gonçalo M. Tavares (Caminho)
9 - Puta Que os Pariu! A Biografia de Luiz Pacheco, de João Pedro George (Tinta da China)
10 - O Mundo de S J Perelman, de S.J. Perelman (Tinta da China)
11 - Caminhar no Gelo, de Werner Herzog (Tinta da China)
12 - Argumentos Para Filmes, de Fernando Pessoa (Ática)
13 - América, América, de Jorge de Sena (Guimarães Editores)
14 - Vieram como andorinhas, de William Maxwell (Sextante)
15 - A verdadeira história do bandido Maximiliano, de Jacinto Rego de Almeida (Sextante)
16 - A Escavação, de Andrei Platónov (Antígona)
17 - A Livraria, de Penelope Fitzgerald (Clube do Autor)
18 - Pornopopeia, de Reinaldo Moraes (Quetzal)
19 - Purga, de Sofi Oksanen (Alfaguara)
20 - Ondina, de La Motte-Fouqué (Antígona)
21 - Contos Completos (1947-1992), de Gabriel García Márquez (Dom Quixote)
22 - Garman & Worse, de Alexander Kielland (Eucleia)
23 - Os Buddenbrook, de Thomas Mann (Dom Quixote)
24 - O Chalet da Memória, Tony Judt (Edições 70)
25 - O Sentido do Fim, Julian Barnes (Quetzal)
26 - A Viagem de Felícia, William Trevor (Relógio d'Água)
27 - Amor e Verão, de William Trevor (Relógio d'Água)
28 - Lérias, de Miguel Martins (Averno)
29 - A arte de chorar em coro, de Erling Jepsen (Eucleia)
30 - Identidade e conflito, de Fernando Esteves Pinto (Lua de Marfim) - igualmente vencedor da pior capa do ano
31 - A Magia dos Números, de Yoko Ogawa (Quetzal)
32 - Memórias de um morto, Hjalmar Bergman (Eucleia)
De stagnatio
0 comentários segunda-feira, 9 de janeiro de 2012Que raio de país em que vivemos. Neste momento dividimo-nos entre quem não tem dinheiro (uma grande maor parte) e quem, tendo, está com medo e não se decide.
Incomoda-me esta letargia. Incomoda-me o facto de um páis que viveu acima das suas possibilidades mas que não sabe lidar com dificuldades. Um devedor, por mais idónea pessoa que seja, perde os seus valores morais quando confrontado com um credor. Assim, de um momento para o outro.
Esta é a altura para quem tem valor se unir a quem tem valor, para que as associações profissionais saiam da sua letargia de meros apoiantes e definam estratégias comuns de desenvolvimento.
Que problema é este que temos com responsabilidades? Tomemos decisões. Este é o momento!
Se não querem avançar então passem as responsabilidades. Referencemos já a venda do país, assim por todo, à China ou ao Brasil enquanto estes ainda se iludem sobre nós.
As crises sempre foram momentos de grande oportunidade para quem tem olho mas parece que andamos todos a olhar para o nosso umbigo.
Um amigo meu há uns anos defendia que os nossos exploradores, corajosos e audazes, os nossos colonos, os emigrantes... todos tinham partido e quem quem cá ficou eram descendentes do velho do Restelo.
Que problema é este que temos com responsabilidades? Tomemos decisões. Este é o momento!
Se não querem avançar então passem as responsabilidades. Referencemos já a venda do país, assim por todo, à China ou ao Brasil enquanto estes ainda se iludem sobre nós.
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Incomoda-me esta letargia. Incomoda-me o facto de um páis que viveu acima das suas possibilidades mas que não sabe lidar com dificuldades. Um devedor, por mais idónea pessoa que seja, perde os seus valores morais quando confrontado com um credor. Assim, de um momento para o outro.
Esta é a altura para quem tem valor se unir a quem tem valor, para que as associações profissionais saiam da sua letargia de meros apoiantes e definam estratégias comuns de desenvolvimento.
Que problema é este que temos com responsabilidades? Tomemos decisões. Este é o momento!
Se não querem avançar então passem as responsabilidades. Referencemos já a venda do país, assim por todo, à China ou ao Brasil enquanto estes ainda se iludem sobre nós.
As crises sempre foram momentos de grande oportunidade para quem tem olho mas parece que andamos todos a olhar para o nosso umbigo.
Um amigo meu há uns anos defendia que os nossos exploradores, corajosos e audazes, os nossos colonos, os emigrantes... todos tinham partido e quem quem cá ficou eram descendentes do velho do Restelo.
Que problema é este que temos com responsabilidades? Tomemos decisões. Este é o momento!
Se não querem avançar então passem as responsabilidades. Referencemos já a venda do país, assim por todo, à China ou ao Brasil enquanto estes ainda se iludem sobre nós.
Da sabedoria popular e da intuição popular
0 comentáriosOntem num combóio da linha de Cascais, diálogo entre um português e um estrangieiro de língua oficial portuguesa:
TUGA - É como nós dizemos por cá: é tudo p'a dourar a pila.
