O Diabo na Ulisseia em Setembro
2 comentários sexta-feira, 2 de setembro de 2011Isaac Bashevis Singer viu o nascimento e crescimento do nazismo (que, aliás, foi essencialmente contemporâneo do seu), assustado pela sua proximidade e significado, emigrou em 1935 para os Estados Unidos trazendo na mala boa parte de um romance intitulado «Satã em Goray», escrito na sua língua natural, o iídiche.
Publicado originalmente por capítulos numa revista literária, este é um romance histórico passado numa pequena aldeia judaica geograficamente localizada na Polónia hodierna. Uma aldeia que apenas acabou de recuperar dos massacres perpetrados durante as invasões dos cossacos, que se apercebe da sua debilidade e da insegurança que a rodeia, da probabilidade da fome e da doença que o futuro poderá trazer. E é a essa aldeia que chega um dia o estranho Sabbadai Zevi que se apresenta como o novo Messias. Essachegada marca o momento em que, contra todos os apelos da razão, a comunidade acaba por se entregar nas mãos dessa fé cega.
Lê-se como romance histórico, como disse, mas é também, claramente, um romance-alegoria sobre a implantação do nazismo e um alerta muito sério para os nossos tempos de crise financeira e grave insegurança.
Andava há anos para publicar este romance mas só hoje o pude fazer pelo que estou bastante satisfeito. Preferia tê-lo feito a partir do iídiche mas não há tradutores em Portugal, ainda assim foi o próprio Singer que ou traduziu ou supervisionou as traduções das suas obras para inglês pelo que a traição será menor.
Satã em Goray, de Isaac Bashevis Singer (trad. de João Carlos Alvim)
Só com uma nota final, que os editores também têm de vender o seu peixe: Singer foi galardoado com o prémio Nobel de Literatura em 1978 e esta é a primeira vez que este seu romance vê a luz do dia em Portugal. Opinem.
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Asimov em Setembro na Ulisseia (como nunca o viram)
0 comentáriosSe um grupo de cavalheiros se reunisse regularmente num clube nova iorquino para desvendar mistérios dos quais possuiam apenas uma notícia ou um relato (obviamente incompletos ou parciais), se durante os magníficos jantares servidos pelo extraordinário Henry se fossem tecendo as possibilidades de solucionar a intriga, isso seria
Os Crimes dos Viúvos Negros, de Isaac Asimov (trad. por Raquel Dutra Lopes)
Na época em que o policial negro americano a la Spillane era rei e senhor, Asimov, convidado pela Ellery Queen Mystery Magazine, escreveu uma série de contos de aparência clássica mas que, na realidade, para além da fachada de boas histórias policiais (que são) é, ainda assim, um conjunto de ensaios sobre lógica, mecanismos da ficção e a Verdade.
Este é um daqueles pequenos tesouros da literatura que me deu imenso prazer descobrir. Espero que também gostem.
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Ler mais, Ler melhor dedicado a Maria Judite de Carvalho
0 comentários quarta-feira, 31 de agosto de 2011Serviço noticioso
0 comentários sexta-feira, 12 de agosto de 2011Dentro do espírito original deste blogue (e também devido à falta de tempo para nele escrever com regularidade) criei um espaço na coluna da direita que num impulso pensei denominar como "Serviço de rapidinhas" mas rapidamente percebi que isso atrairia um fluxo de visitantes indesejados sobretudo agora em tempos de crise. E nasceram as "Curtas": pequenas notícias e destaques sobre a área da cultura que eu quero partilhar convosco. Por exemplo um grande livro que descubro numa Amazon ou um preço de saldo num DVD, ou o lançamento de um livro daqueles que vale a pena, etc.
Faz tudo parte do meu novo sistema de economizar tempo e esforço: antes ficava bastante tempo a meditar (enquanto fazia outras coisas) naquilo que iria colocar no blogue para destacar uma destas pequenas notícias e quando finalmente tinha tempo já a notícia não tinha actualidade. Agora em jeito de espelho do esforço de reconversão do país, economizo. e como não sou de modas e não uso o Twitter... teve de ser assim.
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Faz tudo parte do meu novo sistema de economizar tempo e esforço: antes ficava bastante tempo a meditar (enquanto fazia outras coisas) naquilo que iria colocar no blogue para destacar uma destas pequenas notícias e quando finalmente tinha tempo já a notícia não tinha actualidade. Agora em jeito de espelho do esforço de reconversão do país, economizo. e como não sou de modas e não uso o Twitter... teve de ser assim.
Blogue de luto
0 comentários domingo, 24 de julho de 2011O Público informa-me que morreu a Maria Lúcia Lepecki. Aqui está uma grande perda. Mais do que tudo o que dizem da Maria Lúcia, grande escritora e ensaísta, foi uma Grande Professora e sobretudo uma das últimas grandes comunicadoras da Universidade portuguesa.
Dentro do departamento de românicas e da FLUL era a única professora que parecia respirar fora daquele ambiente de intriguistas e de invejosos. Parecia ser a única pessoa a divisar que havia um mundo fora daquele e era isso mesmo que transmitia aos alunos. Que também fora do modelo de ensino ultrapassado em que o aluno não tinha espaço para dar as suas opiniões e apenas poderia limitar-se a citar e os autores autorizados pelo professor da maneira como este os citava, tudo podia ser feito de outra forma com a Maria Lúcia. Lembro-me, e ainda noutro dia falava disso, que apresentei um trabalho, uma leitura comparada da «Leviana» do António Ferro e de «O amor é fodido» do MEC.
Foi a Maria Lúcia quem me fez descobrir a grandeza do Camilo, quem não se atrevia a dizer bem do Saramago ou do Lobo Antunes, por aquilo que tinham de bom ou diferente.
Mas mais que tudo a Maria Lúcia ensinou quem a queria ouvir a viver plenamente. A acordar para a grandeza do mundo e pequenez da nossa mesquinhez lusa (e fê-lo sem criticar seja o que for).
Ela ensinava as pessoas a terem curiosidade e seguirem essa mesma curiosidade; ela mostrava o que era amar a literatura portuguesa como poucos portugueses conseguem.
A Maria Lúcia foi uma pessoa feliz - apenas sofria com o afastamento dos netos. Foi um grande Ser Humano. Em tudo o que lhe conheci, estava acima.
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Dentro do departamento de românicas e da FLUL era a única professora que parecia respirar fora daquele ambiente de intriguistas e de invejosos. Parecia ser a única pessoa a divisar que havia um mundo fora daquele e era isso mesmo que transmitia aos alunos. Que também fora do modelo de ensino ultrapassado em que o aluno não tinha espaço para dar as suas opiniões e apenas poderia limitar-se a citar e os autores autorizados pelo professor da maneira como este os citava, tudo podia ser feito de outra forma com a Maria Lúcia. Lembro-me, e ainda noutro dia falava disso, que apresentei um trabalho, uma leitura comparada da «Leviana» do António Ferro e de «O amor é fodido» do MEC.
Foi a Maria Lúcia quem me fez descobrir a grandeza do Camilo, quem não se atrevia a dizer bem do Saramago ou do Lobo Antunes, por aquilo que tinham de bom ou diferente.
Mas mais que tudo a Maria Lúcia ensinou quem a queria ouvir a viver plenamente. A acordar para a grandeza do mundo e pequenez da nossa mesquinhez lusa (e fê-lo sem criticar seja o que for).
Ela ensinava as pessoas a terem curiosidade e seguirem essa mesma curiosidade; ela mostrava o que era amar a literatura portuguesa como poucos portugueses conseguem.
A Maria Lúcia foi uma pessoa feliz - apenas sofria com o afastamento dos netos. Foi um grande Ser Humano. Em tudo o que lhe conheci, estava acima.
O fim da edição de livros em Portugal?
