O estado da situação

0 comentários quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
A Lusa informou-me hoje via Facebook(*) que os países emergentes recusam propostas em Copenhaga. Se continuarem a recusar, muitos deles serão, dentro de poucos anos, países imergentes.

(*) Em troca de ontem às tantas da matina eu os ter informado do tremor de terra que só noticiaram mais de uma hora depois...
read more “O estado da situação”

A primeira prenda de Natal

0 comentários
Chegou-me nesta 2ª feira. Um envelope com a magnífica tese de Mestrado do Nuno Ribeiro de Medeiros «Edição e editores Portugueses - Perscrições, Percursos e Dinâmicas (décadas de 1940 a 1960)» que lhe valeu o prémio de História Contemporânea da Fundação Mário Soares.

Junto com ele, mandou-me o Nuno um brinde:


Um volumezinho delicioso que já me entreti a espiolhar. Bom artigo o do Nuno que faz um retrato da figura do editor - pelo menos eu senti-me muito retratado. Acho que, afinal, sou um cliché. Com uma excepção. Não sou um editor de almoços. Os famosos almoços dos editores com os autores ou outros editores. Não, de facto prefiro almoços calmos sem ter de pensar em trabalho.

O segundo ensaio que devorei foi o de Tiago Santos sobre os leitores do Cavaleiro Andante, basicamente porque, muitos anos depois, entre a colecção do meu avô e da minha mãe, andei eu a devorá-los ao mesmo tempo que devorava a colecção do Mundo de Aventuras do meu tio e os Tintins do meu pai. Acho que os propósitos e estrutura de uma revista do género continuariam a fazer sentido hoje em dia.

Um livro importante que prova finalmente que o mundo universitário começa a abrir-se um pouco mais ao exterior.
read more “A primeira prenda de Natal”

O esforço

3 comentários
Se o Blogtailors fosse lido por mais gente que não apenas os profissionais do sector, estaríamos já com muito mais público virado para os e-books.
read more “O esforço”

Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (7)

0 comentários terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Poe, uma vida abreviada - Peter Ackroyd - Camões e Companhia

Neste ano Poe o mercado português vê surgir uma das melhores biografias do grande génio das letras americanas. E também o menos americano. Poe com a sua preocupação com o passado e as suas consequências no presente e futuro ergue-se como um gigante contra o sonho americano da nova oportunidade. Uma perspectiva sem passado.

A tradução perde um pouco da própria grandeza de Ackroyd que é, para além de um grande biógrafo, um grande escritor, mas acaba por ser uma questão de pormenor numa edição de qualidade.


Obra poética completa - Edgar Allan Poe - Tinta da China

Continuando ainda no ano Poe, é de assinalar esta grande edição, em tamanho e qualidade. Margarida Vale de Gato que, depois do seu tremendo output de traduções na Relógio d'Água, tem vindo a melhorar um nível já de si muito interessante, dando mais tempo às traduções para amadurecerem, ensaia aqui provavelmente a tradução mais difícil da sua carreira e sai-se bastante bem.

Escusado será falar da qualidade da poesia de Poe e da sua tremenda influência a nível internacional (Baudelaire e Pessoa, são apenas dois exemplos). Uma obra imprescindível.


Poemas - Alfred Tennyson - Saída de emergência

E já que estamos em maré de poesia, eis-nos perante um objecto estranho no programa editorial da Saída de Emergência. Ainda assim uma obra a destacar. A poesia romântica inglesa tem sido sempre muito mal-tratada pela edição portuguesa com algumas e boas excepções. Aqui publica-se uma boa selecção dos seus poemas que marcaram uma época e a história da poesia de língua inglesa.

Alfred, lord Tennyson, de quem se celebra em 2009 o 200.º aniversário do nascimento e também o 150.º aniversário da sua visita a Portugal na peugada das viagens de William Beckford, é o mais "mítico" dos poetas românticos na sua temática. As lendas medievais com referência ao território britânico serviram de inspiração a muitos dos seus poemas, acabando por se tornar numa figura de referência para os autores de literatura de fantasia da actualidade.
read more “Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (7)”

Uma daquelas questões

2 comentários

Introdução à escrita criativa - João de Mancelos - Colibri

Uma das coisas que sempre me causou confusão foi receber miríades de convites e informação sobre cursos de escrita criativa e nunca conhecer os formadores. Afinal, se não estamos perante escritores, deveríamos, pelo menos, estar perante críticos, professores universitários da área de letras ou outros relacionados com a escrita, de tal forma que tivessem a capacidade de avaliar o que os alunos produzem de acordo com a sua qualidade e não apenas de acordo com o cumprimento ou não das normas dos processos da escrita criativa. Daí que seja de realçar o primeiro livro português sobre escrita criativa escrito por um escritor (ainda por cima premiado).
read more “Uma daquelas questões”

O grande Nelson Rodrigues é que sabe

2 comentários
«Falei da ascensão do idiota. No passado, eram os "melhores" que faziam os usos, os costumes, os valores, as ideias, os sentimentos, etc. etc. Perguntará alguém - "E que fazia o idiota?". Resposta: - fazia filhos (...) E, de repente, tudo mudou. Após milénios de passividade abjeta, o idiota descobriu a própria superioridade numérica. Começaram a aparecer as multidões jamais concebidas. Eram eles, os idiotas. Os "melhores" se juntavam em pequenas minorias acuadas, batidas, apavoradas. O imbecial, que falava baixinho, ergueu a voz; ele, que apenas fazia filhos, começou a pensar. Pela primeira vez, o idiota é artista plástico, é sociólogo, é cientista, é romancista, é prémio Nobel, é dramaturgo, é professor, é sacerdote. Aprende, sabe, ensina. No presente mundo, ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos. Sem esse apoio, o sujeito não existe, simplesmente não existe. E, para sobreviver, o intelectual, o santo ou herói precisa imitar o idiota. O próprio líder deixou de ser uma selecção. Hoje, os cretinos preferem a liderança de outro cretino.» Crónicas de Nelson Rodrigues
read more “O grande Nelson Rodrigues é que sabe”