OUTRO - Qué isso?
TUGA - Pá, tipo é quando combinas cos amigos e eles dizem às namoradas, amigas da gaja que queres engatar, que tu tens uma pila de 30 centímetros. Tás a ver?
OUTRO - Ah.
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TUGA - É como nós dizemos por cá: é tudo p'a dourar a pila.
OUTRO - Qué isso?
TUGA - Pá, tipo é quando combinas cos amigos e eles dizem às namoradas, amigas da gaja que queres engatar, que tu tens uma pila de 30 centímetros. Tás a ver?
OUTRO - Ah.
2012
0 comentários sábado, 31 de dezembro de 2011
Caros,
Mais do que qualquer outra coisa queria desejar a cada um, neste 2012
que espreita, a crise que cada qual merece. Desejar muito sériamente que
a crise que não fizemos por merecer não nos bata à porta. Mas como
também imagino que acabe por bater, desejar para todos vós saúde,
comida, amigos e muita força.
Acho que 2012 vai ser um ano de limpeza, tudo o que estava podre vai acabar por cair e isso
significa básicamente cair tudo, mas será também o ano em que vamos ver
surgirem novas ideias, projectos, empresas e pela primeira vez em anos
haverá uma real preocupação em reunir a competência aliciando-a a
participar activamente nesses projectos.
A incompetência sufocante,
aquela que abafa o real valor por insegurança e incultura, tem de
desaparecer caso contrário desaparece o país, o continente.
Esta
revolução, porque o é, passa por cada um. Tem que ver com o grau de
exigência que colocamos em tudo o que fazemos. Não podemos desligar-nos e
continuar a apontar responsabilidades a quem manda. Quem manda está no
poder porque nós enquanto povo neles votamos e se não vemos entre eles
alternativas viáveis, mudemos o sistema, ofereçamo-nos nós, recomendemos
quem deveria...
A nossa responsabilidade é responsabilizarmos, a
começar por nós próprios; é exigirmos, a começar por nós próprios; e é
suar, a começar por nós próprios.
Mais do que meias-horas
adicionais, férias a menos ou subsídios eliminados, a competência e a
avaliação por mérito são a salvação do país.
Ficaria muito contente se isto acontecesse.
Que 2012 seja o ano de mudança porque nós a queremos e não por outro motivo qualquer.
Os outros livros do ano 2011
0 comentários sábado, 17 de dezembro de 2011Agora que estou desempregado, de novo, posso fazer coisas como escolher o top 10 dos livros que publiquei em 2011.
Assim e começando pelas menções de honra:
Com o corpo todo - de Paulo José Miranda - Ulisseia
Para mim como editor foi um prazer poder em primeiro lugar trazer de volta aos escaparates um autor que acho ser da maior importância no passado recente da literatura portuguesa, por outro lado a obra em si é um grito lancinante sobre uma geração que usa o sexo como forma de comunicação quando as palavras falham. É um romance selvático e quase primário na forma como descreve os laços mais frágeis que nos unem e a forma como por vezes nos esforçamos para os estilhaçar face à nossa dificuldade de lidar com o outro.
A última criança - de John Hart - Ulisseia - trad. Carmo Vasconcelos Romão
Uma das questões que me coloquei enquanto editor foi em que chancela deveria publicar este romance.
trata-se essencialmente de um thriller. Uma obra vencedora do Edgar Award (o mais prestigiado prémio para literatura policial nos EUA) e do Silver Dagger award (o congénere inglês).
Aquilo que me levou a decidir pela Ulisseia foi a importância social do livro. É certo que é um romance de suspense, uma obra empolgante que usa as fórmulas do romance policial e do thriller mas não deixa de ser um alerta poderoso para as fragilidades sociais que se tornam ainda mais evidentes em momentos de crise.
Viagens Brancas - de Ana Cristina Pereira - Arcádia
Sobretudo um livro no qual me orgulho de ter participado. Uma obra importante da mais importante jornalista a trabalhar hoje sobre questões sociais.
Cada capítulo uma pequena história (verídica) que liga a mulher ao mundo da droga, seja como mão, traficante, vendedora, filha, familiar, vizinha ou toxicodependente.
E agora os 10 melhores.
10.
Noite de Primavera - de Tarjei Vesaas - Ulisseia - trad. Mário Semião
Uma obra que editorialmente demorou a parir. Foi quase ano e meio e no entanto está aqui. Um dos grandes autores nórdicos nunca publicado em Portugal antes. Este é um buildung roman mas muito pouco comum. Está lá a perda de inocência, está lá a consciencialização de um mundo falhado mas há muito mais. Na história de Sissel e do seu irmão que recebem por uma noite uma família perdida e muito disfuncional, está uma alegoria dos nossos tempos. Escrita com uma linguagem cristalina e uma poesia imediata que fazem dele um dos grandes romances do nosso tempo e revelam bem porque é que Vesaas foi três vezes candidato ao Nobel.
9.