9 comentários segunda-feira, 18 de julho de 2011A crise chegou e as editoras estão em pânico. As curtíssimas margens de lucro num negócio que pouco tinha de negócio desapareceram num espaço ainda mais curto de tempo. As livrarias não pagam, os leitores não compram. E vai piorar.As pequenas e médias editoras ou têm fundo de maneio que lhes permita aguentar a crise ou vão fechar portas (conheço muito poucas que tenham essa almofada de segurança). O mesmo vai passar-se com as pequenas e médias livrarias.
No que toca às grandes editoras, as soluções dos gestores passam por baixar preços e fazer grandes saldos, medidas inevitáveis para a sobrevivência no momento mas de consequências desastrosas no futuro. Se e quando a crise começar a passar, os alguns anos de preços da chuva, "packs" e saldos vão condicionar os leitores sobreviventes relativamente a preços mais 'verdadeiros'.
Dessa forma quem, apesar da crise, compra ainda livros vai, nos próximos tempos, matar a fome com preços que nunca sonhou. E depois? Haverá ainda espaço e tempo para os novos livros a preços superiores? Esta pergunta será válida para as editoras grandes como para as grandes cadeiras livreiras.
Claro que a crise tem as suas vantagens. A adequação da realidade do output editorial à capacidade de absorção do mercado. Mas se essas realidades estão ambas sob a sombra negrta da crise, como sobreviver?
Caber-me-ia agora indicar que é nestas alturas que se deveria apostar nas linhas de qualidade e na edição com rigor, critério e cuidados especiais. Que vai ser esse tipo de edição que vai garantir o futuro na altura das mudanças que se avizinham. Mas nem os gestores compreendem isso (nunca o compreenderam aliás) nem conseguem perspectivar qualquer opção estratégica que não resulte em retorno imediato - porque a edição em Portugal, dadas as suas margens, não foi nunca pensada num prisma de médio/longo prazo (salvo em casos pontuais).
Não devemos escamotear a verdade: o sector vai ficar moribundo. Vão fechar editoras, distribuidoras, livrarias e mesmo gráficas. Muitas. A maior parte. Vão ficar sem trabalho editores, livreiros, comerciais, tradutores, revisores, técnicos diversos das mais diversas áreas ligadas à edição de livros e sua produção.
Mas se a crise é a principal culpada não podemos também ignorar que a situação acontece pela realidade de um país sem hábitos de leitura, um país onde os agentes da área da edição nunca se uniram em campanhas efectivas de desenvolvimento e angariação de novos leitores. Nunca houve acções integradas e continuadas de impacto nessa área porque a cultura é um bem (muito) acessório. Um país onde, apesar das qualidades notáveis que os portugueses possuem, nunca se tirou delas partido, com um sistema de ensino medíocre que trabalha para a medianização e não para a excelência; um país que nunca soube reconhecer os seus maiores valores e os perde constantemente para o exterior. Um país onde é mais fácil criticar quem se distingue do que valorizar.
Neste quadro não podemos ter esperança no sector editorial e os investimentos nas novas tecnologias do livro, com os valores que implicam, parecem ainda mais incongruentes.
Gostaria muito de estar errado mas fica o aviso: comecem a preparar-se para encomendar livros do Brasil.
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No que toca às grandes editoras, as soluções dos gestores passam por baixar preços e fazer grandes saldos, medidas inevitáveis para a sobrevivência no momento mas de consequências desastrosas no futuro. Se e quando a crise começar a passar, os alguns anos de preços da chuva, "packs" e saldos vão condicionar os leitores sobreviventes relativamente a preços mais 'verdadeiros'.
Dessa forma quem, apesar da crise, compra ainda livros vai, nos próximos tempos, matar a fome com preços que nunca sonhou. E depois? Haverá ainda espaço e tempo para os novos livros a preços superiores? Esta pergunta será válida para as editoras grandes como para as grandes cadeiras livreiras.
Claro que a crise tem as suas vantagens. A adequação da realidade do output editorial à capacidade de absorção do mercado. Mas se essas realidades estão ambas sob a sombra negrta da crise, como sobreviver?
Caber-me-ia agora indicar que é nestas alturas que se deveria apostar nas linhas de qualidade e na edição com rigor, critério e cuidados especiais. Que vai ser esse tipo de edição que vai garantir o futuro na altura das mudanças que se avizinham. Mas nem os gestores compreendem isso (nunca o compreenderam aliás) nem conseguem perspectivar qualquer opção estratégica que não resulte em retorno imediato - porque a edição em Portugal, dadas as suas margens, não foi nunca pensada num prisma de médio/longo prazo (salvo em casos pontuais).
Não devemos escamotear a verdade: o sector vai ficar moribundo. Vão fechar editoras, distribuidoras, livrarias e mesmo gráficas. Muitas. A maior parte. Vão ficar sem trabalho editores, livreiros, comerciais, tradutores, revisores, técnicos diversos das mais diversas áreas ligadas à edição de livros e sua produção.
Mas se a crise é a principal culpada não podemos também ignorar que a situação acontece pela realidade de um país sem hábitos de leitura, um país onde os agentes da área da edição nunca se uniram em campanhas efectivas de desenvolvimento e angariação de novos leitores. Nunca houve acções integradas e continuadas de impacto nessa área porque a cultura é um bem (muito) acessório. Um país onde, apesar das qualidades notáveis que os portugueses possuem, nunca se tirou delas partido, com um sistema de ensino medíocre que trabalha para a medianização e não para a excelência; um país que nunca soube reconhecer os seus maiores valores e os perde constantemente para o exterior. Um país onde é mais fácil criticar quem se distingue do que valorizar.
Neste quadro não podemos ter esperança no sector editorial e os investimentos nas novas tecnologias do livro, com os valores que implicam, parecem ainda mais incongruentes.
Gostaria muito de estar errado mas fica o aviso: comecem a preparar-se para encomendar livros do Brasil.
Os consagrados da Ulisseia
4 comentários quinta-feira, 7 de julho de 2011Uma das apostas da Ulisseia é, como já mencionei diversas vezes, a construção de um catálogo de ficção de referência. Aliás é a sua principal aposta.
Isso implica construir um catálogo com base dos modernos cânones da literatura mas, ao mesmo tempo, incluir clássicos e clássicos modernos e implica, no meu entender, conhecer os cânones literários que também são - ou vão sendo - desconhecidos em Portugal.
Daí que, antes de falar dos consagrados que certamente conhecem, quero falar sobre a última novidade da Ulisseia que dificilmente conhecerão.
Tarjei Vesaas, o autor, foi por três vezes candidato ao Nobel, venceu o prémio do Conselho Nórdico e é unanimemente reconhecido nos países escandinavos como o autor norueguês mais importante ó século XX ao lado de Hamsun.
A escrita de Vesaas é cristalina e aparentemente muito simples. Debaixo dessa superfície de simplicidade para uma floresta de significações que fazem de histórias simples, lições de narrativa e de vida.
Este livro será aquilo que os ingleses chamam o coming-of-age novel e os alemães buildungroman, um romance curto - os romances de Vesaas raramente ultrapassam as 200 e poucas páginas - que se desenrola ao longo de uma noite de Primavera, daquelas noites em que, pelas paragens mais frias do Norte europeu, a neve começa a derreter mesmo quando por vezes ainda cai. Dois irmãos - Sissel de 16 anos e o seu irmão mais novo Hallstein - ficam sozinhos por uma noite na ausência dos pais, na casa da quinta onde habitam. Ao começo da noite um co«njunto de estranhos estranhos (perdoem-me a repetição) bate-lhes à porta.
Aquilo que era para ser uma noite tranquila e controlada é de imediato tomada de assalto por uma enorme tensão. Com o carro avariado, entram na casa uma mãe em trabalho de parto, um pai quase histérico, um padrinho acriançado, uma madrinha paralítica mas que talvez não o seja e uma estranha rapariga com a qual, apesar de nunca se terem cruzado, Hallstein tem sonhado nos últimos tempos.