Intervalo para almoço

0 comentários segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Estava eu há cerca de uma horita e picos pronto para sair para almoçar quando a Lusa anunciou no Facebook que os países africanos tinham abandonado as negociações da cimeira de Copenhaga. Agorinha, chegado a casa, abro o dito facebook e a Lusa informa-me que os mesmos países voltaram às negociações. Que capricho, até parece que os países africanos tiveram de fazer pausa para almoço. Será que estavam com fome?
read more “Intervalo para almoço”

Terrorismo

0 comentários
O agressor de Berlusconi foi acusado de "Acto terrorista premeditado". Claro, o seu objectivo era a destruição do Duomo.
read more “Terrorismo”

Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (6)

1 comentários domingo, 13 de dezembro de 2009

Animalário universal do Professor Revillod - Miguel Murugarren & Javier Saéz Castán - Orfeu Negro

Quando eu era muito mais novo, na minha ânsia da descoberta de curiosidades, encontrei um dia na montra de uma livraria um livrinho da Thames & Hudson sobre a obra de Athanasius Kircher. Não descansei enquanto não juntei dinheiro para comprar o dito livro. Se já antes tinha uma tremenda fixação pelas gravuras de Roux gravadas por Hildebrand para as edições Hetzel de Jules Verne que o meu avô tinha reproduzidas nos livros da edição de luxo portuguesa publicada pela David Corazzi (sabiam que a única deslocação de Verne a Portugal foi precisamente para assinar contratos com Corazzi que montou em seu torno uma tremenda campanha de marketing - algo que ainda nem existia na altura?). A partir daí desenvolvi outra paixão para alémn da dos livros, a das gravuras de livros.

Este livro é uma delícia Kircheriana, oferecendo-nos a possibilidade de criar animais fantásticos. Não creio que seja um livro para crianças. Os seus bonecos evocam os manuscritos alquímicos, os tratados sobre a natureza do começo do renascimento. E despertaram-me vontade de voltar ao Kircher que estava esquecido na prateleira perto do Dürer e companhia.


Deixem passar o homem invisível - Rui Cardoso Martins - Dom Quixote

Uma das grandes experiências que tive foi uma visita programada que fiz há muitos anos com os meus pais, essa visita partia de Mafra e seguia, na maior parte do tempo, sob a terra, o percurso do aqueduto das Águas Livres desde o seu início até à Mãe D'Água. Sempre pensei que se alguma vez aprendesse a escrever em condições, escreveria um romance sobre esse percurso.

Este romance não tem propriamente nada de relacionado com essa velha linha de abastecimento de água à capital mas houve qualquer coisa desse mundo subterrâneo que senti muito próxima nesta leitura. Certamente o peso de uma cidade cheia de história que escorre por cima do leitor embrenhado com os protagonistas nos esgotos de Lisboa.

A história principal envolve um advogado cego desde os 8 anos e um rapazito que são arrastados, durante uma enxurrada para uma sarjeta na zona de São Sebastião da Pedreira. A partir desse ponto estamos no reino do fantástico ou pelo menos no reino do sub-real (será também surreal?). As conversas entre os dois personagens e as histórias que se cruzam fazem o retrato de um submundo lisboeta estranho e familiar ao mesmo tempo.


Enciclopédia da estória universal - Afonso Cruz - Quetzal

Há muitos anos, um amigo meu agora escritor de alguma nomeada, amigo esse que tinha dupla nacionalidade (portuguesa por um lado e uma nacionalidade pouco vulgar por estes lados), foi concluir um mestrado em Ciências da Educação no tal outro país. Lembro-me de ele me contar divertido que toda a bibliografia da sua tese era, obviamente, portuguesa e totalmente falseada. A tese que apresentou teve bastante aceitação e chegou mesmo a discussão nos média.

Também esta enciclopédia parte de um arranjo ficcional da realidade, uma burla ao leitor que é, ao mesmo tempo, um arrastar para um mundo mágico quase tão subterrâneo oupelo menos quase tão paralelo como o do livro acima.Uma brincadeira deliciosa. Seria um livro quase perfeito se não tivesse optado por colocar estória no título. Essa palavra irrita-me imenso. Assim é um livro quase-quase-perfeito. A ler.
read more “Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (6)”

Grande desafio: com que miniatura agrediria a sua figura pública preferida (ou não)

1 comentários
Berlusconi foi agredido com uma miniatura do Duomo de Milão, em Milão.

Fica pois aqui o desafio: de que forma original agrediria uma figura pública de sua eleição? Com que miniatura, em que local?
read more “Grande desafio: com que miniatura agrediria a sua figura pública preferida (ou não)”

O porquê de «O novo ecléctico»

0 comentários sábado, 12 de dezembro de 2009
Há anos vasculhava eu por entre catramolhos e volumecos empoeirados, empilhados de forma desorganizada na cave bafienta de um livreiro antiquário e passou-me pelas mãos uma revista, quase um folheto, de seu nome "O novo ecléctico". Folheei o folheto que consistia numa espécie de resenha de curiosidades, previsões metereológicas e outras - ao género de um Borda d'Água.

Nos anos finais de faculdade decidi criar uma espécie de newsletter que enviava sem qualquer regularidade a amigos próximos. Nela recomendava livros, filmes, viagens e outras coisas mais. Depois de pensar muito que nome haveria de por a tal newsletter veio-me à cabeça o do folheto de 1800 e troca-o-passo. Era o único título que poderia acolher uma amalgama tão grande de coisas tão díspares.