Os armário vazios - de Maria Judite de Carvalho - Ulisseia
Não me alongarei muito sobre mais um livro que é mais uma obra-prima da literatura portuguesa do século XX. Quem me conhece sabe o fascínio que nutro pela escrita de Maria Judite de carvalho e portanto imagina o prazer que foi poder trazer de novo à luz do dia este grande livro.
Como todos os livros de MJC, este fala-nos sobre a solidão, a ausência, o silêncio no meio das mil palavras. Mas como é já hábito mais do que o enredo ou qualquer outra coisa, a escrita é a principal personagem.
8.
15 dias de febre - de Maria do Carmo Castelo Branco - Verbo
Há uns anos atrás li a grande biografia de Baron Corvo por A. J. A. Symons que é considerada pela teoria literária como uma das mais inovadoras experiências em biografia pós-moderna.
acontece que esta biografia, escrita pela neta de Camilo, esta auto-psicografia escrita por outra pessoa vai muito mais longe. Enquanto obra literária é esmagadora, poderosa, diferente.
É um grande livro para uma esmagadora minoria.
7.
A pirâmide - de William Golding - Ulisseia - trad. João Cruz
Considerado pela crítica como o romance mais biográfico do prémio Nobel britânico, «A pirâmide» É também o mais humano dos romances de Golding; aquele que nos fala do ponto de vista, das nossas limitações e dos preconceitos sociais, aquele que nos fala claramente sobre a incapacidade de vermos o todo que nos rodeia e de nos vermos a nós mesmos fora de nós.
Mas é o mais divertido dos livros, o romance que segue um jovem protagonista numa clássica aldeia inglesa que decide não ser moleiro, oleiro, ferreiro, agricultor e sim ser artista. Os dados estão lançados. As gargalhadas vão soltar-se mas o que o romance nos conta, lá bem no fundo, é muito mais negro.
6.
Uma espécie de sono - de Henry Roth - Ulisseia - trad. de Miguel Martins
Hoje descobri que o Rogério Casanova tinha eleito este romance como um dos livros do ano de 2011. Na crítica que lhe fez, apontou o mesmo e único defeito que lhe vejo, defeito típico de todos os livros fundadores de um género, estilo ou corrente: aquilo que contém foi já trabalhado posteriormente e transformado em algo mais.
O livro de Henry Roth é um «Ulysses» - aliás têm sido comparado à obra de Joyce - , provavelmente o primero grande romance moderno, polifónico, polimórfico, que acompanha a vida de uma criança filha de emigrantes nas primeiras levas a chegar aos EUA no começo do século XX. Para a capa escolhemos uma fotografia que revela uma das fases de construção da estátua da liberdade que chegou em peças oferecida pela frança. O livro é também isso: um imenso puzzle sobre as peças que entram quer se queira quer não, na construção de uma pessoa num tempo e num país também eles em construção.
E fica também uma nota para a tradução impossível do Miguel Martins.
5.
Brutal - de Fernando Esteves Pinto - Ulisseia
Várias coisas obrigaram-me a publicar este livro. A primeira delas será o facto de em anos de receber milhares de originais, ver pela primeira vez um original que, à excepção de ligeiras correcções de texto, não precisava de nada. Era uma obra perfeita em si. O segundo motivo está em que esta é uma obra diferente de tudo quanto se pode ler na moderna literatura portuguesa. Na sessãod e apresentação da obra, decorrida na Feira do Livro, tive oportunidade de o dizer. Há muito poucas literaturas no mundo que se possam orgulhar de ter objectos literários que não se encaixam bem em escola ou movimento nenhum e ainda assim são grandes obras. Cá em Portugal temos duas O «Húmus» de Raúl Brandão e este livro de FEP e o curioso é que em muitos pontos estas duas obras tocam-se sem se imitarem.
Este livro é um brutal retrato sobre as relações humanas através dos traumas sexuais e psicológicos. É uma obra dura, é uma obra violenta é um grande romance.
4.
Não verás país nenhum - de Ignácio de Loyola Brandão - Ulisseia
Loyola Brandão, o escritor brasileiro, não o Santo, venceu por duas vezes o Jabuti, o seu romance «Zero» é uma das grandes obras-primas da literatura mundial e foi escolhido como uma das 100 obras de língua portuguesa durante a Expo 98.
Sobre este livro vou apenas dizer uma coisa: não houve ninguém que o tivesse lido que não tivesse gostado muito.
É um grande romance: ecoógico, de aventuras, de amor, de ficção científica, de fantasia, de terror, policial, de crítica social, poético, um thriller... se há romances dos quais se pode dizer que têm tudo para todos os tipos de leitor (e não perdem por isso mesmo) este é, certamente, um deles.
3.
Bilhar às nove e meia - de Heinrich Böll - Ulisseia - trad. de Vanda Gomes
Eu nunca publiquei prémios Nobel por publicar, porque vendem mais ou porque "devem ser bons". A escolha tem de ser minha, isso é o que significa ser editor: saber escolher em funçaõ do público para o qual se está a trabalhar.