De manhã tudo terá mudado e a adolescência também terá partido durante a noite.
A força da escrita de Vesaas é assombrosa. Quando primeiro li este autor disse para mim que tinha de o publicar. É como um Murakami nórdico sem o ser bem. Dêem-me depois as vossas opiniões.
Quanto ao Pavese que esteve desaparecido do mercado durante anos aparecendo apenas de forma pontual aqui e ali em edições sem continuidade, é um dos mais importantes nomes da literatura europeia da primeira metade do século XX.
É o escritor do modernismo das sensações, da indefinição do sentimento. Apresentando sempre estas temáticas numa lógica de romance quase clássico.
É nossa intenção publicar as obras de Pavese ao ritmo de 1 a 2 títulos por ano e devolver-lhe o seu merecido lugar entre os grandes nomes da literatura.
Um dos meus problemas com Golding, prémio Nobel da literatura e vencedor do Booker, é a sempre difícil relação que o leitor tem com os personagens. Há uma frieza que marca a distância entre os dois níveis e que, apesar da qualidade da escrita e da originalidade dos enredos, nos mantém claramente na posição que o autor pretende que tenhamos: observadores imparciais.
Este livro não é assim. Provavelmente também porque será a obra mais autobriográfica de Golding.
A história é divertida e pisca a vários passos o olho ao leitor. Arrasta-o para si e para os personagens daquela pequena aldeia do interior rural de Inglaterra onde o jovem narrador quer viver o seu sonho de se tornar "artista", coisa inaudita e que acarreta significações não muito abonatórias para si.
Um livro sobre a coragem de assumir a diferença num meio que não a aceita e a julga através de preconceitos equívocos e equivocados.
Divertido e comovente e, sobretudo, importante.
Heinrich Böll é um pouco (ou muito) como aqueles cientista comportamentais que pegam em vários seres vivos de uma comunidade e os colocam em situações e realidades diferentes e estranhas para ver como se comportam e se se adaptam.
A temática central da obra de Böll foi sempre essa: como se comportam os seres humanos face a situações extremas.
À lupa do microscópio-pena do autor desenrola-se, neste romance, a vida de uma família da alta burguesia alemã que procura refazer a sua vida num cenário de completa destruição do pós guerra.
Quem pense que estamos perante um romance sério e duro sobre condições extremas, desengane-se. Este livro é uma deliciosa comédia de aparências que joga de uma forma moderna com um tema tão pós-moderno como é a identidade e a sua diferença da imagem.
Daqueles livros que são irrepreensivelmente bem escritos, provocam muitas gargalhadas nos momentos certos e nos obrigam e pensar muito sobre certas coisas.
O autor também ganhou o Nobel.
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Isso implica construir um catálogo com base dos modernos cânones da literatura mas, ao mesmo tempo, incluir clássicos e clássicos modernos e implica, no meu entender, conhecer os cânones literários que também são - ou vão sendo - desconhecidos em Portugal.
Daí que, antes de falar dos consagrados que certamente conhecem, quero falar sobre a última novidade da Ulisseia que dificilmente conhecerão.
Tarjei Vesaas, o autor, foi por três vezes candidato ao Nobel, venceu o prémio do Conselho Nórdico e é unanimemente reconhecido nos países escandinavos como o autor norueguês mais importante ó século XX ao lado de Hamsun.
A escrita de Vesaas é cristalina e aparentemente muito simples. Debaixo dessa superfície de simplicidade para uma floresta de significações que fazem de histórias simples, lições de narrativa e de vida.
Este livro será aquilo que os ingleses chamam o coming-of-age novel e os alemães buildungroman, um romance curto - os romances de Vesaas raramente ultrapassam as 200 e poucas páginas - que se desenrola ao longo de uma noite de Primavera, daquelas noites em que, pelas paragens mais frias do Norte europeu, a neve começa a derreter mesmo quando por vezes ainda cai. Dois irmãos - Sissel de 16 anos e o seu irmão mais novo Hallstein - ficam sozinhos por uma noite na ausência dos pais, na casa da quinta onde habitam. Ao começo da noite um co«njunto de estranhos estranhos (perdoem-me a repetição) bate-lhes à porta.
Aquilo que era para ser uma noite tranquila e controlada é de imediato tomada de assalto por uma enorme tensão. Com o carro avariado, entram na casa uma mãe em trabalho de parto, um pai quase histérico, um padrinho acriançado, uma madrinha paralítica mas que talvez não o seja e uma estranha rapariga com a qual, apesar de nunca se terem cruzado, Hallstein tem sonhado nos últimos tempos.
De manhã tudo terá mudado e a adolescência também terá partido durante a noite.
A força da escrita de Vesaas é assombrosa. Quando primeiro li este autor disse para mim que tinha de o publicar. É como um Murakami nórdico sem o ser bem. Dêem-me depois as vossas opiniões.
Quanto ao Pavese que esteve desaparecido do mercado durante anos aparecendo apenas de forma pontual aqui e ali em edições sem continuidade, é um dos mais importantes nomes da literatura europeia da primeira metade do século XX.
É o escritor do modernismo das sensações, da indefinição do sentimento. Apresentando sempre estas temáticas numa lógica de romance quase clássico.
É nossa intenção publicar as obras de Pavese ao ritmo de 1 a 2 títulos por ano e devolver-lhe o seu merecido lugar entre os grandes nomes da literatura.
Um dos meus problemas com Golding, prémio Nobel da literatura e vencedor do Booker, é a sempre difícil relação que o leitor tem com os personagens. Há uma frieza que marca a distância entre os dois níveis e que, apesar da qualidade da escrita e da originalidade dos enredos, nos mantém claramente na posição que o autor pretende que tenhamos: observadores imparciais.
Este livro não é assim. Provavelmente também porque será a obra mais autobriográfica de Golding.
A história é divertida e pisca a vários passos o olho ao leitor. Arrasta-o para si e para os personagens daquela pequena aldeia do interior rural de Inglaterra onde o jovem narrador quer viver o seu sonho de se tornar "artista", coisa inaudita e que acarreta significações não muito abonatórias para si.
Um livro sobre a coragem de assumir a diferença num meio que não a aceita e a julga através de preconceitos equívocos e equivocados.
Divertido e comovente e, sobretudo, importante.
Heinrich Böll é um pouco (ou muito) como aqueles cientista comportamentais que pegam em vários seres vivos de uma comunidade e os colocam em situações e realidades diferentes e estranhas para ver como se comportam e se se adaptam.
A temática central da obra de Böll foi sempre essa: como se comportam os seres humanos face a situações extremas.
À lupa do microscópio-pena do autor desenrola-se, neste romance, a vida de uma família da alta burguesia alemã que procura refazer a sua vida num cenário de completa destruição do pós guerra.
Quem pense que estamos perante um romance sério e duro sobre condições extremas, desengane-se. Este livro é uma deliciosa comédia de aparências que joga de uma forma moderna com um tema tão pós-moderno como é a identidade e a sua diferença da imagem.
Daqueles livros que são irrepreensivelmente bem escritos, provocam muitas gargalhadas nos momentos certos e nos obrigam e pensar muito sobre certas coisas.
O autor também ganhou o Nobel.
Uma sugestão
0 comentáriosComo saberão sou um apreciador da literatura fantástica o que não quer, de forma alguma, dizer o mesmo que fantasia. E de vez em quando, para descontrair, compro qualquer coisa que me parece interessante.
Foi assim que, no final do ano passado, descobri aquela que, para mim é a melhor série de fantasia actual: o ciclo de romances de Joe Abercrombie (até agora 5).
