Claro que essa é uma escolha do editor e portanto gostaria mesmo de saber a vossa opinião - depois de lidos os livros - opiniões pelas contracapas são, no mínimo discutíveis.
Assim este ano o romance-choque de Fernando Esteves Pinto, «Brutal». Uma obra para quem gosta da literatura que dá socos, bem aveludados, no estômago do leitor (daqueles socos no estômago que sobem à cabeça porque obrigam a pensar). O Miguel Real disse já por várias vezes que o Fernando é dos poucos escritores portugueses a saber escrever - e como! - sobre sexo mas eu creio que vai muito para lá disso. Há algo de existencialista na sua escrita que o aproxima da força de um «Húmus», esse objecto estranho da nossa literatura, e de «A morte do palhaço», outro ainda mais estranho produto de Raul Brandão.
O livro segue duas idades de um mesmo personagem, fascinado por teatro, que narra trazendo em encenações palpitantes à boca da cena os traumas de infância que enformam a sua difícil relação com a sua companheira. Olhar e diálogo entre os diversos tempos sobre si mesmos e sobre os outros (tempos entenda-se) é um encadear de momentos vívidos escritos de forma inesquecível. Agora não o escondo: é um livro difícil. A Maria do Rosário teve o livro em sua posse mas admitiu que era um livro bom mas difícil de encontrar público. O que acham? São leitores preparados para pugilato literário ou daqueles que preferem ser acarinhados pelas suas leituras? Cada um destes tipos de leitor tem as suas vantagens e desvantagens, as suas glórias e misérias mas os primeiros são mais raros.
MJC fala da solidão como poucos escritores em todo o mundo conseguiram: com uma verdade incómoda e impossível de contornar. Uma incomodidade que se torna física e asfixiante. De repente temos de pousar o livro e olhar em roda. Como dizia o Eduardo Pitta, provavelmente não com estas palavras que seguem por fraca memória, a escrita de MJC vale por todo um seminário de escrita criativa.
Curiosamente próximo do livro do Fernando Esteves Pinto está este também violento romance-choque do Paulo José Miranda (primeiro prémio Saramago) a quem desafiei para regressar à edição deste lado do canal - ele vive agora do outro lado do Atlântico.
Uma obra que põe a nu o vazio das relações modernas e a necessidade de uma violência física e psicológica para comunicar os sentimentos que não conseguimos sequer entender por nós próprios. Crítica do nosso mundo da comunicação em que comunicamos levianamente tudo o que temos de superficial para comunicar mas nunca nos abrimos. E quando o queremos fazer não há como.
Alguém há-de lembrar-se de um livro publicado pela Bertrand em Portugal, corria o ano de 1976. Uma obra proibida no Brasil aquando da sua publicação poucos anos antes e só "liberado" 9 anos depois. Cá também esteve fora de circulação até 1976. Chamava-se «Zero» e durante a Expo 98 foi considerada uma das 100 obras de língua portuguesa do século XX.
«Zero», que vamos publicar em Outubro comemorando, cá como no Brasil, o aniversário da sua polémica publicação, será provavelmente o único romance verdadeiramente inovador do século XX depois das experiências modernistas joycianas (ok, a heresia é minha). Este outro, livro com que começamos a publicação das obras de Loyola Brandão por cá, é algo totalmente diferente mas que, também ele, foi inovador na forma como abordou questões ambientais naquilo que poderia chamar-se um pan-romance, sobretudo pela pluralidade de leituras que permite e pela pluralidade de leitores a quem abre a porta.
Diz-se muitas vezes que os autores brasileiros não vendem em Portugal e até é verdade. À excepção daqueles grandes nomes incontornáveis, qualquer nome que se apresente não merece sequer uma palavra da crítica, quanto mais a atenção dos leitores. Daí também o meu desafio: se é um leitor que gosta de qualquer uma seguintes coisas (independentemente se gosta das outras), se gosta de uma grande história seja ela de amor, policial/thriller, ficção científica, ambientalista ou poética; se gosta de obras escritas numa linguagem aparentemente simples mas onde cada palavra para além de se poder ler à superfície encerra em si outros significados e uma poesia tremenda; se gosta de grandes romances metafóricos comparáveis, por exemplo, a «Ensaio sobre a cegueira», mas que vão muito para lá desse livro em qualidade literária propriamente dita e "inventividade", experimente umas páginas deste mundo onde o desaparecimento da camada de ozono obriga o ser humano a viver de noite e debaixo da terra, a comprar frascos com cheiro de flores ou terra molhada e onde, ainda assim, é tão difícil aceitar a nossa culpa em tudo isso como quebrar as regras de um amor.
É isto. Ficam os desafios e esperam-se as opiniões.