Achei que este era um romance necessário para a nossa sociedade actual e mais se tornou com o agudizar da crise. Böll traça as ruínas de uma sociedade desmoronada e o jogo de aparências que essa mesma sociedade procura manter. O humor é subtil e delicioso, a segurança da escrita, um primor.
2.
Uma parte do todo - de Steve Toltz - Ulisseia - trad. de Carmo Vasconcelos Romão
Será escusado dizer que é um grande romance, afinal ronda as 700 páginas...
Mas vou mesmo escrever pouco sobre este grande livro. Vou dizer-vos que, como leitor, foi um dos livros que mais prazer me deu ler nos últimos anos. Gosto de livros com grandes histórias, daquelas que pegam em nós e nos depositam sobre um berço e nos transportam em viagens incríveis. Há muito tempo que não lia um livro que conseguisse isso de forma tão plena.
Para aqueles que têm mesmo de saber alguma coisa da história: é uma saga familiar que acompanha uma família que se propõe estar à altura da tradição de uma Austrália colonizada enquanto prisão do Reino de Sua Majestade: o objectivo dos vários membros desta família é serem os piores possível. Uma família disfuncional? Nem tando... leiam e deliciem-se.
1.
Satã em Goray - de Isaac Bashevis Singer - Ulisseia - trad. de João Carlos Alvim
Em primeiro lugar andava há anos a tentar deitar a mão a Singer e trazê-lo à edição em Portugal com o rigor que merece. Em segundo lugar é um grande livro.
Pleno de simbolismo, pleno de paralelismos históricos, pleno de importância nos dias que correm.
Romance histórico que acompanha uma pequena aldeia judaica do século XVI no territóriao actualmente correspondente à Polónia, uma aldeia que acaba de sobreviver, com muitas mazelas, aos ataques dos cossacos. Uma aldeia que se prepara para o Inverno rigoroso sem quase nada que comer. Uma aldeia à qual chega um personagem estranho que se diz profeta.
O livro foi escrito pouco antes e publicado pouco depois da fuga de Singer para os EUA no final dos anos 30, ameaçado que se sentia pelo regime Nazi em ascensão.
Para breve ficam prometidas as minhas escolhas do ano do que se andou a publicar por cá neste país em crise. Foi um rico ano, verdade seja dita.
read more “Os outros livros do ano 2011”
Assim e começando pelas menções de honra:
Com o corpo todo - de Paulo José Miranda - Ulisseia
Para mim como editor foi um prazer poder em primeiro lugar trazer de volta aos escaparates um autor que acho ser da maior importância no passado recente da literatura portuguesa, por outro lado a obra em si é um grito lancinante sobre uma geração que usa o sexo como forma de comunicação quando as palavras falham. É um romance selvático e quase primário na forma como descreve os laços mais frágeis que nos unem e a forma como por vezes nos esforçamos para os estilhaçar face à nossa dificuldade de lidar com o outro.
A última criança - de John Hart - Ulisseia - trad. Carmo Vasconcelos Romão
Uma das questões que me coloquei enquanto editor foi em que chancela deveria publicar este romance.
trata-se essencialmente de um thriller. Uma obra vencedora do Edgar Award (o mais prestigiado prémio para literatura policial nos EUA) e do Silver Dagger award (o congénere inglês).
Aquilo que me levou a decidir pela Ulisseia foi a importância social do livro. É certo que é um romance de suspense, uma obra empolgante que usa as fórmulas do romance policial e do thriller mas não deixa de ser um alerta poderoso para as fragilidades sociais que se tornam ainda mais evidentes em momentos de crise.
Viagens Brancas - de Ana Cristina Pereira - Arcádia
Sobretudo um livro no qual me orgulho de ter participado. Uma obra importante da mais importante jornalista a trabalhar hoje sobre questões sociais.
Cada capítulo uma pequena história (verídica) que liga a mulher ao mundo da droga, seja como mão, traficante, vendedora, filha, familiar, vizinha ou toxicodependente.
E agora os 10 melhores.
10.
Noite de Primavera - de Tarjei Vesaas - Ulisseia - trad. Mário Semião
Uma obra que editorialmente demorou a parir. Foi quase ano e meio e no entanto está aqui. Um dos grandes autores nórdicos nunca publicado em Portugal antes. Este é um buildung roman mas muito pouco comum. Está lá a perda de inocência, está lá a consciencialização de um mundo falhado mas há muito mais. Na história de Sissel e do seu irmão que recebem por uma noite uma família perdida e muito disfuncional, está uma alegoria dos nossos tempos. Escrita com uma linguagem cristalina e uma poesia imediata que fazem dele um dos grandes romances do nosso tempo e revelam bem porque é que Vesaas foi três vezes candidato ao Nobel.
9.
Os armário vazios - de Maria Judite de Carvalho - Ulisseia
Não me alongarei muito sobre mais um livro que é mais uma obra-prima da literatura portuguesa do século XX. Quem me conhece sabe o fascínio que nutro pela escrita de Maria Judite de carvalho e portanto imagina o prazer que foi poder trazer de novo à luz do dia este grande livro.