Os primeiros três constituem uma espécie de trilogia com personagens que se cruzam e descruzam num mundo que reflecte os vários estereótipos da literatura fantástica moderna (estão lá Robert E. Howard, Tolkien e outros). Os últimos dois são livros independentes mas só vale a pena serem lidos com a leitura prévia da trilogia inicial. Ainda assim, na minha opinião, são os melhores.
Aquilo que faz a diferença é a simplicidade com que brinca com géneros, com os próprios estereótipos, mas também a qualidade literária muito acima da média para não falar do fabuloso sentido de humor e capacidade de presentificação ao leitor de tudo o que acontece.
Se a maior parte da fantasia moderna é, toda ela, um cansativo cliché, esta é a excepção que confirma a regra. E ao que consta está para ser publicado em português. Espero que ponham um bom tradutor a traduzir porque merece.
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Foi assim que, no final do ano passado, descobri aquela que, para mim é a melhor série de fantasia actual: o ciclo de romances de Joe Abercrombie (até agora 5).
Os primeiros três constituem uma espécie de trilogia com personagens que se cruzam e descruzam num mundo que reflecte os vários estereótipos da literatura fantástica moderna (estão lá Robert E. Howard, Tolkien e outros). Os últimos dois são livros independentes mas só vale a pena serem lidos com a leitura prévia da trilogia inicial. Ainda assim, na minha opinião, são os melhores.
Aquilo que faz a diferença é a simplicidade com que brinca com géneros, com os próprios estereótipos, mas também a qualidade literária muito acima da média para não falar do fabuloso sentido de humor e capacidade de presentificação ao leitor de tudo o que acontece.
Se a maior parte da fantasia moderna é, toda ela, um cansativo cliché, esta é a excepção que confirma a regra. E ao que consta está para ser publicado em português. Espero que ponham um bom tradutor a traduzir porque merece.
Uma mensagem para a Moody's
0 comentáriosSegui a sugestão, bem pensada, do José Mário e escrevi um pequeno e-mail à Moody's para agradecer a sua ajuda em fazer com que saiamos da crise.
Escrevam também:
RatingsDesk@moodys.com
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Escrevam também:
RatingsDesk@moodys.com
Correntes d'escritas??
0 comentários sábado, 2 de julho de 2011Já não bastavam os e-mails com correntes agora também me mandam para o blogue. Tá bonito tá. Mas vá lá, esta é da casa e portanto responde-se.
1. Existe um livro que relerias várias vezes?
Muitos mas não tenho tempo para reler. Estou a guardá-los para a reforma se ainda tiver vista.
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Não. Sou prático nisto. Ou me interessa, ou tenho de ler, ou, se não me motiva, há muito mais que ler na vida que é demasiado curta. Ok, vá lá: O corredor de Jean Reverzy. Só voltei a tentar ler este porque da minha primeira leitura ficou a ideia de que era uma coisa tão irritantemente estúpida que pensei que não podia ser verdade.
3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
... Seria provavelmente o errado. Com a minha sorte...
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Aqui tem de vir o As mil e uma noites integral... que só li bocadinhos e ando há milénios para ler. Ah, e o La vita do Benvenuto Cellini.
5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Uma cena nada final, mesmo bem no meio, passada num poço no The wind-up bird chronicle que quem leu não esquece.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Verne, Stevenson, Salgari, Os cinco, Jim Kjelgaard, Jack London, Walter Scott, G. A. Henry, Mark Twain e a colecção completa da revista Tintin, ou seja era aventura e mais aventura. Costumava rasgar os livros infantis que me davam.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Tenho uma longa lista daquele tipo de autores que escrevem sobre coisas que não me entusiasmam mas cuja leitura não consigo parar. Assim no topo da lista: Julien Green, Maria Judite de Carvalho e um outro autor que não vou mencionar porque um dia talvez o publique.
Porquê? Porque escrevem tão bem que, apesar de abordarem temas pelos quais geralmente não me interesso, são inelargáveis (isto existe?)
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
A ilha do tesouro (Stevenson), Caninos brancos (London), As aventuras de Sindbad (do Guyla Krudy), Moby Dick (Melville), O último justo (Schwarz-Bart), Gente independente (Laxness), O último Unicórnio (Beagle), A noite e o riso (Bragança), Contos fantásticos (Carvalhal), Zero (Loyola Brandão), Com amor e raiva (Pratolini), A ponte sobre o Drina (Andric), A tia Júlia e o escrevedor (Llosa), A roda da fortuna (Jorn), Dom Quixote (Cervantes), Wuthering heights (Brontë), Complete short-stories (Maugham), The wind-up bird Chronicle (Murakami), O bosque harmonioso (Abelaira), Jó (J. Roth), Narciso e Goldmundo (Hesse), The sacred book of the werewolf (Pelevin), Oscar & Lucinda (Carey), Kristin Lavransdatter (Undset), A noite de Walpurgis e O Golem (Meyrink), Gormenghast (Peake), O Castelo do homem ancorado (Huysmans), Margarida e o mestre (Bulgakov), quase tudo do Bioy Casares, A última receita (Lindgren), Heart's delight (Nilsson), quase toda a obra da Selma Lagerlöf, quase tudo do John Fowles, Escrevo-lhe de Itália (Déon), Inside, outside (Wouk), poesia do Char, do Vinicius, do Browning, do Neruda, da Szymborska, do Maiakowski, quase toda a ficção do Stanislav Lem, Casa de campo (Donoso), Great expectations (Dickens), os contos do Machen e do Robert E. Howard, Os moedeiros falsos (Gide), os contos do Eça, O arranca corações (Vian), poesia do Mário de Saa, do Joaquim Namorado, do Carlos Queiroz, todo o Raul Brandão, os contos e algumas crónicas e ensaios de António Ferro, tudo do Edward Whittemore, Zorba (Kazantzaki), O livro de San Michele (Munthe), To kill a mockingbird (Lee), Spice & Wolf (os "light novels"), Behold! this dreamer (de la Mare), mais poesia do Gomes Leal, Manoel de Barros, Coleridge, e posso continuar se quiserem mas sentir-me-ia como o Eco nos últimos romances: a masturbar-se para o público.
9. Que livro estás a ler?
The heroes do Joe Abercrombie e uma série de outros que, por motivos profissionais, não vou revelar.
10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.
Não tenho dez amigos com blogues portanto vai para blogueiros que gostaria de ver a responderem a isto: para o Zé Mário, a Isabel, o Eduardo, o André, a Sara, para o Paulo e o Nuno, o Rui, o José, outro Nuno, para o Don (para ver se volta a escrever), a Susana e a Susana (já foram demasiados mas como nenhum deles me segue, não se nota)
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1. Existe um livro que relerias várias vezes?
Muitos mas não tenho tempo para reler. Estou a guardá-los para a reforma se ainda tiver vista.
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Não. Sou prático nisto. Ou me interessa, ou tenho de ler, ou, se não me motiva, há muito mais que ler na vida que é demasiado curta. Ok, vá lá: O corredor de Jean Reverzy. Só voltei a tentar ler este porque da minha primeira leitura ficou a ideia de que era uma coisa tão irritantemente estúpida que pensei que não podia ser verdade.
3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
... Seria provavelmente o errado. Com a minha sorte...
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Aqui tem de vir o As mil e uma noites integral... que só li bocadinhos e ando há milénios para ler. Ah, e o La vita do Benvenuto Cellini.
5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Uma cena nada final, mesmo bem no meio, passada num poço no The wind-up bird chronicle que quem leu não esquece.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Verne, Stevenson, Salgari, Os cinco, Jim Kjelgaard, Jack London, Walter Scott, G. A. Henry, Mark Twain e a colecção completa da revista Tintin, ou seja era aventura e mais aventura. Costumava rasgar os livros infantis que me davam.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Tenho uma longa lista daquele tipo de autores que escrevem sobre coisas que não me entusiasmam mas cuja leitura não consigo parar. Assim no topo da lista: Julien Green, Maria Judite de Carvalho e um outro autor que não vou mencionar porque um dia talvez o publique.