De há algum tempo para cá, já depois de começar esta febre dos blogues, sempre pensei em criar um blogue. Como me sabia tudo menos escritor, quis fazer um blogue sobre e com música. Fi-lo. Mas algumas notas que queria ir acrescentando sobre outras coisas, notas e coisas dispersas e sem ligação. Sem qualquer pretensão ou valor artístico. Não sou bloguista, queria apenas um lugar onde partilhar experiências com quem queira. E foi por isso que criei este espaço que há-de vir a ser sobre tudo um pouco enquanto eu tiver tempo e paciência para ele.
read more “O porquê de «O novo ecléctico»”

Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (5)

0 comentários

Hitler - Ian Kershaw - Dom Quixote

Em meados deste ano tinha recomendado à minha namorada, que gosta de boas biografias, a edição inglesa que encontrei no meio dos saldos da FNAC, era um calhamaço de mais de 2000 pp. sobre o qual já tinha lido muito. Confesso que nunca pensei ver este livro editado por estas bandas.

Agora percebi que a edição portuguesa tem por base uma edição "reduzida" - o que até compreendo e aceito já que a mesma foi preparada pelo próprio autor.

Para além de ser uma grande biografia em todos os sentidos, falamos do homem que realmente mudou mais radicalmente a face do nosso mundo europeu. Além disso é o símbolo perfeito de como a ignorância e a falta de orientação podem alimentar monstros, monstros que existem porque precisamos deles naquele momento.



O poema, a viagem, o sonho - Arménio Vieira - Caminho

Confesso-me mau conhecedor de literatura africana. Contudo, aqui há uns anos, li o grande livro que é "O eleito do Sol", uma obra que continua a fazer parte dos meus favoritos.

Neste volume Arménio Vieira resume de forma brilhante a esência das temáticas poeéticas da humanidade. Aproxima-se em momentos de Manoel de Barros nas suas "Memórias de Infância", na forma, na construção e na mensagem embora a "narrativa" do poema nada tenha de comum.


Utopias Piratas - Peter Lamborn Wilson - Deriva

Os piratas enquanto anarquistas libertários, a pirataria enquanto forma de escapar aos dogmas sociais e religiosos. Um ensaio histórico de grande qualidade que aborda as relações polifacetadas entre a ideia de pirata enquanto escumalha e a realidade da multitude de aspectos que levaram as mais estranhas personagens a aderir a essa prática que se desenrolava à margem da civilidade convencional.
read more “Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (5)”

O humor pela bibliografia

0 comentários sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
É daquelas coisas que dificilmente achamos poder vir a encontrar em conjunto: os alfarrabistas, os alfarrábios, os sérios pesquisadores bibliográficos que espirram ao pó dos livros (R), imaginamos uma grande seriedade em tudo isto, e por outro lado o humor. Eu confesso que sempre mergulhei nos alfarrabistas e nos montes empoeirados de alfarrábios como um divertido espectador daquilo que se publicou noutros tempos. E a verdadinha é que na minha busca por curiosidades (não quer dizer que não procurasse também os meus autores de sempre ou obras que me abrissem o apetite literário, claro está) tropecei em muitas coisas curiosas e nalgumas declaradamente divertidas.

Uma delas marcou-me tanto que tenho o dito alfarrábio a desfazer-se e à espera de novo emprego para ter dinheiro e remetê-lo para um encadernador. Comprei o dito volume há uns anitos, numa feira do livro, por 400$00. Comprei-o porque ao abrir o volume li um poema e fiquei incrédulo, li outros ao acaso e mais ainda fiquei.

Chama-se o livro "Em pleno Inverno" e é um livro de poesias do Visconde de Carnaxide publicado em 1925 pela Parceria A. M. Pereira.  Claro que fiz a minha investigação caseira sobre o autor que resultou em saber ser ele António Baptista de Sousa, 1.º Visconde de Carnaxide (1847-1935), Sócio efectivo da academia das Sciências de Lisboa, Sócio correspondente da Real academia de Ciencias morales y politicas e da Academia das ciencias politicasy sociales de Venezuela, e director da revista «O Direito». Da sua pena sairam obras de relevo como:

- Questões jurídicas da guerra e da paz : direito actual e sua transformação necessária e esperada / Visconde de Carnaxide. Lisboa : Parceria António Maria Pereira, 1915.
- O regime internacional em preparação / Visconde de Carnaxide. Lisboa : [s.n.], 1919.
- As superstições e o crime. Lisboa : Academia das Ciências, 1916.
- Leitura para letrados / Visconde de Carnaxide. Coimbra : Coimbra Editora, 1925.
- Quarto livro de versos / 1o Visconde de Carnaxide. Lisboa : Parceria António Maria Pereira, 1928.
- Censuras prestimosas e o direito de resposta : duas criticas ao meu livro "No fim do Outono" / Visconde de Carnaxide. [S.l. : s.n.], 1922.
- Homenagem a Ruy Barbosa no seu jubileu literário : oração lida em sessão de 6 de Março de 1919 / Visconde de Carnaxide. Lisboa : Imp. Nacional, 1921.
- O canto do cisne : quinto e ultimo livro de versos / Visconde de Carnaxide. Lisboa : Parceria António Maria Pereira, 1932.
- No Outono da vida / Visconde de Carnaxide. Lisboa : Imp. Nacional, 1920.
- A dictadura de 1890 : discurso proferido na Camara dos Senhores Deputados na discussão do bill de indemnidade... / António Baptista de Sousa. Lisboa : Imp. Nacional, 1890.
- A lei de meios de 1891 1892+ e as auctorisações n'ella contidas : discurso proferido na Camara dos Senhores Deputados na sessão nocturna de 25 de Junho / António Baptista de Sousa. Lisboa : Imp. Nacional, 1891.
- Projecto de lei relativo à fiscalização de sociedades anonymas apresentados na Camara dos Senhores Deputados... / António Baptista de Sousa. Lisboa : Imp. Nacional, 1892.
- Progresso do Norte / propr. Antonio Baptista de Souza e Luiz A. da Nobrega P. Pizarro. Villa Real : Manoel Correia Taveira, 1881.
- A comédia jurídica : scenas de fraudes das leis e casos jocosos da vila forense / António Baptista de Sousa, Visconde de Carnaxide. Coimbra : Imp. da Universidade, 1914.
- Sociedades anonymas : estudo theorico e prático de direito interno e comparado / Visconde de Carnaxide. Coimbra : França Amado Editor, 1913.
- Elogio histórico de José Fernandes Costa : lido em sessão pública da Academia das Sciências de Lisboa de 15 de Abril de 1923 pelo sócio efectivo Visconde de Carnaxide / Academia das Sciências de Lisboa. Coimbra : Imp. da Universidade, 1923.
- Estudos agricolas... / Vinconde da Carnaxide. Lisboa : Imp. Nacional. 1888.
- Tratado da propriedade literária e artística : Direito interno, comparado e internacional / Visconde de Carnaxide. Porto : Ed. da Renascença Portuguesa, 1918.
- Transmontanos ilustres : o visconde de Carnaxide / Grémio de Trás-os-Montes. [S.l. : s.n.], 1930.
- D. João V e o Brasil : ensaio sobre a política atlântica de Portugal na primeira metade do século XVIII / Visconde de Carnaxide. Lisboa : [s.n.], 1952.
- Elogio histórico de Francisco António da Veiga Beirão : lido em sessão solene de 20 de Dezembro de 1919 da Academia das Sciências de Lisboa / pelo Visconde de Carnaxide. Lisboa : Imprensa Nacional. 1919.