Como todos os livros de MJC, este fala-nos sobre a solidão, a ausência, o silêncio no meio das mil palavras. Mas como é já hábito mais do que o enredo ou qualquer outra coisa, a escrita é a principal personagem.
8.
15 dias de febre - de Maria do Carmo Castelo Branco - Verbo
Há uns anos atrás li a grande biografia de Baron Corvo por A. J. A. Symons que é considerada pela teoria literária como uma das mais inovadoras experiências em biografia pós-moderna.
acontece que esta biografia, escrita pela neta de Camilo, esta auto-psicografia escrita por outra pessoa vai muito mais longe. Enquanto obra literária é esmagadora, poderosa, diferente.
É um grande livro para uma esmagadora minoria.
7.
A pirâmide - de William Golding - Ulisseia - trad. João Cruz
Considerado pela crítica como o romance mais biográfico do prémio Nobel britânico, «A pirâmide» É também o mais humano dos romances de Golding; aquele que nos fala do ponto de vista, das nossas limitações e dos preconceitos sociais, aquele que nos fala claramente sobre a incapacidade de vermos o todo que nos rodeia e de nos vermos a nós mesmos fora de nós.
Mas é o mais divertido dos livros, o romance que segue um jovem protagonista numa clássica aldeia inglesa que decide não ser moleiro, oleiro, ferreiro, agricultor e sim ser artista. Os dados estão lançados. As gargalhadas vão soltar-se mas o que o romance nos conta, lá bem no fundo, é muito mais negro.
6.
Uma espécie de sono - de Henry Roth - Ulisseia - trad. de Miguel Martins
Hoje descobri que o Rogério Casanova tinha eleito este romance como um dos livros do ano de 2011. Na crítica que lhe fez, apontou o mesmo e único defeito que lhe vejo, defeito típico de todos os livros fundadores de um género, estilo ou corrente: aquilo que contém foi já trabalhado posteriormente e transformado em algo mais.
O livro de Henry Roth é um «Ulysses» - aliás têm sido comparado à obra de Joyce - , provavelmente o primero grande romance moderno, polifónico, polimórfico, que acompanha a vida de uma criança filha de emigrantes nas primeiras levas a chegar aos EUA no começo do século XX. Para a capa escolhemos uma fotografia que revela uma das fases de construção da estátua da liberdade que chegou em peças oferecida pela frança. O livro é também isso: um imenso puzzle sobre as peças que entram quer se queira quer não, na construção de uma pessoa num tempo e num país também eles em construção.
E fica também uma nota para a tradução impossível do Miguel Martins.
5.
Brutal - de Fernando Esteves Pinto - Ulisseia
Várias coisas obrigaram-me a publicar este livro. A primeira delas será o facto de em anos de receber milhares de originais, ver pela primeira vez um original que, à excepção de ligeiras correcções de texto, não precisava de nada. Era uma obra perfeita em si. O segundo motivo está em que esta é uma obra diferente de tudo quanto se pode ler na moderna literatura portuguesa. Na sessãod e apresentação da obra, decorrida na Feira do Livro, tive oportunidade de o dizer. Há muito poucas literaturas no mundo que se possam orgulhar de ter objectos literários que não se encaixam bem em escola ou movimento nenhum e ainda assim são grandes obras. Cá em Portugal temos duas O «Húmus» de Raúl Brandão e este livro de FEP e o curioso é que em muitos pontos estas duas obras tocam-se sem se imitarem.
Este livro é um brutal retrato sobre as relações humanas através dos traumas sexuais e psicológicos. É uma obra dura, é uma obra violenta é um grande romance.
4.
Não verás país nenhum - de Ignácio de Loyola Brandão - Ulisseia
Loyola Brandão, o escritor brasileiro, não o Santo, venceu por duas vezes o Jabuti, o seu romance «Zero» é uma das grandes obras-primas da literatura mundial e foi escolhido como uma das 100 obras de língua portuguesa durante a Expo 98.
Sobre este livro vou apenas dizer uma coisa: não houve ninguém que o tivesse lido que não tivesse gostado muito.
É um grande romance: ecoógico, de aventuras, de amor, de ficção científica, de fantasia, de terror, policial, de crítica social, poético, um thriller... se há romances dos quais se pode dizer que têm tudo para todos os tipos de leitor (e não perdem por isso mesmo) este é, certamente, um deles.
3.
Bilhar às nove e meia - de Heinrich Böll - Ulisseia - trad. de Vanda Gomes
Eu nunca publiquei prémios Nobel por publicar, porque vendem mais ou porque "devem ser bons". A escolha tem de ser minha, isso é o que significa ser editor: saber escolher em funçaõ do público para o qual se está a trabalhar.
Achei que este era um romance necessário para a nossa sociedade actual e mais se tornou com o agudizar da crise. Böll traça as ruínas de uma sociedade desmoronada e o jogo de aparências que essa mesma sociedade procura manter. O humor é subtil e delicioso, a segurança da escrita, um primor.