Porquê? Porque escrevem tão bem que, apesar de abordarem temas pelos quais geralmente não me interesso, são inelargáveis (isto existe?)
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
A ilha do tesouro (Stevenson), Caninos brancos (London), As aventuras de Sindbad (do Guyla Krudy), Moby Dick (Melville), O último justo (Schwarz-Bart), Gente independente (Laxness), O último Unicórnio (Beagle), A noite e o riso (Bragança), Contos fantásticos (Carvalhal), Zero (Loyola Brandão), Com amor e raiva (Pratolini), A ponte sobre o Drina (Andric), A tia Júlia e o escrevedor (Llosa), A roda da fortuna (Jorn), Dom Quixote (Cervantes), Wuthering heights (Brontë), Complete short-stories (Maugham), The wind-up bird Chronicle (Murakami), O bosque harmonioso (Abelaira), Jó (J. Roth), Narciso e Goldmundo (Hesse), The sacred book of the werewolf (Pelevin), Oscar & Lucinda (Carey), Kristin Lavransdatter (Undset), A noite de Walpurgis e O Golem (Meyrink), Gormenghast (Peake), O Castelo do homem ancorado (Huysmans), Margarida e o mestre (Bulgakov), quase tudo do Bioy Casares, A última receita (Lindgren), Heart's delight (Nilsson), quase toda a obra da Selma Lagerlöf, quase tudo do John Fowles, Escrevo-lhe de Itália (Déon), Inside, outside (Wouk), poesia do Char, do Vinicius, do Browning, do Neruda, da Szymborska, do Maiakowski, quase toda a ficção do Stanislav Lem, Casa de campo (Donoso), Great expectations (Dickens), os contos do Machen e do Robert E. Howard, Os moedeiros falsos (Gide), os contos do Eça, O arranca corações (Vian), poesia do Mário de Saa, do Joaquim Namorado, do Carlos Queiroz, todo o Raul Brandão, os contos e algumas crónicas e ensaios de António Ferro, tudo do Edward Whittemore, Zorba (Kazantzaki), O livro de San Michele (Munthe), To kill a mockingbird (Lee), Spice & Wolf (os "light novels"), Behold! this dreamer (de la Mare), mais poesia do Gomes Leal, Manoel de Barros, Coleridge, e posso continuar se quiserem mas sentir-me-ia como o Eco nos últimos romances: a masturbar-se para o público.
9. Que livro estás a ler?
The heroes do Joe Abercrombie e uma série de outros que, por motivos profissionais, não vou revelar.
10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.
Não tenho dez amigos com blogues portanto vai para blogueiros que gostaria de ver a responderem a isto: para o Zé Mário, a Isabel, o Eduardo, o André, a Sara, para o Paulo e o Nuno, o Rui, o José, outro Nuno, para o Don (para ver se volta a escrever), a Susana e a Susana (já foram demasiados mas como nenhum deles me segue, não se nota)
Literatura de língua portuguesa na Ulisseia, um (ou 4) desafios
6 comentários quarta-feira, 29 de junho de 2011Já vos falei um pouco do que andava a fazer na Ulisseia mas este ano posso concretizar com mais propriedade ainda aquilo que pretendo fazer em termos da edição de obras de autores de língua portuguesa. Também nessa área, como nas restantes, o desafio que me foi feito é a edição de ficção de referência: publicar não apenas autores consagrados como novos autores que prometam vir a fazer parte de cânones futuros.
Claro que essa é uma escolha do editor e portanto gostaria mesmo de saber a vossa opinião - depois de lidos os livros - opiniões pelas contracapas são, no mínimo discutíveis.
Por outro lado um nome consagrado mas esquecido: a grande Maria Judite de Carvalho. Este será o seu único (e formalmente verdadeiro) romance (curto ou novela longa). Narradora maior da situação da mulher numa sociedade cada vez mais desumanizada.
MJC fala da solidão como poucos escritores em todo o mundo conseguiram: com uma verdade incómoda e impossível de contornar. Uma incomodidade que se torna física e asfixiante. De repente temos de pousar o livro e olhar em roda. Como dizia o Eduardo Pitta, provavelmente não com estas palavras que seguem por fraca memória, a escrita de MJC vale por todo um seminário de escrita criativa.
Curiosamente próximo do livro do Fernando Esteves Pinto está este também violento romance-choque do Paulo José Miranda (primeiro prémio Saramago) a quem desafiei para regressar à edição deste lado do canal - ele vive agora do outro lado do Atlântico.
Uma obra que põe a nu o vazio das relações modernas e a necessidade de uma violência física e psicológica para comunicar os sentimentos que não conseguimos sequer entender por nós próprios. Crítica do nosso mundo da comunicação em que comunicamos levianamente tudo o que temos de superficial para comunicar mas nunca nos abrimos. E quando o queremos fazer não há como.
Alguém há-de lembrar-se de um livro publicado pela Bertrand em Portugal, corria o ano de 1976. Uma obra proibida no Brasil aquando da sua publicação poucos anos antes e só "liberado" 9 anos depois. Cá também esteve fora de circulação até 1976. Chamava-se «Zero» e durante a Expo 98 foi considerada uma das 100 obras de língua portuguesa do século XX.
«Zero», que vamos publicar em Outubro comemorando, cá como no Brasil, o aniversário da sua polémica publicação, será provavelmente o único romance verdadeiramente inovador do século XX depois das experiências modernistas joycianas (ok, a heresia é minha). Este outro, livro com que começamos a publicação das obras de Loyola Brandão por cá, é algo totalmente diferente mas que, também ele, foi inovador na forma como abordou questões ambientais naquilo que poderia chamar-se um pan-romance, sobretudo pela pluralidade de leituras que permite e pela pluralidade de leitores a quem abre a porta.
Diz-se muitas vezes que os autores brasileiros não vendem em Portugal e até é verdade. À excepção daqueles grandes nomes incontornáveis, qualquer nome que se apresente não merece sequer uma palavra da crítica, quanto mais a atenção dos leitores. Daí também o meu desafio: se é um leitor que gosta de qualquer uma seguintes coisas (independentemente se gosta das outras), se gosta de uma grande história seja ela de amor, policial/thriller, ficção científica, ambientalista ou poética; se gosta de obras escritas numa linguagem aparentemente simples mas onde cada palavra para além de se poder ler à superfície encerra em si outros significados e uma poesia tremenda; se gosta de grandes romances metafóricos comparáveis, por exemplo, a «Ensaio sobre a cegueira», mas que vão muito para lá desse livro em qualidade literária propriamente dita e "inventividade", experimente umas páginas deste mundo onde o desaparecimento da camada de ozono obriga o ser humano a viver de noite e debaixo da terra, a comprar frascos com cheiro de flores ou terra molhada e onde, ainda assim, é tão difícil aceitar a nossa culpa em tudo isso como quebrar as regras de um amor.
É isto. Ficam os desafios e esperam-se as opiniões.
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Claro que essa é uma escolha do editor e portanto gostaria mesmo de saber a vossa opinião - depois de lidos os livros - opiniões pelas contracapas são, no mínimo discutíveis.
Assim este ano o romance-choque de Fernando Esteves Pinto, «Brutal». Uma obra para quem gosta da literatura que dá socos, bem aveludados, no estômago do leitor (daqueles socos no estômago que sobem à cabeça porque obrigam a pensar). O Miguel Real disse já por várias vezes que o Fernando é dos poucos escritores portugueses a saber escrever - e como! - sobre sexo mas eu creio que vai muito para lá disso. Há algo de existencialista na sua escrita que o aproxima da força de um «Húmus», esse objecto estranho da nossa literatura, e de «A morte do palhaço», outro ainda mais estranho produto de Raul Brandão.