Teve direito também a uma biografia: A vida e a obra do Visconde de Carnaxide / Manuel Veloso d'Armelim Junior. Lisboa : Parceria Antonio Maria Pereira, 1928.

Como se pode constatar um homem de direito mas com vasta cultura e conhecimentos e, como quase todos os letrados do seu tempo, um patriota.

Assim e depois de tudo isto decidi, muito provavelmente à rebelia dos descendentes do Visconde - se os há -, ir publicando neste blogue os poemas magníficos que compõem este livro. Espero sinceramente que vos dêem tanto prazer como me deram a mim.

QUADROS PSICOLÓGICOS

PARTE 1

SONETOS(*)

(*) Referindo no elogio Histórico de Fernandes Costa, proferido em 15 de Abril de 1923 na Academia das sciencias em Lisboa o que era bem sabido ter dito Boilean que un sonnet sans défaut vaut seul un long poème; e acrescentando que aqueleexcelso e saudoso académico, que produzira centenas de impecáveis composições d'essa especie, avultando, e em número de quasi de trezentas,as do seu = Eterno Feminino = , no Elogio, que por sua vezali fizera do genial vate brazileiroOlavo Bilac, consignara, =que um sonêto bem conduzido, bem torneado, bem concluido, e, contudo, muitas vezes imperfeito, apesar de belo, contribuia imensamente mais para o renome de quem o compusera d que centenas de páginas luminosas, eloquentes, cheias de pensamentos e de ideias, de estilo, de vida, em que o autor fixara a sua capacidade literária, mas com mais amplitude, com maior largueza = (sendo neste sentido que tendo em 1919 no Almanak Bertrand, que dirigira, traduzido um sonêto, encontrado por acaso, de Privat d'Anglemont, poeta ignorado ou esquecido, anotara, que essa obra primade afortunada inspiração, fôra suficiente só por sipara constituir a gloria do autor); prestei em seguida a informação, que, por ser interessante e para muitos desconhecida, vou aqui reproduzir: de que numa conferencia ácerca do sonêto brasileiro desde Gregorio de Matos a Raymundo Correia, publicada no número de novembro de 1920 da Revista de Lingua Portuguêsa, do Rio de Janeiro,lembrara o seu autor Alberto de Oliveira, que Manuel Fonseca Borralho lhe atribuira as exigências de um silogismo, sendo o 1.º quarteto a permissa maior, o 2.º a menor, e os tercetos a consequência, ou os dois quartetos a maior, o 1.º terceto a menor e o 2.º o corrolario; e que o conceitoconhecido, de que o soneto se ha de abrir com chave de prata e fechar com chave de ouro, tivera uma variante em Faria e Sousa, comentando os de camões, que era como a carrera de um bom cavaleiro, na qual se olha mais o parar que o partir e o correr. [as variações gráficas e de acentuação estão conforme o original]

Expiação (*)

O perdão dessa afronta que te fiz,
sei bem que não se dá por ser pedido,
mas se por meu martírio for mer'cido,
dá-o então por esmola à infeliz.

Por isso vou gozar tormentos vis,
como nunca ninguém tenha sofridom
para que possas ser, já comovido,
e piedoso tu mesmo, o meu juiz.

Se depois eu vier a conhecer,
que ao teu ferido e nobre coração
movêra a minha sorte à compaixão,

Com graça tal eu posso já morrer,
contente de me ter durado a vida,
p'ra ir perante Deus desoprimida.

(*)
O soneto Expiação, a pag. 61, foi-me sugerido por uma situação real de que tive conhecimento, modificando-a apenas na exposição poética para melhor a dramatisar. Não fôra a mesma mas bastante similhante à de outra mulher, conforme posteriormente foi referido numa carta publicada na Ilustração Portuguêsa de 2 de Fevereiro de 1924.

[... Agora vou arejar um pouco o blogue]
read more “O humor pela bibliografia”

Perguntas plenas de pertinácia, ou será pertinência?

0 comentários
Porque será que, desde há cerca de 2 anos, as latas de rodelas de ananás em calda deixaram de ter abertura fácil? Será uma revolução intentada pelas latas de metades de pêssegos em calda (que têm a dita abertura)?
read more “Perguntas plenas de pertinácia, ou será pertinência?”

Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (4)

0 comentários quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O Terror - Arthur Machen - Saída de Emergência

Há uns anos em conversa com o José Manuel Lopes apresentei-lhe o Arthur Machen, era um projecto meu para o futuro poder vir a publicar em Portugal alguns dos contos deste mestre do fantástico (no dizer de Borges). Continuando pois no seu trabalho de tradução de alguns dos nomes maiores da literatura fantástica José Manuel Lopes, aqui aliado a outra tradutora, traduz um texto incontornável de um género literário só muito recentemente redescoberto pelos portugueses.