2.
Uma parte do todo - de Steve Toltz - Ulisseia - trad. de Carmo Vasconcelos Romão
Será escusado dizer que é um grande romance, afinal ronda as 700 páginas...
Mas vou mesmo escrever pouco sobre este grande livro. Vou dizer-vos que, como leitor, foi um dos livros que mais prazer me deu ler nos últimos anos. Gosto de livros com grandes histórias, daquelas que pegam em nós e nos depositam sobre um berço e nos transportam em viagens incríveis. Há muito tempo que não lia um livro que conseguisse isso de forma tão plena.
Para aqueles que têm mesmo de saber alguma coisa da história: é uma saga familiar que acompanha uma família que se propõe estar à altura da tradição de uma Austrália colonizada enquanto prisão do Reino de Sua Majestade: o objectivo dos vários membros desta família é serem os piores possível. Uma família disfuncional? Nem tando... leiam e deliciem-se.
1.
Satã em Goray - de Isaac Bashevis Singer - Ulisseia - trad. de João Carlos Alvim
Em primeiro lugar andava há anos a tentar deitar a mão a Singer e trazê-lo à edição em Portugal com o rigor que merece. Em segundo lugar é um grande livro.
Pleno de simbolismo, pleno de paralelismos históricos, pleno de importância nos dias que correm.
Romance histórico que acompanha uma pequena aldeia judaica do século XVI no territóriao actualmente correspondente à Polónia, uma aldeia que acaba de sobreviver, com muitas mazelas, aos ataques dos cossacos. Uma aldeia que se prepara para o Inverno rigoroso sem quase nada que comer. Uma aldeia à qual chega um personagem estranho que se diz profeta.
O livro foi escrito pouco antes e publicado pouco depois da fuga de Singer para os EUA no final dos anos 30, ameaçado que se sentia pelo regime Nazi em ascensão.
***
Para breve ficam prometidas as minhas escolhas do ano do que se andou a publicar por cá neste país em crise. Foi um rico ano, verdade seja dita.
Murakami e eu
0 comentários sábado, 5 de novembro de 2011Há uns anos atrás foi publicado o primeiro Murakami em Portugal pela Civilização. Algumas pessoas há que sabem do meu envolvimento nessa publicação. Tinha descoberto Murakami pouco tempo antes.
«Norwegian Wood» voltou hoje à recordação, vi o filme, sem surpresa pior do que o livro. Ainda assim a força daquela que tenho pessoalmente como a mais triste história de amor feliz não esmorece apesar de haver graves erros de continuidade e algumas mudanças de plano muito malfeitinhas.
Murakami acabou por não participar activamente no filme (esteve planeado que ele seria responsável pelo argumento) e creio que aí teve origem um problema grave: o filme procura criar uma carga simbólica pela sua montagem, pelo diálogo das cenas, dos espaços e da presença dos personagens nos determinados espaços. Com isso perdea linearidade da narrativa de Murakami. Alguns longos planos de belíssimas paisagens japonesas faz perder força o conflito dialogante dos espaços-mundos presente no livro.
Apesar de todos os actores estarem bem escolhidos, sobressai claramente a actriz que desempenha o papel de Midori...
Enfim e no meio de tudo isto. Se tiverem filme e livro à frente, leiam o livro.
Na altura em que li o livro apaixonei-me por ele. Era o mais normal dos Murakamis, o mais real mas também o mais absurdo na sua normalidade. Um livro sobre a nossa incapacidade de nos entregarmos totalmente ou sobre o risco da entrega total (nos dois extremos dos personagens envolvidos na história), mas também sobre aquele problema grave de precisamente serem os extremos que se atraem. E se essas questões são grandes enigmas para o se humano, imagine-se no Japão onde tudo é interiorizado e se vive com uma noção de culpa católica não muito bem assimilada (ou demasiado bem assimilada).
Ao mesmo tempo coloca-se a questão do nosso mundo e das suas fronteiras, daquilo em que o nosso mundo pode tocar, permutar ou mesmo conter o mundo dos outros.
Recomendei o livro a imensa gente e descobri, para meu espanto, que as mulheres geralmente não gostavam dele. Talvez seja um livro muito masculino na sua forma de pensar. Talvez o personagem principal na sua incompreensão (ou sobrecompreensão) irrite as leitoras. Não sei.
Sei apenas que compreendo este livro como ele me compreende. Que me deixa com aquela tristeza que se assemelha a um vazio enorme. Uma profundeza, um abismo.
Resta-me portanto perguntar, ao jeito de certo personagem de Verne: «Quem jamais sondou as profundezas do abisbo?» respondendo: Murakami e eu..
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«Norwegian Wood» voltou hoje à recordação, vi o filme, sem surpresa pior do que o livro. Ainda assim a força daquela que tenho pessoalmente como a mais triste história de amor feliz não esmorece apesar de haver graves erros de continuidade e algumas mudanças de plano muito malfeitinhas.