O livro segue duas idades de um mesmo personagem, fascinado por teatro, que narra trazendo em encenações palpitantes à boca da cena os traumas de infância que enformam a sua difícil relação com a sua companheira. Olhar e diálogo entre os diversos tempos sobre si mesmos e sobre os outros (tempos entenda-se) é um encadear de momentos vívidos escritos de forma inesquecível. Agora não o escondo: é um livro difícil. A Maria do Rosário teve o livro em sua posse mas admitiu que era um livro bom mas difícil de encontrar público. O que acham? São leitores preparados para pugilato literário ou daqueles que preferem ser acarinhados pelas suas leituras? Cada um destes tipos de leitor tem as suas vantagens e desvantagens, as suas glórias e misérias mas os primeiros são mais raros.
MJC fala da solidão como poucos escritores em todo o mundo conseguiram: com uma verdade incómoda e impossível de contornar. Uma incomodidade que se torna física e asfixiante. De repente temos de pousar o livro e olhar em roda. Como dizia o Eduardo Pitta, provavelmente não com estas palavras que seguem por fraca memória, a escrita de MJC vale por todo um seminário de escrita criativa.
Curiosamente próximo do livro do Fernando Esteves Pinto está este também violento romance-choque do Paulo José Miranda (primeiro prémio Saramago) a quem desafiei para regressar à edição deste lado do canal - ele vive agora do outro lado do Atlântico.
Uma obra que põe a nu o vazio das relações modernas e a necessidade de uma violência física e psicológica para comunicar os sentimentos que não conseguimos sequer entender por nós próprios. Crítica do nosso mundo da comunicação em que comunicamos levianamente tudo o que temos de superficial para comunicar mas nunca nos abrimos. E quando o queremos fazer não há como.
Alguém há-de lembrar-se de um livro publicado pela Bertrand em Portugal, corria o ano de 1976. Uma obra proibida no Brasil aquando da sua publicação poucos anos antes e só "liberado" 9 anos depois. Cá também esteve fora de circulação até 1976. Chamava-se «Zero» e durante a Expo 98 foi considerada uma das 100 obras de língua portuguesa do século XX.
«Zero», que vamos publicar em Outubro comemorando, cá como no Brasil, o aniversário da sua polémica publicação, será provavelmente o único romance verdadeiramente inovador do século XX depois das experiências modernistas joycianas (ok, a heresia é minha). Este outro, livro com que começamos a publicação das obras de Loyola Brandão por cá, é algo totalmente diferente mas que, também ele, foi inovador na forma como abordou questões ambientais naquilo que poderia chamar-se um pan-romance, sobretudo pela pluralidade de leituras que permite e pela pluralidade de leitores a quem abre a porta.
Diz-se muitas vezes que os autores brasileiros não vendem em Portugal e até é verdade. À excepção daqueles grandes nomes incontornáveis, qualquer nome que se apresente não merece sequer uma palavra da crítica, quanto mais a atenção dos leitores. Daí também o meu desafio: se é um leitor que gosta de qualquer uma seguintes coisas (independentemente se gosta das outras), se gosta de uma grande história seja ela de amor, policial/thriller, ficção científica, ambientalista ou poética; se gosta de obras escritas numa linguagem aparentemente simples mas onde cada palavra para além de se poder ler à superfície encerra em si outros significados e uma poesia tremenda; se gosta de grandes romances metafóricos comparáveis, por exemplo, a «Ensaio sobre a cegueira», mas que vão muito para lá desse livro em qualidade literária propriamente dita e "inventividade", experimente umas páginas deste mundo onde o desaparecimento da camada de ozono obriga o ser humano a viver de noite e debaixo da terra, a comprar frascos com cheiro de flores ou terra molhada e onde, ainda assim, é tão difícil aceitar a nossa culpa em tudo isso como quebrar as regras de um amor.
É isto. Ficam os desafios e esperam-se as opiniões.
Compêndio civilizacional
1 comentários sexta-feira, 17 de junho de 2011Uma das grandes vantagens do Facebook, para além de, por vezes, nos contemplar com eflúvios de palermice, é oferecer algumas grandes sínteses culturais e civilizacionais.
O vídeo em causa é o melhor exemplo da tipologia mencionada e, em si só e em menos de 5 minutos, condensa toda a cultura de um povo de forma bem mais sucinta que a feira da Avenida da Liberdade e o piquenique do Carreira.
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O vídeo em causa é o melhor exemplo da tipologia mencionada e, em si só e em menos de 5 minutos, condensa toda a cultura de um povo de forma bem mais sucinta que a feira da Avenida da Liberdade e o piquenique do Carreira.
Notícias do mundo
0 comentários sexta-feira, 15 de abril de 2011O governo grego anunciou um protocolo de parcerias para produzir um pequeno computador destinado aos jovens estudantes. Trata-se de um modelo apenas com o essencial para permitir a familiarização com as novas tecnologias combatendo a info-exclusão. Ao ser produzido a nível nacional será um notável investimento e fonte de encaixe para as empresas nacionais que o venham a produzir e comercializar. Em honra aos grandes homens e grandes feitos so povo helénico este modelo de pequeno computador chamar-se-á: Sócrates.
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Personagens (1)
0 comentários terça-feira, 15 de fevereiro de 2011Actriz de filmes pornográficos lésbicos grega: Clitmestra.
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Palermas há muitos meu chapéu.
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”
Livros do Ano 2010
6 comentários quarta-feira, 22 de dezembro de 2010Estava a tentar fazer uma lista contida, juro. Mas este ano teve mesmo coisas muito boas. Foi um grande ano cheio de grandes livros. O mercado está a subir na qualidade global das edições e isso agrada-me. Também me agrada ter alguns livros por mim publicados que, não fosse o mau aspecto, colocaria sem hesitações aqui nesta lista.
E no fim de contas em que resultou esta situação de tentar fazer uma lista contida? Numa listagem enorme de coisas boas que não consegui tirar.da longlist.
Assim - e este ano sem imagens - aqui vão os meus [34] livros do ano de 2010:
Os passos perdidos
Alejo Carpentier
Camões & companhia
Edição & Editores - O mundo do livro em Portugal (1940-1970)
Nuno Medeiros
ICS
Parrot e Olivier na América
Peter Carey
Gradiva
O castelo de Gormenghast
Mervyn Peake
Saída de Emergência
Colum McCann
Deixa o grande mundo girar
Civilização
(li em inglês, não sei o estado da tradução portuguesa)
Bibliotecas cheias de fantasmas
Jacques Bonnet
Quetzal
Klas Östergen
Gangsters
Estampa
(Já li este livro, também parte de uma trilogia nórdica - para mim e de longe melhor que o Stieg Larsson - há uns anos, creio que este livro é de 2010, se não for não faz mal)
Subway Life
António Jorge Gonçalves
Assírio&Alvim
Livro rosé de sua santidade o camarada-presidente Vieira
Assírio&Alvim
A viagem do Beagle
Charles Darwin
Relógio d'Água
Contos
Ambrose Bierce
Saída de Emergência
&
Contos Completos
Ambrose Bierce
Eucleia
Adoecer
Hélia Correia
Relógio d'Água
A Primavera há-de chegar Bandini
John Fante
Ahab
O jogador de râguebi
Óscar Bustamante
Bizâncio
Uma viagem à Índia
Gonçalo M. Tavares
Caminho
(não é para ser do contra, mas gostei mesmo mais...)