Machen é um mestre da prosa de sugestão, raramente há uma descrição directa dos terrores que povoam a sua ficção. Mestre na criação de atmosfera, o escritor baseia o seu imaginário nas tradições gaélicas e constrói um universo ímpar na ficção fantástica de língua inglesa.


Jonas, o copromanta - Patrícia Melo - Campo das Letras

Uma subversão do história bíblica, um Jonas compaixão pelas fezes da alma. As semelhanças com aquele que, para mim, é o melhor Saramago, o do "Todos os Nomes", são patentes num romance curto de um dos vultos mais originais da contemporânea escrita brasileira.

Um pequenino livro que desafia o leitor para fazer uma purga cerebral. Nesse sentido será provavelmente o melhor romance brasileiro depois do grande "Zero" de Ignácio de Loyola Brandão.


O monte dos vendavais - Emily Brontë - Presença

Não é, ao contrário do que diz a capa. uma obra-prima da literatura inglesa, mas da literatura universal. É a história de amor/ódio mais forte e provocante que conheço. Um clássico portentoso de uma escritora brilhante que infelizmente não deixou muitas mais obras de valia semelhante.

A luta de paixões entre dois seres humanos inflexíveis nas suas posições e caractéres, num ambiente quase gótico que transforma e amplifica as vibrações de uma paixão destruidora.

Se há livros que realmente enchem a medida e nos marcam, este é um deles. Ainda não conheci quem tenha lido e não tenha ficado impressionado.
read more “Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (4)”

Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (3)

0 comentários quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Luiz Pacheco - Luiz Pacheco - Dom Quixote

Ainda não pus os olhos em cima desta volume mas sendo o catálogo onde se anuncia reunir tudo o que Luiz Pacheco deu à estampa promete. Espero apenas que a edição não padeça da doença patente no textod e apresentação do livro no sítio da editora.

Luiz Pacheco é, para mim, dos homens mais lúcidos deste século que passou no nosso país de gente cada vez menos iluminada. Era também um dos poucos intelectuais lusos com sentido de humor. A importância da sua obraé incontornável e em muito menos páginas consegue colocar a um canto os seus colegas de movimento e época da mesma maneira como faz o retrato perfeito do país e da sua evolução para o bem e para o mal.

Memórias fotobiográficas de Camilo Castelo Branco - José Viale Moutinho - Caminho

Um volume essencial para os estudos camilianos e para o retrato concreto do maior escritor português do século XIX. Este livro tê-lo-ia publicado por capricho.


Cidade de ladrões - David Nenioff - Dom Quixote

Esteve nas minhas mãos ainda na edição inglesa em finais de 2008. Teria sido e era uma das minhas apostas na Cavalo de Ferro e depois na Fundação Agostinho Fernandes e fez ainda parte dos meus planos para outras editoras.

Apesarde integrado na colecção Ficções Universais da Dom Quixote, trata-se de um livro eminentemente biográfico em torno da história de vida do avô do escritor. É uma história simples, mais uma, sobre a irracionalidade da guerra. Durante o cerco a Leningrado o avô do narrador, então um jovem rapaz, é preso pelas forças militares por engano. Depois de uma noite na prisão com outro jovem, um soldado desertor, uma noite onde esperam pela manhã que trará a execussão sumária que era a única forma de um exército reduzido garantir a segurança da cidade, são levados ao comandante das forças militares que lhes faz uma proposta: as suas vidas em troca de ovos frescos para o bolo de casamento da sua filha.

E assim começa uma odisseia louca através de uma cidade gelada onde não há comida (quanto mais ovos frescos) e é o começo de uma história que uniria os dois protanonistas ao longo da vida.

É uma história simples e bem escrita, a sua qualidade maior reside no valor da história e no exemplo daquilo que de pior e melhor o ser humano é capaz. É também uma história que revela o quão surreal a realidade consegue ser.

read more “Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (3)”

O regresso da silly season

0 comentários
Estamos de volta à palhaçada. São os insultos no parlamento, as suspensões de treinadores que já nem o são, e as directoras regionais de educação que nunca o foram. De facto tenho de citar a citação de José Cardoso Pires que a Maria Cota colocou no Facebook: "Portugal não é um país, é um sítio mal frquentado..."

A falta de vergonha ultrapassou todos os limites mas como a falta de educação já era um dado adquirido ninguém deu por ela. Agora o Daniel Bessa quer formar uma associação de cidadãos empenhados que apresente sugestões ao Governo (e eu acrescento: também à oposição). Se isto não é o sinal óbvio da ineficácia do poder governativo e da podridão do sistema não sei que mais poderá significar. E, contudo, o que assusta é a total falta de alternativas. 
read more “O regresso da silly season”

As traduções do japonês

2 comentários
Numa crítica recente à malograda tradução de "Mil Grous" de Kawabata, Francisco Luís Parreira condenava o facilitismo da tradução ser feita a partir da tradução americana e a perda considerável que essa tradução originou.

Curiosamente posso falar com alguma propriedade das traduções de Kawabata e do japonês. Em primeiro lugar porque, saído da faculdade trabalhei na Vega que tinha publicado dois livros geniais do autor. A tradução tinha sido feita pelo Professor Pedro Alvim pouco antes do seu falecimento. Lembro-me que no prefácio de um dos livros o Professor explicava porque tinha sentido necessidade de recorrer ao apoio de alguém (não tenho presenteo nome) relacionado com a Embaixada do Japão e muitos desses motivos eram cioncidentes com as críticas feitas agora.