Murakami acabou por não participar activamente no filme (esteve planeado que ele seria responsável pelo argumento) e creio que aí teve origem um problema grave: o filme procura criar uma carga simbólica pela sua montagem, pelo diálogo das cenas, dos espaços e da presença dos personagens nos determinados espaços. Com isso perdea linearidade da narrativa de Murakami. Alguns longos planos de belíssimas paisagens japonesas faz perder força o conflito dialogante dos espaços-mundos presente no livro.
Apesar de todos os actores estarem bem escolhidos, sobressai claramente a actriz que desempenha o papel de Midori...
Enfim e no meio de tudo isto. Se tiverem filme e livro à frente, leiam o livro.
Na altura em que li o livro apaixonei-me por ele. Era o mais normal dos Murakamis, o mais real mas também o mais absurdo na sua normalidade. Um livro sobre a nossa incapacidade de nos entregarmos totalmente ou sobre o risco da entrega total (nos dois extremos dos personagens envolvidos na história), mas também sobre aquele problema grave de precisamente serem os extremos que se atraem. E se essas questões são grandes enigmas para o se humano, imagine-se no Japão onde tudo é interiorizado e se vive com uma noção de culpa católica não muito bem assimilada (ou demasiado bem assimilada).
Ao mesmo tempo coloca-se a questão do nosso mundo e das suas fronteiras, daquilo em que o nosso mundo pode tocar, permutar ou mesmo conter o mundo dos outros.
Recomendei o livro a imensa gente e descobri, para meu espanto, que as mulheres geralmente não gostavam dele. Talvez seja um livro muito masculino na sua forma de pensar. Talvez o personagem principal na sua incompreensão (ou sobrecompreensão) irrite as leitoras. Não sei.
Resta-me portanto perguntar, ao jeito de certo personagem de Verne: «Quem jamais sondou as profundezas do abisbo?» respondendo: Murakami e eu..
Excerto (1)
0 comentários quarta-feira, 19 de outubro de 2011«E ainda por cima carregado com o saco do inglês. Aquilo pesava toneladas e batia-me contra o lado do joelho a que tinha sido operado. Não sei porque não troquei de mão mas aquela era a mão que dava mais jeito. Mas aquilo que me irritava mesmo foi ter trazido o raio dos chinelos. Já não tenho talento para "chinelar" como dizia a minha avó mas aqueles chinelos, levados a pensar no calor sufocante de lá de fora, eram dois tamanhos acima do meu.
Atravessei a rua e segui pelo passeio até quase chegar à ponte. Vinha a amaldiçoar-me mais os chinelos e tive de me desviar do rapaz um pouco à pressa. Era tão alto como eu, bronzeado de dias inteiros na praia, e vinha estupidamente mal vestido. ao desviar-me o chinelo ia saindo do pé. Tive de dar dois meios passos para recuperar. O rapaz percebeu algo e olhou-me e eu a ele. Retesei os ombros para aguentar o ego mas o golpe estava dado.
Uma voz na minha cabeça ainda tentou convencer-me: "tu ocupas a posição que ocupas, és um dos mais prestigiados professores universitários da tua geração." Mas já a outra voz, mais sincera respondia: "qual quê. Não te ponhas com coisas: há-de comer mais gajas por mês que tu na vida."
É mesmo a isto que se reduz o orgulho macho mesmo depois de tantos séculos de civilização.»
De um original inédito «Os feitos amorosos de João Brás» por Fernando Sopinha Vieira
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Atravessei a rua e segui pelo passeio até quase chegar à ponte. Vinha a amaldiçoar-me mais os chinelos e tive de me desviar do rapaz um pouco à pressa. Era tão alto como eu, bronzeado de dias inteiros na praia, e vinha estupidamente mal vestido. ao desviar-me o chinelo ia saindo do pé. Tive de dar dois meios passos para recuperar. O rapaz percebeu algo e olhou-me e eu a ele. Retesei os ombros para aguentar o ego mas o golpe estava dado.
Uma voz na minha cabeça ainda tentou convencer-me: "tu ocupas a posição que ocupas, és um dos mais prestigiados professores universitários da tua geração." Mas já a outra voz, mais sincera respondia: "qual quê. Não te ponhas com coisas: há-de comer mais gajas por mês que tu na vida."
É mesmo a isto que se reduz o orgulho macho mesmo depois de tantos séculos de civilização.»
De um original inédito «Os feitos amorosos de João Brás» por Fernando Sopinha Vieira
Personagens (2)
0 comentáriosIrlandês seboso, chupado e chamuscado, traficante de rua de relevância média, sempre a fumar uma beata e no qual apenas se destacam os vivos olhos azuis que se mexem em movimentos nervosos de um lado para o outro: Nick O'Tean
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Sabedoria Editorial
0 comentários terça-feira, 18 de outubro de 2011Encontrei aqui e é bem verdade. Um antigo documento que é uma verdade absoluta para algumas editoras que conheço.