Homens, espadas e tomates
Rainer Dernhardt
Zéfiro
De espécie complicada
Abel Barros Baptista
Angelus Novus
Brevíssimo Inventário
Marcello Duarte Mathias
Dom Quixote
Divórcio em Buda
Sandor Marai
Dom Quixote
Nasci para Nascer
Pablo Neruda
Europa-América
(li em castelhano, não sei da qualidade da tradução)
O passado
Alan Pauls
Dom Quixote
O fim do império romano
Adrian Goldsworth
Esfera dos Livros
Escritos pornográficos
Boris Vian
Guerra & Paz
Um mundo deste tamanho
Pedro Cotrim
Centro Atlântico
Os objectos chamam-nos
Juan José Millás
Planeta
(uma das piores capas do ano)
Os livros que devoraram o meu pai
Afonso Cruz
Caminho
Popville
Boisrobert & Rigaud
Bruáa
História política do diabo
Daniel Defoe
Guerra & Paz
A arte de dar peidos
Pierre Thomas-nicolas Hurtaut
Orfeu Negro
Livro
José Luís Peixoto
Quetzal
Quinze dias no deserto americano
Alexis de Tocqueville
Angelus Novus
A assombrosa viagem de Pompónio Flato
Eduardo Mendoza
Sextante
Memórias
Rómulo de Carvalho
Fundação Calouste Gulbenkian
Viva México
Alexandra Lucas Coelho
Tinta da China
Para a melhor capa do ano, embora o livro, sendo bom, não seja dos meus favoritos:
Ágape, agonia
William Gaddis
Ahab
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E no fim de contas em que resultou esta situação de tentar fazer uma lista contida? Numa listagem enorme de coisas boas que não consegui tirar.da longlist.
Assim - e este ano sem imagens - aqui vão os meus [34] livros do ano de 2010:
Os passos perdidos
Alejo Carpentier
Camões & companhia
Edição & Editores - O mundo do livro em Portugal (1940-1970)
Nuno Medeiros
ICS
Parrot e Olivier na América
Peter Carey
Gradiva
O castelo de Gormenghast
Mervyn Peake
Saída de Emergência
Colum McCann
Deixa o grande mundo girar
Civilização
(li em inglês, não sei o estado da tradução portuguesa)
Bibliotecas cheias de fantasmas
Jacques Bonnet
Quetzal
Klas Östergen
Gangsters
Estampa
(Já li este livro, também parte de uma trilogia nórdica - para mim e de longe melhor que o Stieg Larsson - há uns anos, creio que este livro é de 2010, se não for não faz mal)
Subway Life
António Jorge Gonçalves
Assírio&Alvim
Livro rosé de sua santidade o camarada-presidente Vieira
Assírio&Alvim
A viagem do Beagle
Charles Darwin
Relógio d'Água
Contos
Ambrose Bierce
Saída de Emergência
&
Contos Completos
Ambrose Bierce
Eucleia
Adoecer
Hélia Correia
Relógio d'Água
A Primavera há-de chegar Bandini
John Fante
Ahab
O jogador de râguebi
Óscar Bustamante
Bizâncio
Uma viagem à Índia
Gonçalo M. Tavares
Caminho
(não é para ser do contra, mas gostei mesmo mais...)
Homens, espadas e tomates
Rainer Dernhardt
Zéfiro
De espécie complicada
Abel Barros Baptista
Angelus Novus
Brevíssimo Inventário
Marcello Duarte Mathias
Dom Quixote
Divórcio em Buda
Sandor Marai
Dom Quixote
Nasci para Nascer
Pablo Neruda
Europa-América
(li em castelhano, não sei da qualidade da tradução)
O passado
Alan Pauls
Dom Quixote
O fim do império romano
Adrian Goldsworth
Esfera dos Livros
Escritos pornográficos
Boris Vian
Guerra & Paz
Um mundo deste tamanho
Pedro Cotrim
Centro Atlântico
Os objectos chamam-nos
Juan José Millás
Planeta
(uma das piores capas do ano)
Os livros que devoraram o meu pai
Afonso Cruz
Caminho
Popville
Boisrobert & Rigaud
Bruáa
História política do diabo
Daniel Defoe
Guerra & Paz
A arte de dar peidos
Pierre Thomas-nicolas Hurtaut
Orfeu Negro
Livro
José Luís Peixoto
Quetzal
Quinze dias no deserto americano
Alexis de Tocqueville
Angelus Novus
A assombrosa viagem de Pompónio Flato
Eduardo Mendoza
Sextante
Memórias
Rómulo de Carvalho
Fundação Calouste Gulbenkian
Viva México
Alexandra Lucas Coelho
Tinta da China
Para a melhor capa do ano, embora o livro, sendo bom, não seja dos meus favoritos:
Ágape, agonia
William Gaddis
Ahab
Sintoma
0 comentários sábado, 30 de outubro de 2010Os amigos dos meus vizinhos tocam sempre à minha campainha. Compreendo. É natural na situação actual do nosso país que se confunda constantemente a esquerda com a direita e vice-versa.
read more “Sintoma”
O último homem
2 comentários quinta-feira, 28 de outubro de 2010Não vou falar sobre o livro senão para dizer que, pessoalmente (com toda a subjectividade que há num editor que fala de um livro que está a publicar), considero este um dos grandes romances do século XX.
Falo sobretudo sobre esse grande personagem que foi M. P. Shiel, primeiro rei - Felipe - de Redonda, um rochedo deserto perto da ilha de Montserrat, no Caribe, local onde nascera. Falo do amigo de Salvador Dalí e Reynolds Morse. Sobretudo falo do escritor excêntrico, considerado por quase todos os grandes nomes da literatura, seus contemporâneos e seus herdeiros, como o grande escritor que ninguém conhecia. Um escritor para escritores. Falo do homem que viu a quase todas as suas obras enfiadas em escaparates dedicados à literatura fantástica quando as suas obras são, acima de tudo, portentos em que a filosofia e a simbologia ocupam grande parte de enredos magníficos. Quem já leu o conto fin-de-siècle que divulguei neste blogue, ter-se-á já apercebido de tal.
É um escritor acima de muitos, de quase todos; um escritor que não escreve fantasia ou ficção científica e, no entanto, é fantástico e antecipa muito do que se veio a escrever, pensar e reivindicar ao longo do século que se lhe seguiu. Nesta obra, por exemplo, é ecológico, teológico, aventureiro, questionante, muito perturbador e - sempre - genial.
Ah, e sobre quem seja o último homem... só mesmo lendo o livro.
read more “O último homem”
Falo sobretudo sobre esse grande personagem que foi M. P. Shiel, primeiro rei - Felipe - de Redonda, um rochedo deserto perto da ilha de Montserrat, no Caribe, local onde nascera. Falo do amigo de Salvador Dalí e Reynolds Morse. Sobretudo falo do escritor excêntrico, considerado por quase todos os grandes nomes da literatura, seus contemporâneos e seus herdeiros, como o grande escritor que ninguém conhecia. Um escritor para escritores. Falo do homem que viu a quase todas as suas obras enfiadas em escaparates dedicados à literatura fantástica quando as suas obras são, acima de tudo, portentos em que a filosofia e a simbologia ocupam grande parte de enredos magníficos. Quem já leu o conto fin-de-siècle que divulguei neste blogue, ter-se-á já apercebido de tal.
É um escritor acima de muitos, de quase todos; um escritor que não escreve fantasia ou ficção científica e, no entanto, é fantástico e antecipa muito do que se veio a escrever, pensar e reivindicar ao longo do século que se lhe seguiu. Nesta obra, por exemplo, é ecológico, teológico, aventureiro, questionante, muito perturbador e - sempre - genial.
Ah, e sobre quem seja o último homem... só mesmo lendo o livro.