Diz Luís Dias Parreira: "Não sei, portanto, se faz sentido assinalar que algumas universidades portugueses dispõem de departamentos de cultura oriental e que não teria sido impossível encomendar-lhes uma tradução credível." ao que eu acrescento que ainda por cima Portugal teve uma relação de quase 500 anos com o Japão de grande importância histórica e diplomática. Ainda assim tenho de responder negativamente à questão do crítico do Ipsilon. Quando estive na Cavalo de Ferro e quando decidimos publicar Banana Yoshimoto, contactei embaixadas, Universidades, leitorados e tudo o mais de que me lembrei até que finalmente tive acesso ao único tradutor português de Japonês disponível para fazer tradução literária. Mais ninguém aceitou este desafio. E acreditem que contactei mesmo muita gente. O Professor António Barrento continua a ser, ao que sei, o único tradutor disponível para tradução literária do japonês para a língua de camões e, como também é professor e tem outras tarefas é um traduror lento (o que nem é mau quando toca a textos de complexidade) mas não permite um output regular de traduções.

Para além deste problema há ainda outro: a tradução do japonês não se paga da mesma forma que a tradução do inglês(por exemplo) é uma tradução bem cara. E os direitos de Kawabata são administrados pela Wyley Agency que é famosa por não aceitar avanços de menos de 2000 € (e no caso de um prémio Nobel nem sei se não exigirão mais). Ora esta questão leva o editor a fazer as suas opções. No caso da Cavalo de Ferro preferimos não traduzir Kawabata, a Dom Quixote avançou com uma tradução do inglês como a Presença já tinha feito. É que colocar no mercado um livro do qual já se espera que não seja um best-seller mas que ainda por cima vem de base com uma dívida de pelo menos 4000 € só em tradução e direitos é uma impossibilidade para qualquer negócio e a edição tem de ser um negócio.

Isto lembra-me também que, quando na Cavalo de Ferro editámos a Banana Yoshimoto traduzida do original, tentei explicar precisamente isto à então adida cultural da Embaixada do Japão que não me entendeu. Para ela o apoio de edição conferido pela Japan Foundation destina-se a obras sem grandes possibilidades de sucesso comercial e a Banana Yoshimotoque vendia milhões em todo o mundo não entrava nessa categoria. Por mais que eu lhe explicasse que uma edição portuguesa nunca seria uma edição comercial e que a banan era um teste para entrarmos em traduções de grandes autores japoneses, a senhora achava que nem Kawabata, nem Mishima, nem Banana deixavam de ser autores comerciais pelo facto de venderem muito em todo o mundo. Nesta conversa faltaram as bases e referentes de um negócio eternamente em crise para que a tradução das minhas ideias chegasse à adida. Ainda assim e como os direitos da Banana eram consideravelmente mais baixos que os de Kawabata, avançamos com este teste que acabou por constituir a primeira tradução literária directa do japonês para o português.
read more “As traduções do japonês”

Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (2)

0 comentários

Presa branca - Jack London - Relógio d'Água

Não vou entrar na discussão sobre o título dever ser traduzido como "presas brancas" porque a questão do plural é demasiado óbvia no original de London. E não entro em questões de título porque a última edição deste livro no nosso país, data dos anos 40, publicado pela Gleba com o magnífico "O lobo e os deuses" como título.

Ainda assim não escondo que é uma das obras que eu queria há muito traduzir. Irmã gémea daquele "apelo da selva" onde a redenção não é possível, esta obra apresenta a outra face, o verso da medalha e a salvação possível bem como a esperança para o futuro. É uma grande narrativa para todas as idades.


As obras-primas de T. S. Spivet- Reif Larsen - Presença

Peguei pela primeira vez na edição de língua inglesa deste livro no começo do ano numa FNAC, tinha alguma curiosidade por se tratar de um autor escandinavo. Só mais tarde percebi que o autor era americaníssimo.

Ainda assim (entenda-se aqui a minha relação com a literatura americana contemporânea) este "buildung roman" não pode deixar ninguém indiferente, quanto mais não seja pelo aspecto gráfico das suas páginas, cheias de mapas e anotações. A história revolve em torno de um géniozinho de 12 anos cujo trabalho é reconhecido pela secção de mapas e cartografia do Smithsonian - ainda que não saibam a sua idade. Convidado a deslocar-se ao Museu para receber um prémio de mérito, T. S. Spivet dá início a uma viagem clandestina pelos EUA. Uma viagem que trará ao seu mundo organizado e mapeado uma nova ordem e sentido e um novo entendimento do seu lugar no mundo e junto da sua família.

Pouco importa que o escritor tenha falhado ao apresentar um génio de 12 anos capaz de raciocícios demasiado complexos (e não falo dos mapas e esquemas) para a idade, ainda assim estamos perante um personagem captivante que faz esquecer as falhas do seu criador.


A origem das espécies - Charles Darwin - Guimarães

 Outra daquelas grandes falhas no nosso mercado editorial. Um livro essencial que finalmente se publica e mais um que eu tinha ideia de publicar há muito tempo. A edição é cuidada e só creio que faltam algumas notas contextualizantes e um pouco de apoio científico (a linguagem é fácil e incrivelmente perceptível apesar da época em que o livro foi escrito pelo que não são muitos os pontos onde se nota esta falha).

Se há livro do qual se pode dizer que mudou o nosso mundo este é um dos mais notáveis exemplos, e pensar que não existia uma edição portuguesa... Parabéns ao Jorge Reis-Sá pela ideia.
read more “Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (2)”

Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (1)

0 comentários terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A servidão humana - W. Somerset Maugham - Asa

É um daqueles autores que não consigo evitar. Maugham representante de um mundo em mutação, vogando pelos últimos espaços do mundo que ainda havia para descobrir e descobrindo que o ser humano é o mesmo em todo o lado. Khushwant Singh, que eu publiquei na na Cavalo de Ferro, dizia de Somerset Maugham: "He has nothing to say, yet he says it beautifully." Tenho de concordar, estamos perante o grande mestre da arte de introduzir o leitor na narrativa, de transformar o banal numa aventura da curiosidade humana.

Maugham devia ser totalmente reaproveitado e reapresentado ao público de hoje - é daqueles escritores que, pelo exemplo, transmitem o que de bom e mau há no ser humano de forma didática.

(Claro que com Maugham, se conseguirem ler em inglês tanto melhor, caso contrário ignorem pura e simplesmente a capa.)