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Fim de mais um ciclo
1 comentários sexta-feira, 7 de outubro de 2011A partir de hoje deixo de estar ligado ao Grupo Babel. Foi um período em que aprendi muito e conheci alguns profissionais excelentes, fiz bons amigos e tive o prazer de trabalhar com grandes Autores. Infelizmente não foi possível alcançar todos os objectivos que pessoalmente me tinha imposto. Outras ocasiões virão. Obrigado a todos os que me ajudaram neste trecho do percurso e estou certo que os nossos caminhos voltarão a cruzar-se em breve.
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Lérias
0 comentários domingo, 2 de outubro de 2011Já li quatro magníficas Lérias do Miguel. Como todos saberão, a linguagem humana nasceu da necessidade de propagar lérias. Daí que toda a linguagem, de forma mais ou menos perfeita, seja ficção, sejam lérias, seja mentira mesmo quando conta ou pretende meramente referir a verdade.
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O sistema e as vítimas
0 comentáriosNo nosso país, continuam a lamentar-se as vítimas dos sistemas mas não se punem os criadores desses sistemas que não funcionam. É mais fácil e mais barato e o país continua a evoluir de derrota em derrota.
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A fracção do todo
0 comentários quinta-feira, 8 de setembro de 2011Foi um dos maiores sucessos editoriais de 2008. Tinha perto de 700 páginas e era uma obra de estreia de um autor australiano obviamente desconhecido. Tinha tudo para não ser um sucesso.
«Uma parte do todo» de Steve Toltz, foi publicado em cinco continentes com um reconhecimento universal da crítica. Foi finalista do Booker (de que consta ser a primeira obra de estreia de um autor não-britânico a alcançar tal posição) e do Guardian Firrst Fiction Award. Traduziu-se e traduz-se ainda em mais de 40 países apesar da dificuldade orçamental de lidar com uma tradução caríssima e o risco de se apostar numa obra de estreia cujo autor não garantiu ainda sequência.
Ainda assim a aposta foi unânime por parte dos melhores editores estrangeiros.
O que leverá a que isto assim seja, perguntam-me. A qualidade transversal da obra: um calhamaço que nunca se repete, nunca abranda o ritmo e tem personagens únicas em situações extravagantes do princípio ao final do livro.
A história de uma família de anti-heróis apostados declaradamente em defender a honra da herança australiana enquanto colónia para ladrões, assassinos, malfeitores, prostitutas e o que mais viesse. As sucessivas gerações desta família, cujas histórias e os tempos se cruzam, estão apostadas em ser as piores dos piores.
Assim, o livro brinca com conceitos como 'justiça', ou 'verdade', ou 'honestidade' e, claro, 'ficção' como poucos podem fazer; e fá-lo ao mesmo tempo que conta uma grande história, faz com que o leitor identifique o lado mais perverso da sua alma com a daqueles bons-maus ou maus-bons, e fá-los rir sem parar.
Talvez seja também um dos poucos triunfos modernos da aventura pincaresca mas é, acima de qualquer outra coisa, um livro que ninguém esquecerá. Uma história que atravessa veloz 700 páginas para, no final, deixar vontade de muito mais.
Em Outubro nas melhores livrarias.
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Vila-Matas sobre Henry Roth
0 comentários segunda-feira, 5 de setembro de 2011
«Henry Roth nació en 1906 en una aldea de Galitzia (entonces perteneciente al imperio austrohúngaro) y murió en los Estados Unidos en 1995. Sus padres emigraron a América y pasó su infancia de niño judío en Nueva York, experiencia que relató en una espléndida novela, Llámala sueño, publicada a los veintiocho años.
La novela pasó desapercibida y Roth decidió dedicarse a otras cosas, trabajó en oficios tan dispares como ayudante de fontanero, enfermero de manicomio o criador de patos.
Treinta años después, Llámato) sueño se reeditó y, en pocas semanas, se convirtió en una pieza clásica de la literatura norteamericana. Roth se quedó pasmado, y su reacción ante el éxito consistió en tomar la decisión de publicar algún día algo más, siempre y cuando él sobrepasara de largo la edad de ochenta años. Superó de largo esa edad, y entonces, treinta años después del éxito de la reedición de Llámalo sueño, dio a la imprenta A merced de una corriente salvaje, que los editores, dada la imponente extensión de la novela, dividieron en cuatro entregas.
«He escrito mi novela -dijo al final de sus días- sólo para rescatar recuerdos raídos que brillaban suavemente en mi memoria.»
Se trata de una novela escrita «para hacer que sea más fácil morir» y donde se burla, de una forma genial, del reconocimiento artístico. Sus mejores páginas tal vez sean aquellas en las que nos cuenta sus experiencias en las afueras de la literatura -esas páginas ocupan prácticamente la novela entera, como es lógico-, todo esos años, casi ochenta, en los que no se sabe si escribió, pero en todo caso no publicó, todos esos años en los que se olvidó de los afluentes del río de la literatura y se dejó llevar por la corriente salvaje de la vida.»
Enrique Vila-Matas in Bartleby & Cia.
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