Pimpineirização
0 comentários quinta-feira, 21 de outubro de 2010Ontem vi o frente a frente da SIC notícias com o António Barreto e o Miguel Sousa Tavares e cheguei à triste conclusão que a actual situação socio-económica do país teve este particular efeito: todos os comentadores acabaram de se transformar em Medinas Carreiras.
read more “Pimpineirização”
Bolaño dixit
0 comentáriosBolaño dizia que era impossível parar de ler qualquer história escrita por Pablo Simonetti. A nova coqueluche das letras sul-americanas é um fenómeno imparável. Saiu do Chile para o mundo depois de conseguir várias proezas: ganhou os prémios mais importantes, foi louvado por toda a crítica literária e ao mesmo tempo destronou por três vezes consecutivas (as dos seus três romances) Isabel Allende dos tops de vendas (e isto é totalmente inédito). Aliado a tudo isto, diz-me uma das minhas assistentes, é giro.
Os temas são mundanos mas a profundidade, sentido de humor, e o simples talento literário catapultam a qualidade da escrita deste autor para uma dimensão apenas ao alcance de muito poucos: aqueles raros nomes que sendo brilhantes agradam a gregos e troianos (entenda-se ao público erudito e ao não tanto).
Gostava de saber a vossa opinião.
read more “Bolaño dixit”
Os temas são mundanos mas a profundidade, sentido de humor, e o simples talento literário catapultam a qualidade da escrita deste autor para uma dimensão apenas ao alcance de muito poucos: aqueles raros nomes que sendo brilhantes agradam a gregos e troianos (entenda-se ao público erudito e ao não tanto).
Gostava de saber a vossa opinião.
Surpresa, Surpresa
6 comentáriosFoi uma daquelas coisas. Um dia pus-me a pensar: quem, de entre aqueles génios do cinema, poderia ter escrito um grande livro? Orson Welles foi o nome que me surgiu de imediato. Atirei-me à Amazon descrente para ser surpreendido. Havia um livro, melhor - um romance!
Depois surgiram as questões: terá sido mesmo Welles a escrever o livro? O seu secretário? Terá Welles ditado o livro a outra pessoa? Sabe-se apenas de onde veio a base da história: do grande filme que Welles nunca realizou. Com efeito, a meio da realização de Mr. Arkadin, Welles viu serem-lhe cortadas as pernas (a nível orçamental). Esteve para repudiar o filme e retirar o seu nome. Este livro, publicado poucos anos depois tem por base as notas de Welles que pretendia ultrapassar «Citizen Kane» e criar o fresco da sociedade contemporânea e de todo o século XX vivido até à altura.
A ideia da investigação do passado obscuro de um multimilionário internacional amnésico cruzava personagens do «Terceiro Homem» de Graham Greene e da continuação das aventuras de Harry Lime que Welles desenvolvera em novela radiofónica. Mas outros personagens de outros filmes, de outras produções radiofónicas de outras obras literárias cruzariam o enredo construindo um retrato panorâmico inigualável.
A maestria com que está escrito é, também ela, inegável o que demonstra a mão presente e firme de Welles. Se todas as palavras são suas ninguém o virá a saber mas que a importância do livro para a compreensão do homem e do seu tempo e, a um nível mais geral, a relevância da obra em termos literários ecinematográficos - em termos culturais no geral - é algo indiscutível.
Venham conhecer esta «sórdida vida secreta» do século XX.
read more “Surpresa, Surpresa”
Depois surgiram as questões: terá sido mesmo Welles a escrever o livro? O seu secretário? Terá Welles ditado o livro a outra pessoa? Sabe-se apenas de onde veio a base da história: do grande filme que Welles nunca realizou. Com efeito, a meio da realização de Mr. Arkadin, Welles viu serem-lhe cortadas as pernas (a nível orçamental). Esteve para repudiar o filme e retirar o seu nome. Este livro, publicado poucos anos depois tem por base as notas de Welles que pretendia ultrapassar «Citizen Kane» e criar o fresco da sociedade contemporânea e de todo o século XX vivido até à altura.
A ideia da investigação do passado obscuro de um multimilionário internacional amnésico cruzava personagens do «Terceiro Homem» de Graham Greene e da continuação das aventuras de Harry Lime que Welles desenvolvera em novela radiofónica. Mas outros personagens de outros filmes, de outras produções radiofónicas de outras obras literárias cruzariam o enredo construindo um retrato panorâmico inigualável.
A maestria com que está escrito é, também ela, inegável o que demonstra a mão presente e firme de Welles. Se todas as palavras são suas ninguém o virá a saber mas que a importância do livro para a compreensão do homem e do seu tempo e, a um nível mais geral, a relevância da obra em termos literários ecinematográficos - em termos culturais no geral - é algo indiscutível.
Venham conhecer esta «sórdida vida secreta» do século XX.
Quem conta tais contos?
0 comentáriosLembrar-se-ão alguns da Cláudia Clemente cujo livro de estreia, «Caderno Nergro» (2003), foi louvado pela crítica como obra revelação de um grande novo talento. Após a publicação desse livro a Cláudia, poli-artística, dedicou-se a outras artes e outros vôos - apesar de ter continuado a publicar contos em diversas revistas e antologias.
Coincidiu com a minha chegada a esta casa que a Cláudia tivesse decidido voltar a publicar. E assim surgiu este «A Fábrica da Noite» que retoma o percurso de escrita de uma grande autora.
Mantém muito do ambiente fantástico que cruzava os seus primeiros contos mas a escrita evoluiu. Agora é mais abrangente. Há contos para todos os gostos mas o estilo é único e a atmosfera é minuciosamente construída com uma oncisão ímpar, sejam os contos eróticos, fantásticos, quase detectivescos ou frescos de cantos alternativos da nossa realidade.
Patifes... como nós
1 comentários domingo, 17 de outubro de 2010Durante anos o império britânico "exportou" para a Oceania o que de pior produzia - falo de seres humanos. A escumalha das ilhas britânicas e os membros menos obedientes dos exércitos de Suas Magestades encheram barcos e barcos a caminho daquelas terras longe de tudo.
No final do século XIX a coisa alterou-se ligeiramente: algumas rotas marítimas importantes começaram a fazer da Austrália algo mais do que uma prisão distante e pouco incómoda. a própria modernidade intelectual já não permitia a culpabilização das gerações de filhos da escumalha. Ainda assim e apesar das mudanças a vida não era fácil naquele mundo distante.
***
Noutro dia, ao passar na FNAC do Chiado descobri este livro delicioso - que pelos vistos vem já na sequência de um outro do mesmo autor (Peter Boyle) - «Crooks like us» publicado em Sydney pelo Historic Houses Trust é uma viagem espantosa ao arquivo fotográfico da polícia de Sydney nas primeiras décadas do século XX.

Homens e mulheres desfilam face à máquina do tempo que os preservará até hojeao mesmo tempo que o seu autor procura recnstituir, como um detective do tempo, as suas vidas e os seus crimes. O livro inclui um notável estudo social e criminal sobre estes homens e as suas circunstâncias.
Será que por cá temos arquivos como estes? e os ficheiros da polícia a eles respeitantes... existem ainda? Se alguém souber gostaria de fazer algo semelhante por cá. Enquanto isso vou procurar o outro livro do autor.
Romance de um homem simples
0 comentários sábado, 16 de outubro de 2010Não sei porquê mas sempre que leio estes grandes nomes da literatura de inspiração judaica, sobretudo os que escreveram na Europa entre o século XIX e o século XX, fico deslumbrado. Parecem ser quase todos excepcionais.
O meu fascínio terá começado ao ler Schwarz-bart mas depois naveguei por outros nomes e escritores e há uns anos atrás cheguei a Roth, este, o Joseph, que há outros. a sua escrita aparentemente simples e os grandes dramas da existência e da fé desenhados sem hiperbole e com uma maestria singular marcaram-me pessoalmente.
Assim quis começar este novo projecto da Ulisseia com uma das obras essenciais de Joseph Roth, talvez, segundo alguns, a sua obra-prima. Pessoalmente creio que é um dos melhores romances do século XX, escrito quando esse mesmo século era ainda criança mas já tinha sofrido bastante.
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