Os Cantos de Maldoror - Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont - Antígona

Apesar de haver já uma edição portuguesa, aparentemente ainda disponível segundo algumas livrarias online e com uma tradução de respeito de Pedro Tamen,deve haver motivos para nova tradução de um texto fundamental da literatura europeia.

Maldoror é o mal, nosso narrador neste conjunto de cantos sobre a decadência do Homem, o seu caminho para o fim, para a condenação eterna.

Ducasse criou o ultra-gótico da mesma forma que Miller criou o ultra-erótico. Assim ambos passam para lá do que esses géneros significam, esvaziando o género literário e conferindo-lhe algo mais.



O mundo branco do rapaz-coelho - Possidónio Cachapa - Quetzal

Sabe-se que a nossa época não é uma época de originalidade mas de reinterpretação, reciclagem e re-montagem. Possídónio Cachapa regressa aos escaparates com um grande livro cheio de influências diversas e mantendo a aproximação ao mundo quase-surreal de Murakami que a sua escrita tem tido em tempos recentes. Contudo não é a única influência, estão lá os rapazes coelho do cinema (Donnie Darko, Gummo, Stanley), os mundos do fim do mundo de Miyazaki, e algo de indelevelmente português no sentimento, para além de muitas outras coisas.

(cont.)
read more “Os livros que eu gostaria de ter publicado em 2009 mas foram publicados por outros - (1)”

Os melhores livros de 2009

0 comentários
Para mim, como editor, 2009 foi um ano morto. Confesso que já nem percebia o quanto me faz falta não estar a trabalhar nas obras (como diriam na Oficina do Livro) e quero voltar ao activo o quanto antes.

Contudo e fora esse ângulo, 2009 foi um ano de concretização de mudanças. Ao contrário do que se diz por aí, creio que a qualidade e polifonia da edição no nosso país melhorou, quem passar uma vista de olhos pelos escaparates e evitar as escolhas fáceis e capas gritantes da fast-literature, verá que muitas editoras estão a melhorar catálogos e trabalhar numa perspectiva não tão imediatista. Continuamos ainda assim a publicar livros a mais para o público que temos.

Decidi pois que, durante este periodo que espero seja apenas um interregno na minha profissão, deveria passar a barricada para o lado de lá. Assim e pela primeira vez em mais de 12 anos vou olhar para o que os outros fizeram e eleger os meus livros do ano. Não é que não olhe normalmente para o que fazem os outros editores, é que nesta altura do ano estou geralmente a conversar com os jornalistas e críticos, relembrando os livros que a minha editora publicou para que sejam incluídos (ou não) nas escolhas de Natal ou nas do Ano literário.

Assim ao longo de algumas entradas do blogue nos próximos dias vou deixar os meus destaques e os meus motivos. Claro que não sei tudo o que foi publicado, algumas coisas escaparão certamente, mas também costumam escapar aos jornalistas e eles estão (ou devem estar) a par de tudo quanto acontece na sua área...
read more “Os melhores livros de 2009”

Cultura aos milhares

0 comentários
São milhares de "links" colocados à vossa disposição através do Delicious. Estão agora na coluna da direita. Acumulados ao longo de anos, estes mais de dois milhares "links", são uma base de dados sobretudo para quem está no mundo da edição, mas também para o curioso de generalidades. Ainda não estão organizados como eu queria mas isto vai lá com tempo. Todos os acrescentos serão, certamente, mais-valias, portanto se quiserem espreitem as categorias e opinem, mandem mais "links" e façam sugestões, .
read more “Cultura aos milhares”

Literatura e Comércio

0 comentários quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Texto publicado originalmente aqui.



Li o texto do Professor Rui Zink com o qual concordo em parte mas que também não deixa de ser uma generalização perigosa (algo de que tenho sido acusado diversas vezes neste blogue).

Em primeiro lugar acho curioso que seja dito que as pessoas vão para as editoras com «algumas ilusões». Isso pressupõe que, do ponto de vista do RZ, é um dado garantido que o modelo é todo igual. Ora sabemos bem que apesar de tudo ainda se publicam coisas boas, espalhadas um pouco por quase todas as editoras (até a LeYa e as filiais de empresas espanholas e alemãs). Apesar de não gostar particularmente, vi com bons olhos a coragem na publicação de Musil, por exemplo.

Mais ilusório, parece-me, é não compreender que, quando se vai trabalhar para a edição (e para qualquer negócio, já agora), é preciso pensar em fazer dinheiro. A questão está em ser-se obrigado a só fazer dinheiro ou a fazer dinheiro e não só.

O editor que se preze, qualquer pessoa que trabalhe numa editora com algum tipo de poder de decisão ou pelo menos de sugestão editorial, tem de estar preparado para saber vender o seu peixe. Leiam-se as trocas de correspondência entre Eça, Camilo e os seus editores. Nada disto é novo, só que estamos numa sociedade em evolução onde o marketing dita padrões, a promoção gera modas. É uma necessidade que o editor seja adaptável porque a cultura é cada vez mais interdisciplinar e adaptável também ela. O editor tem de saber navegar entre as correntes e as modas. Tem de ter ao seu lado um bom departamento de marketing e promoção e, sobretudo, ser capaz de percepcionar o imutavelmente garantido segredo da literatura que vende. Essa defeniu-a Aristóteles na sua «Poética» e nada mudou de lá para cá. É a literatura do exemplo, aquela com que os leitores se identificam porque diz algo sobre a sua realidade. É uma literatura de referentes e não a literatura erudita de alcance minoritário. Mas, atenção, que nada disto significa que esta literatura que vende seja má literatura. A história da literatura abunda de exemplos de escritores best-sellers nas suas épocas que entraram para os cânones e de outros que foram totalmente esquecidos. O tempo gera, normalmente, o factor de diferenciação.

Não percebo como evitar o ponto 1) que o RZ enuncia. Nós editores somos humanos. Concordo com o ponto 2) e acho ridículas as situações enunciadas nos restantes. Possíveis mas longe de generalizadas.

A realidade é só uma: é possível apresentar ao público boa literatura (ficção, não-ficção) mostrando a esse público o que há de comum entre a obra e a vivência ou ambição de vida do leitor potencial. Para esta realidade acontecer é preciso uma boa máquina de promoção, porque é assim que o mundo hoje funciona e não se pode escapar a isso.

Claro que concordo com quase tudo o resto que o RZ indica, mas creio que falta explicar porque é que as coisas não devem ser como são e esse é o ponto fulcral, a lacuna principal no texto do RZ.

Esse problema essencial já eu o foquei repetidas vezes neste blogue e noutras ocasiões e locais. É a obrigação que o profissional do sector livreiro tem para com esse mesmo sector e, por conseguinte, para consigo mesmo. Num sector dependente de uma franja reduzida de compradores/clientes/leitores com tendência para se reduzir ainda mais, tem de ser tarefa importante do profissional do livro saber trabalhar para o público que tem mas, mais do que qualquer outra coisa, trabalhar para o público que ainda não tem. Tem de se ganhar novos leitores e isso só se faz com um sistema de ensino diferente, que apele para o gosto e comum trabalho na área editorial, que aproxime o público do produto.

E agora, mais uma vez, concordo totalmente com o RZ: não é o produto que tem de se aproximar do leitor, mas não deixa de ser o trabalho do editor analisar o público e saber como comunicar o seu produto a um leque mais alargado de público. Os truques existem e são truques honestos. Um exemplo que irrita muita gente são as capas de livros com elementos gráficos referentes a filmes. Se estamos a falar de uma boa edição de um bom livro, não vai ser essa capa (ou pelo menos não deveria ser essa capa) a afastar o público conhecedor e reconhecedor de qualidade e, ao mesmo tempo, pode ganhar-se alguns leitores potenciais.

Na área em que tenho trabalhado habitualmente, a da ficção, procurei sempre entender porque é que algumas coisas vendem e outras não e se há algo de que tenho a certeza é que a modernidade (englobando a pós-modernidade) afastou quase definitivamente o artista do público. A arte com aspirações a arte não procura linguagens comuns, funciona para um sector hermético de entendidos ou pseudo-entendidos. Deixou de ser um factor de interligação para ser um instrumento de elitização.O artista é egoísta nos tempos que correm. Quer fazer o que gosta de fazer e escrever na sua linguagem, meramente porque os tempos e filosofias actuais sugerem que apenas a criação pela criação é válida. De uma forma lata acho que a cultura tem, neste momento constrangedor, o maior perigo e maior candidado a némesis que se possa imaginar. O artista deve procurar expressar-se de forma a ser entendido, e se isso implica que tenha de usar uma linguagem «das ruas», assim terá de ser. Conseguir com os instrumentos comuns fazer algo que seja arte, esse é o verdadeiro talento. E quando olhamos para trás na história do Homem, vemos que os grandes exemplos de arte são esses mesmos: os que ainda hoje, de uma forma ou de outra comunicam com o seu público mas também com os outros.

Nesse espírito, o trabalho de um editor está em encontrar o equilíbrio e saber defender essa visão perante o administrador-gestor; saber explicar que algumas coisas se publicam porque fazem dinheiro, outras porque dão prestígio e que algumas, poucas, conseguem ambos os objectivos. Agora, o talento do editor está em fazer este trabalho e manter fasquias de qualidade para ganhar leitores. O trabalho feito por várias editoras portuguesas ao longo dos anos é exemplificativo. Vejamos a Presença, por exemplo: publica prémios Nobel, escritores consagrados, clássicos e todos em edições cuidadas, publica muitos novos autores nacionais, promove-os. Ao mesmo tempo, não deixa de publicar Nicholas Sparks, J. K. Rowling, Susanna Tamaro, séries de literatura infanto-juvenil de qualidade, obras policiais e de ficção fantástica ou científica. E dentro de todos os moldes é das editoras portuguesas que está a construir uma posição de futuro no nosso mercado. Dentro dos vários parâmetros editoriais, faz um trabalho de qualidade (porque temos de ser capazes de dizer que Sparks tem qualidade dentro do seu segmento, que o Harry Potter também, que a Patricia Cornwell também, etc).

Assim, o que tem de acontecer é a consciencialização de quem queira trabalhar na área para que, como em quase todas as áreas ligadas ao produto/mercadoria cultural, não basta apenas ser bom para poder fazer aquilo de que se gosta. Tem de se saber adaptar aquilo de que se gosta ao gosto dos outros e trabalhar numa expectativa de alargamento e difusão cultural.

Ninguém me convence de que o afastamento da literatura do público não é, em parte, responsável pela perda de valores da nossa sociedade. A literatura e a arte foram, desde a antiguidade, meios para ensinar e transmitir valores, História e histórias de proveito e exemplo. A partir do momento em que se afasta de um prisma societário para um alcance pessoal e reduzido, perde-se esta capacidade. O editor tem, hoje mais do que nunca, de exercer a sua responsabilidade de intermediário cultural e tem de ter o talento para o poder ser dentro de uma sociedade mercantilista e capitalista. E é possível fazê-lo, só que o talento não se produz em massa e está apenas ao alcance de uns poucos eleitos. O sistema globalizante é que nos convence cada vez mais de que cada qual pode fazer o que quer, da mesma forma que convence qualquer um a ir a concursos de televisão com perguntas de cultura geral, mesmo quando essa pessoa não tem a mínima cultura; convence qualquer pessoa de que pode ser um artista, quando o essencial para um artista não é o génio mas a capacidade de comunicar e saber sobreviver (veja-se os mestres do renascimento); que convence qualquer um de que pode ingressar numa universidade, quando estaria muito mais indicado para um curso técnico; que convence qualquer um de que pode ser poeta, meramente porque leu os sonetos da Florbela... enfim, os exemplos poderiam alongar-se infinitamente.

Hugo Xavier
Editor desempregado
read more “Literatura e Comércio”